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Cultura

Matheus Pichonelli

Crônica

23.02.2012 13:31

‘Azarão’ do Oscar é um tapa na afetação

Imagine a cena. Toda vez que seu tio fala do quanto gastou com a reforma da casa, o cunhado volta a defender a pena de morte, a cunhada dá detalhes sobre seu mestrado em poodles anêmicos da Austrália, a irmã cita as virtudes financeiras e a viagem MA-RA-Vi-LHO-SA com o novo namorado ou a prima desembesta a narrar a próxima cirurgia plástica, um sujeito de óculos, magrelo, aparece desajeitado olhando para a câmera com o polegar para trás dizendo: “deprimente, não?”.

Não sei se vocês perceberam, mas a humanidade dá cada vez mais sinais de cansaço e preguiça. Não bastassem as tragédias que temos de engolir todos os dias sobre acidentes evitáveis, guerras desnecessárias, bombardeios intencionais e cinismos publicados em Diários Oficiais, ainda temos de conviver, a poucos metros, com as ninharias mais fúteis que o ser humano pode produzir.

No filme, Allen encarregou Gil (Owen Wilson) de dar o seu recado à birguesia afetada: “vocês são insuportáveis”

Nos últimos tempos, temos visto e ouvido de tudo em rodas de conversas que reúnem dois ou mais bípedes numa mesma mesa. Todos os campeões em tudo desfilam a olhos vistos como no Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada”).

O fato é que entendo cada vez mais os adolescentes que abandonam conversas de adultos e mergulham em fones de ouvido para fugir de conversas sobre temas lamentáveis. “Rapaz, o fulano tá lavando a égua com aquela firma, viu?”; “Comprei o meu em Nova York por muito menos”; “Tá tão difícil arrumar empregada hoje em dia”; “Meu currículo fala por si só”; “Meu cartão de crédito não tem limites”; “O lugar anda muito mal frequentado”…

Como não há fones de ouvido por perto, olho para o lado e lamento que a vida real não seja um livro, ou filme, em que digressões ainda são permitidas. Só para poder deixar claro que ninguém suporta o garanhão falador, a perua sem superego nem o ricaço babão.

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Mas a digressão é, infelizmente, um recurso restrito à criação artística. Na literatura, era a posição de jogo favorita de Machado de Assis. Ninguém como ele mandava parar a “cena” de tempos em tempos para tecer comentários acerca dos personagens que ele mesmo criava. Cada digressão era uma cusparada nos maus (ou bons) costumes – uma cusparada no centro da luva pelica e golpeada à mão cheia, no meio do rosto.

No cinema, poucos fazem isso melhor e tão descaradamente quanto Woody Allen. Basta lembrar da cena clássica de “Noivo Neurótico, noiva nervosa”: desgastado com as afetações do mundo que o cerca, Alvy Singer (personagem interpretado pelo próprio Allen diretor) interrompe uma conversa entre desconhecidos que falavam sobre Marshall McLuhan na fila do cinema. Pede para que o sujeito sabidão pare de falar bobagens e recebe uma carteirada: “sou estudioso e autoridade no assunto”. Irritado, Singer sai de cena e volta com o próprio McLuhan pelo braço. E pergunta: “Professor, esse sujeito sabe alguma coisa que está dizendo”. E McLuhan, o próprio, responde: “Não, ele não entendeu nada”.

Tudo o que Gil queria, na viagem, era visitar a Paris que, décadas antes, reuniu seus artistas favoritos

Olhando a lista de indicados ao Oscar de melhor filme neste ano, chega a dar pena que o último filme de Allen, “Meia Noite em Paris”, tenha tão poucas chances de levar a estatueta. Lançado no meio do ano passado, o filme corre atrás, literalmente, das grandes produções recém-saídas do forno, como o belo e favoritíssimo “O Artista” – cujo prêmio ainda pode engordar as fileiras das salas onde ainda está em cartaz.

