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Cultura

Resistência

Artistas contra Temer fazem protesto na Bienal

por Rosane Pavam publicado 05/09/2016 20h50, última modificação 06/09/2016 15h29
Integrantes do grupo Aparelhamento planejam ações antigolpe subsidiadas por um fundo arrecadado com o leilão de suas obras
Anna Carolina Negri
Carolina Caycedo

Artistas internacionais, como Carolina Caycedo, nascida em Londres e residente na Colômbia, também aderiram ao protesto na Bienal

A ideia tomou corpo quarta-feira, 31 de agosto, dia do golpe. Reunidos, os artistas do coletivo Aparelhamento decidiram que era hora de gritar contra Michel Temer em um dos palcos de maior visibilidade para a arte brasileira e mundial, a 32ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, que abre dia 7 e prossegue em cartaz até 11 de dezembro no Parque Ibirapuera.

Durante a entrevista coletiva que anunciava o evento, nesta segunda-feira 5, treze deles surgiram no pavilhão com suas camisetas brancas e negras, nas quais se liam os dizeres Luto pela Democracia, Fora Golpistas, Fora Temer, Eu quero votar pra presidente e Jamais Temer.

Os ativistas, também ligados em seu trabalho pessoal à produção artística (Cristiano Lenhardt, Bárbara Wagner e Jonathas de Andrade têm obras exibidas na grande exposição), gritaram seu protesto ao término da fala dos curadores. E artistas internacionais cujo trabalho está presente na bienal, como Carolina Caycedo, nascida em Londres e residente na Colômbia, também aderiram ao protesto (na camiseta preta vestida pela artista, estava a inscrição Diretas Já).

Durante a intervenção, o artista Amilcar Packer lembrou que é preciso estancar a repressão em curso em São Paulo. Ressaltou a ação injustificada da Polícia Militar no dia 4, que levou à detenção, sem possibilidade de acesso de advogados, de 26 ativistas, cinco deles, menores, na Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic, sob risco de reclusão por “associação criminosa”.

“Michel Temer disse que a incerteza acabou”, pronunciou-se o curador Jochen Volz, que concedeu à bienal o título Incerteza Viva. “Queremos discutir as incertezas, as formas de viver com o desconhecido.” E não somente isto, conforme atestou a curadora Júlia Rebouças. “Assistimos ao fim de vários mundos. Há a necessidade de mobilização urgente depois de 31 de agosto.”

Os 80 artistas de 33 países, presentes à edição, respondem à necessidade de, como afirma Volz, “desvincular a incerteza do medo”, e mobilizar a arte pelo ideal de reconstrução ambiental e de identificação com causas sociais e de gênero. Capitaneada por uma representação de três conjuntos de esculturas de Frans Krajcberg (Gordinhos, Bailarinas e Coqueiros), a partir de troncos calcinados, a bienal parece mobilizada para se transformar em palco de manifestações como a do coletivo Aparelhamento.

Em julho, os artistas do grupo ocuparam a Fundação Nacional das Artes, a Funarte, em São Paulo, e concluíram sua intervenção com um leilão. Dos 260 integrantes do grupo, 31 venderam suas obras (o grupo não informa o valor total arrecadado) para que um fundo possibilitasse suas ações. “Consideramos a possibilidade de doar uma parte do que arrecadamos para o financiamento das ações dos advogados ativistas e dos jornalistas livres”, disse Lourival Cuquinha, integrante do Aparelhamento (cinquenta entre aqueles pertencentes ao grupo dedicam-se ao ativismo constante).

O artista Daniel Lima, ligado ao coletivo, tem um trabalho em curso, realizado pela editora Invisíveis Produções. Intitula-se Cartografia do Golpe Branco, que espera distribuir em instituições como escolas, para esclarecer o público sobre os entendimentos que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff. “Sim, o golpe é jurídico. Sim, o golpe é racista. Sim, o golpe é elitista. Sim, o golpe é midiático. Sim, o golpe é machista”, escreve Lima. “Quais são os futuros da democracia quando legitimada por um Poder Judiciário muitas vezes com tendência à direita, às ideias conservadoras e antidemocráticas?”