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Cultura

Crônica do Menalton

Da neutralidade

por Menalton Braff publicado 09/10/2012 13h46, última modificação 09/10/2012 13h46
A pretensa neutralidade da arte é pura escamoteação. Por Menalton Braff
Roland Barthes

Roland Barthes. Foto: Galeria de believekevin/Flickr

Tenho de começar declarando que isto aqui é uma crônica, não um ensaio. Não estou, portanto, obrigado a citar minhas fontes ou fornecer uma bibliografia como certos textos de que, por sua natureza, exigem-se.

E, como cronista, afirmo que toda neutralidade é uma ingenuidade. Se alguém assiste a um marmanjão massacrando uma criancinha e se diz neutro, é difícil entender que ele está beneficiando o marmanjão? Usando a terminologia hegeliana, se não interfiro em um processo qualquer e me mantenho neutro (posição admitida como hipótese), estou reforçando a tese em luta contra a antítese. E não existe movimento que não seja em luta.

De umas leituras antigas me lembro de uma afirmação que me norteou a vida toda. A falácia da neutralidade esconde, sempre, um apoio implícito ao statu quo, isto é, a concordância, ou pelo menos a aceitação, da situação vigente.

Ora, seres humanos, que somos, estamos condenados à liberdade (Sartre), que, por sua vez, implica responsabilidade. Sujeitos de nossa própria história, abdicar de uma tomada de posição não é só covardia, muito mais que isso, é declarar-se satisfeito com o existente. Ou, em outras palavras ducor non duco.

Este assunto me ocorre porque neste fim de semana fui acusado de, em meu último romance, O casarão da rua do Rosário, ter assumido uma posição política de um grupo de personagens em detrimento de outro. O autor da acusação me queria neutro. Ah, meu caro, nem o Roland Barthes acreditava mais no “grau zero da escrita”. A pretensa neutralidade da arte é pura escamoteação. Não existe, a não ser no pensamento ingênuo de algumas pessoas.

Mas preciso dizer mais. Não sou a favor da arte como panfleto, não sou a favor da arte utilizada pelo poder seja ele qual for. Mas não existe arte que não seja a cosmovisão do artista. Caravaggio foi barroco porque não viu o mundo como este era visto por Leonardo da Vinci. Ele pintou como entendeu o mundo. Castro Alves não vituperou a escravidão apenas como desfastio. Mas que digo eu, isso já é radicalizar o argumento. A poesia de Lord Byron, por acaso, não é a expressão de sua visão do mundo?  Alguém já fez arte contra seus princípios (morais, políticos, religiosos)? A leitura profunda de qualquer objeto artístico vai sempre encontrar uma maneira especial de encarar o mundo.

Então, para finalizar, o que não pode, meu caro leitor, isto sim, é que a moral, a política ou a religião estejam como objetivo primeiro do objeto de arte. Se o plano da expressão perde espaço para o plano do conteúdo, aí sim, aí nós temos uma arte falhada em seu princípio. Acho que fui acusado de um pecado por erro de leitura do acusador, só isso.

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