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Ao vivo da casa dos mortos

por Ana Ferraz publicado 17/09/2012 17h20, última modificação 17/09/2012 17h25
Em Diário da Tranca, José Diniz Junior faz relatos sensíveis do amargo retrato da atual geração do crime

Diário da Tranca
José Diniz Junior
Digital Publish & Print
Editora, 320 págs.

O goleiro absoluto do pavilhão 8 é Foguinho, negro  alto, pobre e analfabeto funcional. Sua sina é a cadeia, vaticina com efeito retroativo. Garante que não sabe fazer outra coisa que não roubar. Mesmo se a almejada liberdade um dia chegar, voltará para detrás das grades. É inevitável.

Foguinho é um entre os perto de 1,7 mil detentos a se esbarrar no Presídio Edgar Magalhães Noronha, o Pemano, em Tremembé, São Paulo. Foi nesse depósito de gente desesperançada e desassistida a ver o crime como saída cronicamente viável que o jornalista mineiro José Diniz Júnior viveu quase 200 dias. Seu crime: denunciar falcatruas no tabloide Matéria-Prima, semanário satírico fundado por ele em Taubaté, interior de São Paulo, em 1998.

O primeiro dos dois períodos na mansão dos quase mortos se deu em dezembro de 2007. Um ano antes, Matéria-Prima publicara denúncia de conduta suspeita de um advogado da área imobiliária acusado de fazer jogo duplo com a concorrência. Tempos depois de confirmar tudo diante da OAB, a testemunha negou o que havia dito. Com base na extinta Lei de Imprensa, o advogado conseguiu a condenação de Diniz.

Em abril de 2011, o jornalista voltou à cadeia, a “tranca” a que se refere o título do livro, acusado de calúnia e difamação por denunciar contas irregulares no Taubaté Country Club.

De dentro do depósito de presos, Diniz conheceu os códigos e as histórias de um mundo a esboroar, povoado por fantasmas desconsolados. Pânico é um deles. No domingo em que fez 20 anos recebeu a visita do pai. No refeitório, à noite, exibia olhar baldio. “Fui até meu ‘escritório’ – beliche 33, altos –, peguei uma barra de chocolate e dei a ele. Foi como se eu falasse com uma pedra. Não fossem seus olhos cheios de lágrimas.”

Em relatos sensíveis, o autor faz o amargo retrato da atual geração do crime, garotos com pouco mais de 20 anos desprovidos de quase tudo. Como o pernambucano subnutrido que só fala em “oitão e baseado”. Voz fina, um dia desabafou a sua que é a história de sabe-se lá quantos por ali: “Minha mãe me trocou por uma garrafa de cachaça...”