Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Boletim Médico

Cultura

Crônica do Villas

Boletim Médico

por Alberto Villas publicado 27/08/2015 09h49
No mundo moderno, a mania de doença virou epidemia
Flickr/ Tatsuo Yamashita
Vick-Vaporub

Quando aparecia uma dor de garganta, era só esfregar Vick-Vaporub

Quando alguém tinha uma dor de cabeça, bastava tomar um comprimido de Melhoral e pronto. A propaganda dizia que Melhoral é melhor e não faz mal.

Quando alguém cortava o dedo, abria o armarinho do banheiro, pegava o vidro de mercurocromo, um chumaço de algodão, passava no corte, soprava e acabou.

Quando alguém andava meio esquecido, rezava uma oração pra São Longuinho, dava três pulinhos e fim de papo.  

Quando alguém estava com disenteria, que chamávamos de piriri, a solução era um comprimidinho marrom de Entero Viofórmio. Tiro e queda.

Quando alguém tinha umas pontadas no coração, aparecia sempre alguém que aconselhava: Respira fundo! Respirava e a dor ia embora. 

Quando alguém estava sentindo o fígado meio estropiado, nada melhor que umas pílulas de vida do Doutor Ross.

Quando alguém andava meio nervoso, era só tomar uma colherada de Maracugina que ficava calminho em poucos minutos.

Quando caia um cisco no olho, bastava pingar uma gotinha de colírio Moura Brasil e a vida seguia.  

Quando alguém acordava com dor nas costas, ia até a farmácia e comprava uma caixa de emplastro Sabiá. Adeus dor nas costas!

Quando aparecia uma dor de garganta, era só esfregar Vick-Vaporub e a garganta ficava inteirinha de novo.

Quem tinha pé torto, usava botinha ortopédica. Quem era caolho, usava um tampão na vista. Quem quebrava o pé, engessava. Quem tinha sarna, tomava um banho com sabonete de glicerina. Quem estava sem apetite, Biotônico Fontoura! Quem estava ficando raquítico, óleo de fígado de bacalhau.

Quem torcia o pé? Iodex! E quem tinha frieira nos pés, a solução era o tal Polvilho Antisséptico de Granado.  

Agora quem tinha soluço, colocava um pedacinho de papel na testa e quem tinha dor de dente, cera do Doutor Lustosa.

Hoje a coisa mudou. O pânico tomou conta das pessoas, sadias ou não. 

Dor de cabeça? Deve ser câncer no cérebro!

O corte não cicatrizou? Leucemia!

Esqueceu onde colocou a chave do carro? Princípio de Alzheimer.

Dor de barriga? Deve ser alguma coisa grave no intestino.

Estresse? Isso tem algum fundo psicológico e pode ser grave. Psicólogo já!

Até um mísero cisco no olho, há desconfiança de deslocamento da retina.

Não sei se é a idade, mas ando desconfiado que todo mundo está meio paranoico com doença. Da fila do postinho do SUS ao café no saguão do Hospital  Sírio-Libanês.

Parodiando um antigo compositor pernambucano, acho que pra essa paranoia generalizada do mundo moderno, “não há um só remédio em toda medicina”.