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Esnobar ou não, eis a questão

por Redação Carta Capital — publicado 01/02/2012 14h36, última modificação 01/02/2012 14h37
Existem dois tipos de literatura: a alta e a digestiva. A primeira é arte; a segunda entretenimento. Por Menalton Braff
ABL

Hall de entrada da Biblioteca Rodolfo Garcia, na ABL, no Rio

Por Menalton Braff

 

Não chega a ser um assombro ler que os membros do júri do Nobel, em 1961 esnobaram J.R.R. Tolkien. Me parece que o verbo esnobar não cabe no caso, por sua forte carga pejorativa. O que encontro nos jornais, e onde mais encontraria? é que CS Lewis tentou indicar seu colega ao Prêmio Nobel de Literatura, provocando reação contrária dos outros membros do júri.

A razão apresentada, "o resultado não se comparava às ficções de boa qualidade", não me parece fora de propósito, muito menos ofensivo. Quando alguém resolve escrever, precisa fazer algumas opções. E a propósito transcrevo trecho encontrado no facebook de Matheus Arcaro: A alta literatura faz o leitor tropeçar. E não é todo mundo que está preparado para cair. Por isso os best sellers são best sellers: porque dizem o que o leitor espera. O leitor menos preparado chama isso de "identificação" com a obra. "Puxa vida, este autor diz exatamente o que eu penso." Não percebe que o prazer da leitura é justamente "fechar o círculo". Recusar alguém sob a alegação de pouca qualidade não me parece que seja esnobar.

Ora, não há como negar que em literatura se têm duas categorias básicas: alta literatura e literatura digestiva. A primeira é arte; a segunda entretenimento. A primeira vende pouco, pois são poucos seus leitores; a segunda tem um caráter marcadamente comercial e consegue atingir o grande público. Não faço aqui apologia nem de uma nem de outra. Isso é apenas juízo de realidade, não de valor.

O júri do Prêmio Nobel pode muitas vezes ser questionado, como aconteceu no caso de Günter Grass, acusado de ligações com os nazistas em sua juventude. Alega-se, também, que o júri tem um viés político, conferindo o prêmio de acordo com tal critério. Tudo isso pode ser verdade, mas o que não se pode negar é que o júri esteve desde o início do prêmio preocupado com a “boa qualidade”, como alegou o júri em 1961. Ser bem ou mal vendido nunca entrou na cogitação desses senhores.

Aceito um autor da chamada literatura digestiva, isto é, de entretenimento, não só o futuro do prêmio estaria comprometido, como todo seu passado. Estaria esfacelado o prestígio daqueles autores que já foram agraciados pelo prêmio bem como daqueles que a ele ainda farão jus.

Caso semelhante aconteceu com nossa Academia Brasileira de Letras. A partir do momento em que Getúlio Vargas, General Lira Tavares, Roberto Marinho, e muitos outros de nomes bem conhecidos, conseguiram assento em nossa academia, até Machado de Assis foi arranhado em seu prestígio. O que se pode pensar num caso desses? Que o sodalício não imortaliza ninguém, isso é uma balela, e além disso, que nele tomam assento quaisquer pessoas que por prestígio consigam eleger-se. E o prestígio, meus amigos, sabe-se lá por que meios é obtido.

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