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Cultura

Crônica

'Azarão' do Oscar é um tapa na afetação

por Matheus Pichonelli publicado 23/02/2012 13h31, última modificação 29/02/2012 07h07
Como em "Meia-Noite em Paris", seria bom se, de vez em quando, Woody Allen congelasse as cenas da vida real para lembrar o quanto somos lamentáveis
meia-noite

No filme, Allen encarregou Gil (Owen Wilson) de dar o seu recado à birguesia afetada: “vocês são insuportáveis”

Imagine a cena. Toda vez que seu tio fala do quanto gastou com a reforma da casa, o cunhado volta a defender a pena de morte, a cunhada dá detalhes sobre seu mestrado em poodles anêmicos da Austrália, a irmã cita as virtudes financeiras e a viagem MA-RA-Vi-LHO-SA com o novo namorado ou a prima desembesta a narrar a próxima cirurgia plástica, um sujeito de óculos, magrelo, aparece desajeitado olhando para a câmera com o polegar para trás dizendo: “deprimente, não?”.

Não sei se vocês perceberam, mas a humanidade dá cada vez mais sinais de cansaço e preguiça. Não bastassem as tragédias que temos de engolir todos os dias sobre acidentes evitáveis, guerras desnecessárias, bombardeios intencionais e cinismos publicados em Diários Oficiais, ainda temos de conviver, a poucos metros, com as ninharias mais fúteis que o ser humano pode produzir.

Nos últimos tempos, temos visto e ouvido de tudo em rodas de conversas que reúnem dois ou mais bípedes numa mesma mesa. Todos os campeões em tudo desfilam a olhos vistos como no Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada”).

O fato é que entendo cada vez mais os adolescentes que abandonam conversas de adultos e mergulham em fones de ouvido para fugir de conversas sobre temas lamentáveis. “Rapaz, o fulano tá lavando a égua com aquela firma, viu?”; “Comprei o meu em Nova York por muito menos”; “Tá tão difícil arrumar empregada hoje em dia”; “Meu currículo fala por si só”; “Meu cartão de crédito não tem limites”; “O lugar anda muito mal frequentado”...

Como não há fones de ouvido por perto, olho para o lado e lamento que a vida real não seja um livro, ou filme, em que digressões ainda são permitidas. Só para poder deixar claro que ninguém suporta o garanhão falador, a perua sem superego nem o ricaço babão.

Mas a digressão é, infelizmente, um recurso restrito à criação artística. Na literatura, era a posição de jogo favorita de Machado de Assis. Ninguém como ele mandava parar a “cena” de tempos em tempos para tecer comentários acerca dos personagens que ele mesmo criava. Cada digressão era uma cusparada nos maus (ou bons) costumes – uma cusparada no centro da luva pelica e golpeada à mão cheia, no meio do rosto.

No cinema, poucos fazem isso melhor e tão descaradamente quanto Woody Allen. Basta lembrar da cena clássica de “Noivo Neurótico, noiva nervosa”: desgastado com as afetações do mundo que o cerca, Alvy Singer (personagem interpretado pelo próprio Allen diretor) interrompe uma conversa entre desconhecidos que falavam sobre Marshall McLuhan na fila do cinema. Pede para que o sujeito sabidão pare de falar bobagens e recebe uma carteirada: “sou estudioso e autoridade no assunto”. Irritado, Singer sai de cena e volta com o próprio McLuhan pelo braço. E pergunta: “Professor, esse sujeito sabe alguma coisa que está dizendo”. E McLuhan, o próprio, responde: “Não, ele não entendeu nada”.

Olhando a lista de indicados ao Oscar de melhor filme neste ano, chega a dar pena que o último filme de Allen, “Meia Noite em Paris”, tenha tão poucas chances de levar a estatueta. Lançado no meio do ano passado, o filme corre atrás, literalmente, das grandes produções recém-saídas do forno, como o belo e favoritíssimo “O Artista” – cujo prêmio ainda pode engordar as fileiras das salas onde ainda está em cartaz.

Ainda assim, entre todos os filmes indicados, "Meia-Noite em Paris" é, talvez, o que mais bem representa o grito de um humanismo doente, golpeado pela avareza de espírito que assola o século XXI. No filme, Allen distribui, com elegância, cusparadas sobre uma burguesia afetada, vazia e arrogante que hoje dá as cartas no Planeta. O ator-diretor não está lá, mas encarregou o jovem escritor Gil (Owen Wilson) de dar o seu recado: “vocês são insuportáveis”.

De tudo tudo, o que mais chama a atenção no filme é a capacidade de levar à tela cenas que, fatalmente, o espectador mais atento já testemunhou: os caprichos de uma esposa vazia, a cobrança dos sogros para que ele “pense grande” e “enriqueça”, o deslumbramento ingênuo de um casal de amigos encontrados por acaso em Paris (um casal que daria preguiça em qualquer ser humano).

Tudo o que Gil queria, na viagem, era visitar a Paris que, décadas antes, reuniu e inspirou seus artistas favoritos, como Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway e Luis Buñuel. Mas, como tudo o que as pessoas na sala de jantar querem é nascer e morrer – ou ir às compras e desfilar a própria ostentação – Gil se vê sozinho no propósito de, simplesmente, andar, caminhar, conhecer gentes e lugares. Em vez disso, apenas testemunha a babação de ovo sobre os amigos ricos – e ouvir, nas visitas ao Louvre e aos jardins de Versalhes, o marido da amiga se declarar especialista em tudo o que envolve a cidade-luz, os vinhos inclusive...(dão ou não dão preguiça?)

Enquanto os amigos desfilam suas referências, Gil vai direto à fonte, e transforma os ídolos famosos em velhos amigos. A realidade, parece dizer Allen, é tão tosca e cansativa que o melhor refúgio são os próprios sonhos, ou a projeção de algo que transcenda às mesquinharias mundanas. Se o circulo de quem um dia pensou e mudou os rumos da humanidade era de fato tão nobre e sublime não se sabe – os ídolos, afinal, têm pés de barro.

Mas o recado está dado e é uma pena que só as crianças possam ser indelicadas o suficiente para colocar os fones nos ouvidos e deixar os adultos vomitando sozinhos, taças para o alto, as próprias conquistas. Na vida social adulta, ainda não inventaram o “mute” nem uma câmera que congelasse imagens e delatasse na tevê as nossas próprias patacoadas.

Para todo o resto existe a digressão. E Woody Allen.

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