Ainda assim, entre todos os filmes indicados, “Meia-Noite em Paris” é, talvez, o que mais bem representa o grito de um humanismo doente, golpeado pela avareza de espírito que assola o século XXI. No filme, Allen distribui, com elegância, cusparadas sobre uma burguesia afetada, vazia e arrogante que hoje dá as cartas no Planeta. O ator-diretor não está lá, mas encarregou o jovem escritor Gil (Owen Wilson) de dar o seu recado: “vocês são insuportáveis”.

De tudo tudo, o que mais chama a atenção no filme é a capacidade de levar à tela cenas que, fatalmente, o espectador mais atento já testemunhou: os caprichos de uma esposa vazia, a cobrança dos sogros para que ele “pense grande” e “enriqueça”, o deslumbramento ingênuo de um casal de amigos encontrados por acaso em Paris (um casal que daria preguiça em qualquer ser humano).

Tudo o que Gil queria, na viagem, era visitar a Paris que, décadas antes, reuniu e inspirou seus artistas favoritos, como Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway e Luis Buñuel. Mas, como tudo o que as pessoas na sala de jantar querem é nascer e morrer – ou ir às compras e desfilar a própria ostentação – Gil se vê sozinho no propósito de, simplesmente, andar, caminhar, conhecer gentes e lugares. Em vez disso, apenas testemunha a babação de ovo sobre os amigos ricos – e ouvir, nas visitas ao Louvre e aos jardins de Versalhes, o marido da amiga se declarar especialista em tudo o que envolve a cidade-luz, os vinhos inclusive…(dão ou não dão preguiça?)

Enquanto os amigos desfilam suas referências, Gil vai direto à fonte, e transforma os ídolos famosos em velhos amigos. A realidade, parece dizer Allen, é tão tosca e cansativa que o melhor refúgio são os próprios sonhos, ou a projeção de algo que transcenda às mesquinharias mundanas. Se o circulo de quem um dia pensou e mudou os rumos da humanidade era de fato tão nobre e sublime não se sabe – os ídolos, afinal, têm pés de barro.

Mas o recado está dado e é uma pena que só as crianças possam ser indelicadas o suficiente para colocar os fones nos ouvidos e deixar os adultos vomitando sozinhos, taças para o alto, as próprias conquistas. Na vida social adulta, ainda não inventaram o “mute” nem uma câmera que congelasse imagens e delatasse na tevê as nossas próprias patacoadas.

Para todo o resto existe a digressão. E Woody Allen.

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Sua opinião

  1. Guto disse:
    Matheus, lembra-se do lançamento do filme ? Se não me engano, foi no Oscar do ano passado... o Woody Allen chegou lá e falou que queria fazer um filme em Paris, mas que até chegar lá não fazia idéia do que iria filmar... esta declaração já tinha sido uma provocação. Eu não imaginava que o filme concorreria a alguma coisa neste ano, afinal, não é um filme para o Oscar. Parece que foi um filme feito na hora mesmo, sem muita preocupação, uma historia bobinha, umas críticas sutis, como você descreve, uma idéia interessante de viajar no tempo para encontrar os grandes autores, no cenário da bela cidade luz... e mais nada... um bom filme. Mas em termos de crítica, acho que distopias ou filmes de zumbis são melhores, vão mais direto ao ponto, sem a preocupação de fazer um filme bonitinho, que dê bilheteria, com um romancezinho etc... como a fórmula que o Woody Allen sempre utiliza nos seus roteiros... A inclusão por meio do consumo faz uma sociedade de zumbis, tudo se resume ao consumo. Estamos ferrados...
  2. Fábio de Oliveira Ribeiro disse:
    A premiação do Oscar nunca foi uma questão artística ou estética, mas uma questão mercadológica ou financeira (como quase tudo na gringolândia, aliás). Vitória previsível do dinheiro, sempre.
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