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Em estado de graça

por Rosane Pavam publicado 11/02/2013 09h36, última modificação 11/02/2013 09h36
Livro narra a história da caricatura brasileira a partir de seus marcos inaugurais e da verve dos artistas que desancaram o poder desde o Império

O humor deve visar à crítica, não à graça, ensinou Chico Anysio, o humorista popular. E disse isto a CartaCapital quando solicitado a considerar o estado atual do riso brasileiro, durante uma entrevista em outubro de 2010. Nos últimos anos de vida, o escritor contribuía para o cômico apenas com sua porção de ator, impedido pela nova televisão brasileira de produzir textos. E o que ele dizia sobre como deveria funcionar a risada ajuda a entender a acomodação de muitos humoristas contemporâneos. Porque, quando eles humilham aqueles julgados inferiores, os pobres, os analfabetos, os negros, os nordestinos, todos os oprimidos em quem parece fácil pisar, não funcionam bem como humoristas. O humor deve ser o oposto disto, uma restauração do que é justo, para a qual desancar aqueles em condições piores do que as suas não vale. Rimos, isso sim, do superior, do arrogante, daquele que rouba nosso lugar social.

O curioso é perceber como o Brasil de muito tempo atrás sabia disto, e o ensinava por meio de uma imprensa ocupada em ferir a brutal desigualdade entre os seres e as classes.  Ao percorrer o extenso volume da História da Caricatura Brasileira – Os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil (Gala Edições, 528 págs., R$ 120), do pesquisador nascido em Nilópolis há 40 anos Lucio Muruci (e que, à moda dos caricaturistas antigos, usa um nome artístico, Luciano Magno, quando publica seu trabalho), compreendemos que tal humor primitivo não praticava um rosário de ofensas pessoais, como o observador contemporâneo se habituou a presenciar. Naqueles dias, humor parecia ser apenas, e necessariamente, a virulência em relação aos modos opressivos do poder.

A amplitude de trabalhos de três centenas de artistas exibida é inédita na história cultural do gênero. E a importância da obra reside na impressionante variedade de estilos e autorias caricaturais que ela desfila. Saem da obscuridade, por conta do trabalho, os nomes que sucederam e precederam o mais recentemente aclamado dos artistas a produzir arte naquele Brasil, Angelo Agostini (1843-1910). Corcundas magros, corcundas gordos, corcovas com cabeça de burro, mutucas picantes, todos esses seres compostos em aspecto polimórfico, com expressivo valor gráfico, muitas vezes produzidos a partir de talentos anônimos, eram os responsáveis por ilustrar a subserviência a estender-se pela Corte Imperial. Contra a escravidão, o comodismo dos bem-postos e dos covardes imperialistas portugueses (os “corcundas”), esses artistas operavam seu espírito crítico em jornais de todos os cantos do País, a maioria deles no Rio de Janeiro, a capital, mas não somente lá.

        

Tratado de historiador, este livro estabelece marcos inaugurais e quer estender a importância da arte por todo o sofrido Brasil do período, não somente sua capital. Ele sustenta que a caricatura brasileira começou anônima, na ilustração a encabeçar o jornal pernambucano de teor nacionalista O Maribondo, aquele que contra a opressão portuguesa, no artigo de abertura, em 25 de julho de 1822, preconizava: “Se os maribondos são maus é porque se intenta arruinar o que é deles; é porque a justiça ultrajada vela em todos os corações”. Foi ousadia de pesquisador o estabelecimento desta data fundadora, enquanto as obras anteriormente conhecidas sobre o assunto fixaram o início do gênero em 1837, com a publicação da litografia avulsa A Campainha e o Cujo, dentro da série Caricatura, por Manoel de Araújo Porto Alegre (1806-1879). Conhecedor da arte de Honoré Daumier (1808-1879) em Paris, o artista brasileiro trabalhou a partir de sua linha e influência humorística. O trabalho de Porto Alegre pareceu tão importante a seus contemporâneos que se viu batizado como “nova invenção artística” pelo Jornal do Commercio do Rio de Janeiro daquele ano.

“De Porto Alegre ninguém poderá tirar a condição de patrono. Ele foi o primeiro profissional desta arte e o primeiro a produzir caricatura regularmente no Brasil”, sustenta em entrevista por telefone Luciano Magno, que, nascido em Nilópolis, apaixonou-se pelos gibis de Mauricio de Sousa na infância, conheceu Henfil no quadro TV Homem, dentro do programa TV Mulher, da Rede Globo dos anos 1980, e se embrenhou pela charge política durante a efervescência do movimento Diretas Já e dos acontecimentos a partir da morte do presidente Tancredo Neves.

Magno coleciona e estuda a caricatura brasileira há um quarto de século. Começou a pesquisa para sua História da Caricatura há 15 anos, durante estudos na cidade do Rio de Janeiro, e a escreve há dez sua obra de fôlego, com patrocínio da Petrobras. Antes, fez um mestrado em torno de Luiz Sá (1907-1979), o inventor das formas arredondadas do personagem Reco-Reco, Bolão e Azeitona para o jornal Tico-Tico, um doutorado sobre Álvaro Marins, o Seth (1891-1949), fundador em 1911 da revista ilustrada Álbum de Caricaturas, e realizou no Rio o Festival de Humor Gráfico, com 11 exposições sobre a história da caricatura desde J. Carlos (1884-1950), a partir de 2002. Em um Brasil ainda não de todo mapeado por seus arquivos, ele arrancou preciosidades dos sebos e comprou originais diretamente da família de alguns artistas, como Seth, que de 1910 a 1950 ilustrou a publicidade do bazar Casa Mathias com cartazes sobre a vida carioca.

Esta obra em sete volumes, a serem lançados em até quatro anos, respeita cronologicamente os acontecimentos da história brasileira, suas temáticas políticas e sociais, mas também, e especialmente, a verve dos artistas comentadores de destaque em cada período. Com ela, Magno espera “nacionalizar” a caricatura local, rompendo, segundo crê, com regionalismos responsáveis por relativizar o pioneirismo de um Porto Alegre, por exemplo. O pintor, arquiteto, cenógrafo, dramaturgo, poeta, político e diplomata nascido em Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, compôs inúmeras pranchas de desenhos a partir de um álbum de 1836 e, entre outras iniciativas, fundou a revista A Lanterna Mágica em 1844. Mas seu pioneirismo no Brasil, segundo o vê o historiador, é de presença autoral. Antes dele houve várias tentativas de realçar a crítica por meio do desenho, especialmente naquele Pernambuco de projetos coletivos com qualidades ilustrativas, sarcásticas e textuais, entre eles O Maribondo, O Carcundão (1831) e O Carapuceiro (1832).

Desde a impressionante representação do beija-mão ao imperador, em 1826, na colorida Cenas da Corte no Rio, pelo artista do qual somente se conhecem as iniciais A.P.D.G., ao índio degolado de Cândido de Faria em O Mosquito, de 1876, à crítica religiosa de José Neves na revista O Diabo a Quatro, de 1877, e ao triunfante “carro do progresso nacional” movido por tartarugas, de autoria de Aurélio de Figueiredo para a A Comédia Social,de 1870, esta obra inaugural, com tiragem de 2,8 mil exemplares, parece orgulhar-se de uma vocação nacional. Como advertia o jornal alternativo A Mutuca Picante, naquele editorial de 15 de setembro de 1834: “A Mutuca declara, zunindo às orelhas de todos, que ela não se importa com este ou com aquele para pregar a sua ferroada, e que só o cheiro de suas manhas, e vista de suas mazelas, aguçará o seu apetite picante”.

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