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Ela fica linda quando está com raiva

por Joanna Burigo publicado 08/06/2016 14h33, última modificação 08/06/2016 14h34
O documentário “She’s Beautiful When She’s Angry” revela algumas das dificuldades e contradições do movimento feminista
Cena do filme Shes Beautiful When Shes Angry

Documentário 'She’s Beautiful When She’s Angry' é um bom ponto de partida para conhecer a história do movimento

She’s Beautiful When She’s Angry ("Ela fica linda quando está com raiva", em tradução livre) é um documentário de 2014 que resgata a história do movimento feminista dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970.

Dirigido por Mary Dore e estrelado por figuras fundamentais da construção da episteme feminista moderna, como Kate Millet - autora do clássico Política Sexual - e Eleanor Holmes Norton, primeira mulher a presidir o Comitê de Igualdade de Oportunidades de Emprego nos EUA, o filme está atualmente disponível na Netflix.

 

O documentário é balizado por manifestações recentes sobre direitos reprodutivos que se deram em Austin, no Texas, e apesar de situado em um contexto geográfico e histórico específico, é possível encontrar semelhanças entre o desenvolvimento da “segunda onda” do feminismo estadunidense e a recente expansão do movimento no Brasil.

As primeiras imagens do filme mostram faixas e cartazes de protesto contendo frases de efeito semelhantes às que nos acostumamos a ver pelas ruas do País nos últimos anos: “respeita as mina”, “meu corpo, minhas regras”, e a indefectível sugestão de que se homens engravidassem, contraceptivos seriam distribuídos gratuitamente e o aborto já teria sido descriminalizado.

Do palanque do evento vem a constatação: os argumentos feministas são antigos e já há muito lutamos pelas mesmas coisas. O que segue é uma pergunta um tanto retórica: “Deveríamos estar furiosas... vocês estão furiosas?”.

(Estamos. Estamos furiosas porque faz tempo que lutamos por direitos muito básicos. Se já conquistamos alguns – como o sufrágio e acesso a educação, exemplos do quão basilares nossas demandas podem ser – foi com muito sangue, suor, lágrimas, textões e hashtags. Estamos furiosas porque sabemos que nada garante a manutenção dos direitos que já conquistamos. E estamos furiosas por ainda não termos conquistado, ao menos não no Brasil, o direito pleno à autonomia e controle total sobre nossos corpos. Estamos furiosas, e é irrelevante se ficamos ou não bonitas quando demonstramos nossa raiva.)

O título do documentário é indicativo das tensões que circundam o debate feminista. Enquanto o filme oferece boas reflexões acerca do movimento, ele não o simplifica.

Declarar que uma mulher fica bonita quando expressa raiva alimenta ao menos duas interpretações contraditórias: a primeira corrobora com o vício social de associar mulheres e beleza, e a segunda festeja a beleza como combustível para a luta.

As duas interpretações são válidas: o feminismo, ao mesmo tempo, batalha pela desconstrução de feminilidades estéticas que dependem de um modelo hegemônico de beleza, e celebra belezas não hegemônicas em um projeto de empoderamento que visa fortalecer a autoestima das mulheres.

Incongruências como estas deixam muita gente confusa a respeito do feminismo. No entanto, um dos aspectos mais fascinantes do movimento é precisamente sua capacidade para não apenas entreter pensamentos conflitantes, mas progredir a partir deles. E isto o filme captura bem.

A diversidade de pensamento, embora muitas vezes difícil de digerir, é parte intrínseca do movimento feminista, e o formato do filme reflete esta característica: ao invés de focar em uma pauta específica, a diretora escolheu mostrar a pluralidade de vozes que compuseram o Women’s Lib.

Esta variedade de posições, imagino, foi o que a levou a não ancorar o filme em nenhuma voz em particular. Dore apresenta, com gosto, as nuances e a multiplicidade de pontos de vista de suas entrevistadas, pois parece saber que embora existam divergências entre correntes, qualquer pauta feminista é decisivamente destinada a promover equidade de gênero.

O documentário evidencia um padrão global e histórico do movimento: entre vertentes feministas existem coalizões de sobra – mas também não faltam colisões.

Dos muitos atritos entre grupos dissidentes, o que mais chamou atenção foi a revelação de que Betty Friedan (autora de A Mística Feminina, considerado um dos livros mais importantes do século XX) não queria abordar pautas lésbicas para que o movimento não perdesse o foco.

Por isso, talvez, o filme nem sempre explicite as correntes a que pertencem suas entrevistadas. Passado o tempo, quem sabe as divergências não importem tanto, e mais vale apreciarmos estas mulheres e as formas como elas mudaram o mundo.

Virginia Whitehill – ativista conhecida por apresentar argumentos perante o Supremo Tribunal dos EUA durante o processo judicial que confirmou a legalidade do aborto nos EUA – abre a série de entrevistas refletindo que não é possível se aposentar do movimento feminista, pois é necessário continuar prestando atenção no poder, que ainda é patriarcal e sempre encontra maneiras de puxar nosso tapete.

Outras entrevistadas são as autoras do livro Our Bodies, Ourselves, best-seller global sobre a saúde da mulher (ainda sem tradução no Brasil) e obra coletiva surgida a partir do trabalho de estudantes que compilaram informações – sobre menstruação, ciclos hormonais, orgasmo e aborto, por exemplo – que, na época, simplesmente não estavam disponíveis.

Também presentes estão as veteranas da Jane Collective (serviço clandestino de aborto baseado em Chicago), que revelam suas táticas para ajudar mulheres em necessidade. E o documentário não deixa de apontar para as lutas específicas das mulheres negras, que, além da exploração patriarcal, sempre tiveram que lidar com questões de discriminação racial.

Não obstante a pluralidade vocal do filme, ele toca em questões-chave: normas hegemônicas de feminilidades dóceis e domésticas foram questionadas por feministas; se o assédio sexual hoje em dia é levado a sério e considerado crime, isso foi por causa dessas mulheres; acusações de estupro, embora ainda lamentavelmente varridas para debaixo do tapete, têm mais crédito hoje por causa do trabalho feminista; nos EUA a prática do aborto é legal, e esta também foi uma conquista das feministas de lá (e se um dia isso mudar por aqui, é certo que feministas terão feito parte do processo).

She’s Beautiful When She’s Angry é um documentário delicioso para quem quer começar a conhecer o feminismo, e convida espectadoras não familiarizadas a saber sobre a luta e as conquistas das mulheres que fizeram a chamada “segunda onda” do movimento.

Mas ele também é um filme revigorante para quem já é feminista – e a edição, que combina imagens antigas e atuais de entrevistas, teatro de rua, protestos e discursos políticos, parece ter sido feita para salientar o valor de conhecermos a história e o trabalho de nossas precursoras.