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Cinema - Somos Tão Jovens

Entre ódios e paixões

por Victor Sá — publicado 03/05/2013 13h12, última modificação 03/05/2013 13h48
O filme, baseado na trajetória de Renato Russo, faz um retrato atemporal de um momento único do rock e ganha fãs nascidos após o fenômeno
Somos tão jovens

Thiago Mendonça interpretando Renato Russo no filme Somos Tão Jovens

Um Fla x Flu está prestes a ser travado entre as fileiras dos cinemas brasileiros. Estreia nesta sexta-feira 3 o filme Somos Tão Jovens, de Antonio Carlos da Fontoura, sobre a história da Legião Urbana, banda de rock nacional que despertou paixões e ódios de Brasília ao restante do país.

O primeiro gol foi feito pelo time dos apaixonados por Legião: o longa já tem a maior Fan Page de um filme nacional na história do Facebook com mais de 235 mil “curtidas”, marca expressiva para quem se consagrou nos vinis e primeiros exemplares dos CDs. O espírito a la “temos todo o tempo do mundo” mas “não temos tempo a perder” retratado na tela é atemporal - e, talvez por isso, garanta fãs que já nasceram com os computadores.

A turma de jovens apresentada no filme é “a da colina”, formada por filhos de funcionários públicos transferidos para a recém-criada capital federal e que daria origem a bandas como Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial. Essa turma era liderada pelo então Renato Manfredini Júnior, depois chamado de Renato Russo.

Os gostos e paixões do líder Renato são expostos no filme como um quarto adolescente repleto de posters: há astrologia, confusão de sentimentos por meninos e meninas e a obsessão por literatura e rock. É o momento em que a legião de fãs contemporâneos a Renato mais se regozijam: há cenas como a da “rockonha”, festa que "fez todo mundo dançar", imortalizada na letra Faroeste Cabloco; as rixas entre Renato e os integrantes do Aborto Elétrico; e até a fase de trovador solitário do músico responsável por clássicos como "Eduardo e Mônica". Coube a Thiago Mendonça, um dos atores mais promissores da nova geração, interpretar o rockeiro geracional. Tal qual biografam Renato (morto em 1996), Mendonça alterna fragilidade e agressividade em trejeitos do músico: a ajeitada nos óculos, a alternância de sobrancelhas, as desmunhecadas, o jeito de dançar e o contraste entre a força brutal no palco e a timidez na vida.

Assim como faz o ator norte-americano Daniel Day Lewis, ele quis ser chamado de Renato mesmo fora dos sets de gravação. Por isso, conseguiu alcançar o jeito “Morrison”, mas inspirado em “Morrisey”, como o próprio Renato se descrevia. O figurino, inspirado nos Sex Pistols de Malcom Mclearen, composto por calças e camisetas rasgadas, alfinetes, coturno e cabelo bagunçado compõem o universo daqueles jovens.

Mas o esforço para situar o espectador não familiarizado com a cena musical punk das décadas de 80 e 90 deixa a obra didática demais. Os diálogos são como aulas sobre o mundo de Renato Russo. Há cenas do cantor com sua família, que soam um tanto artificiais como o momento em que Renato acusa os pais de não se posicionarem contra a ditadura. Para os não-leigos, é necessário ter clara a distância entre o livro que inspirou o filme - Renato Russo: O Filho da Revolução - e o filme em si.

Na obra, o jornalista Carlos Marcelo, colaborador no roteiro do filme, expõe o nascimento do rock e da turma da colina graças ao contexto social e político da Brasília dos anos 80. No filme, o roteiro é focado na camaradagem entre os jovens personagens. Segundo o autor, a nova Brasília aparece como terreno fértil para o surgimento de bandas de rock lideradas por filhos de profissionais transferidos de diversas partes do país para o cerrado; o filme, mesmo rodado na capital federal, se desconecta deste contexto e dá a impressão de que a “turma da colina” poderia ter surgido em qualquer lugar do mundo ou da história.

Mas é o espírito de fraternidade das turmas que pode empatar o jogo entre quem ama e quem odeia a Legião. Quando o assunto é Renato Russo, afinal, técnica e qualidade artística ficam quase sempre em segundo plano quando a mensagem acerta o coração.