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Cultura

Crônica

Cuspido e escarrado

por Menalton Braff publicado 27/05/2016 14h28
Quando hoje se quer dizer que o filho é muito parecido com o pai, usa-se essa expressão estranha
Frank Lindecke / Creative Commons / Flickr
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Quando hoje se quer dizer que o filho é muito parecido com o pai, usa-se essa expressão estranha: ele é cuspido e escarrado o pai. Pense bem, cuspido por quê? Seria por acaso alguma alusão ao ato gerativo do filho? E ainda por cima escarrado! Não, nem me arrisco a procurar qualquer outra semelhança. Seria lidar com matéria que no início do século XX encantou a mocidade leitora de Augusto dos Anjos. O lado naturalista do Augusto dos Anjos, que nos mandou escarrar na boca que nos beijasse. 

Mas é claro que não se trata de nada disso aí. O fenômeno das transformações da língua pelo rolar das palavras no limo dos tempos é bem mais comum e frequente do que pensa a maioria. Assim como também acontece com os costumes. De onde vêm nossos hábitos que hoje parecem completamente ilógicos?

Quando os soldados franceses, enfrentando o inverno europeu, começaram a usar um pano amarrado no pescoço para se assoarem, deixando em paz as mangas das túnicas de seus uniformes, ninguém poderia imaginar que estava nascendo ali a gravata, que hoje se usa sem a menor função prática. Em lugar de depósito do muco nasal, elas representam o status de seus portadores. E por falar nisso, há muito indivíduo que sai por aí enganando a cristandade só porque tem um pedaço de pano pendurado no peito. Como pode ter mudado tanto? Algum historiador já deve ter acompanhado seu itinerário, que veio da mais ignóbil função para o mais elevado posto. 

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Não é muito diferente o que deve ter acontecido com o “cuspido e escarrado”, de extração popular, na atualidade, e que nada mais é do que a antiga expressão “esculpido e encarnado”, da qual se originou. Ora, dizer que o filho é o pai esculpido faz sentido. Você não acha? Em uma escultura pode-se tentar a reprodução de uma figura qualquer, sendo o filho, então, comparado a uma escultura do pai, uma cópia em carne e osso. E ainda mais com o reforço de encarnado, que aqui não significa “vermelho”, mas que “encarnou”, que tem a imagem de, que se parece com.

Nos tempos que vivemos, tempos sombrios, é bom que estejamos atentos aos significados antes de nos enganarmos com sua representação verbal. Democracia, por exemplo, é uma palavra em que cabe de tudo, até o crime sob a alegação de defendê-la. 

A história da humanidade está repleta de exemplos. Quem pode me dizer de onde vem o costume de marcar com um anel quem já se emparceirou com alguém de outro gênero? Ou do mesmo, já não sei mais. 

E la nave vá!