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Aquele primeiro dia, quase noite

por Redação Carta Capital — publicado 05/03/2012 16h17, última modificação 06/06/2015 18h22
Leia um conto inédito do escritor Menalton Braff
maternidade

Galeria de pedrosimoes7/Flickr

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Por Menalton Braff*

 
O filho não acordou em janeiro de manhã, agora, quando o calor torna-se mais intenso. E o modo roxo como apertava os lábios um contra o outro podia não significar coisa alguma, mas a mãe acertadamente interpretou como sendo a recusa.  A despeito de muda, e inexplicável, uma recusa. E exatamente de sua túmida teta materna.

Paciente e concentrada recolheu o seio para o interior de seus trapos e sem cansaço foi abrir a janela, como se estivesse acabando de criar o mundo. O sol entrou circular, reparando, mas era um signo exageradamente genérico para que ela chegasse a qualquer conclusão sensata. Debruçou-se no parapeito, para cumprir o rito, talvez até um pouco avidamente, atraída pela claridade da paisagem ainda úmida do útero noturno, e sentiu a vazão do próprio leite que o peso do corpo começava a ofertar. Uma vazão lenta e silenciosa como uma urina: o prazer do alívio. Então seus olhos maravilhados mediram aquelas duas manchas redondas no alto de seu peito: a alegria.
Sem saber ao certo o que sentir, na seqüência, depois de abrir a janela e debruçar-se no parapeito, toda aquela paisagem cabendo em seus dois olhos miúdos, a mãe lambeu com insistência os próprios lábios, que durante a noite haviam ressecado. Não tinham chegado a rachar, coisa que só acontecia no inverno mais frio, quando muitas vezes chegava a passar fome. Mas soube com a ponta da língua que tinham estado secos. Olhou novamente as duas manchas redondas e suas narinas se dilataram felizes.    
Foi-se chegando sorrateira, devagar sediciosa, a entrar sem ser notada, até que lá dentro, de uma só feita, o volume vazio da fome. E então a mãe soube no instante que estava com bastante fome. Um saber do corpo só, corporal, que a mente pendia para um sentir mais obtuso: seu organismo.     
No alto da paisagem azul e verde, bem no alto, acima, já lá na banda azul, a mulher viu um gavião de bico recurvo e olhos rapinosos tremulando as  asas. Um gavião parado suspenso no ar azul. Ela viu de gosto, com gozo. A extensão de sua visão, cá embaixo. De repente ele estridulou seu grito guerreiro antecipando a vitória – o viver diário - e a mãe afastou-se em susto da janela, o coração batendo aos pulos fortes, e, com o corpo curvo arqueado, sacudia a cabeça, as pálpebras coladas sobre os olhos. Sacudia a cabeça e sacudia como se tivesse esquecido alguma coisa. E girava o corpo rodando como se tentasse fugir. E sacudia ainda mais, sem conseguir lembrar-se. Uma coisa importante, talvez, talvez desagradável.

Sentou-se apressada no catre, aquela impressão de um peso pesando ainda por sobre, seus olhos de sombra parados tentando pensar. Sentou-se com o peso ao lado do filho, olhando a loucura do mundo transformado em carrossel. Mas foi só um instante: o necessário.
Muito mulher, a mulher, como sempre em todos seus dias, desde que ali viera abrigar-se, trazida, levantou-se e pegou a sacola para buscar a comida nas casas, mas voltou a sentar-se por  causa daquele seu filho que parecia não querer acordar nunca mais. Ao olhar para o pedaço iluminado de estrada por onde deveria sair com a sacola presa na mão, um pedaço de estrada que vinha rastejante até ali a porta, tudo voltou a ser o primeiro dia, quase noite, aquele primeiro dia, fugindo para a frente, o mundo todo, desde sempre e de longe, o medo, as árvores, os pássaros. E o fogo da fome roendo suas entranhas.
As paredes de taipa não tinham como evitar os riscos de sol: o entrevero de lanças. Em sua defesa, naquele primeiro dia, mãos e pés, os machucados, entre susto e espanto, as pausas, cansaço e espasmos, além de unhas e dentes, as marcas deixadas na pele de homem de um homem. O entrevero. Seus gritos ricocheteavam nas nuvens, mas seres humanos moravam longe de mais. Sua dor. 
Então seus olhos pararam parados num ponto de luz com os brilhos, o balaio dependurado no espaço, sustido no gancho, na altura, em ponta de arame, onde o esforço maior dos ratos não pudesse prejudicar. Suas mãos um pouco também se aquietaram: aquilo uma expectativa, um acontecimento prestes a existir. Primeiro a mãe fungou um ronco desconfiado e depois levantou-se com pouca pressa, os passos por dar, para finalmente descobrir dentro do balaio apenas um pedaço de pão seco de tão esquecido.
Assim, ela ficou sentada, roendo o pão, cheia de um medo que porejava um suor fino em seu rosto. Medo de que o primeiro dia fosse agora, outro dia  – o gavião e seu grito acima das nuvens - e ela tivesse de voltar para a estrada, em fuga, o sangue descendo-lhe pelas coxas, secando em suas pernas apressadas, enquanto a semente de um filho começava a germinar. O sol continuava entrando por todos os furos da casa: o entrevero.
O filho imóvel, enfim, era uma proibição, e a mãe não teve mais vontade de pôr-se a caminho. Com olhos um pouco murchos contemplou o filho, o que tinha carregado no ventre todas as vezes em que saía pela estrada para buscar comida nas casas: o peso. Foi ajeitando o corpo, enrodilhando-se em arco, o aconchego, até deitar-se a seu lado para oferecer-lhe a teta túmida, quem sabe, ou para dormirem juntos.

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