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Cultura

Ai Weiwei ganha sua primeira exposição no Brasil

por Piero Locatelli — publicado 06/02/2013 11h18, última modificação 09/02/2013 10h46
Primeira exposição do artista no país traz o lado mais político da obra do principal opositor ao Partido Comunista chinês

O artista e ativista chinês Ai Weiwei nunca viu sua exposição de fotos e vídeos que já passou por cinco países e chegou ao Brasil na quarta-feira 6. Quando ela foi montada pela primeira vez, em 2011 na Suíça, Weiwei havia acabado de ser preso ao tentar sair da China. Desde então, a exposição viajou a Europa e Weiwei continua impedido de deixar Pequim sob a acusação de sonegar impostos. A suposta ocultação de renda é usada pelo governo chinês para manter no país o mais conhecido opositor ao Partido Comunista.

As fotos e vídeos expostos no Museu da Imagem e Som, em São Paulo, escancaram o viés político da obra de Weiwei. Na série "Paisagens Provisórias", ele mostra a destruição e reconstrução da capital chinesa na última década, quando casas centenárias foram destruídas da noite para o dia.

 

Outra série de imagens documenta o avassalador terremoto que matou cerca de setenta mil pessoas na China em 2009. Na exposição, também está a obra batizada de "Estudos de Perspectiva", em que Weiwei volta o seu dedo do meio para diversos lugares ao redor do mundo, como a Cidade Imperial, em Pequim, e a Casa Branca.

“A fotografia de Weiwei é quase sempre documental", diz o curador da exposição, o suíço Urs Stahel. "Você vê uma destruição que aconteceu em algum lugar, algo que se passou com ele”, afirma. Para Stahel, as imagens de Weiwei mostram as suas intenções de forma mais clara que as suas esculturas, muito influenciadas pela arte conceitual que ele conheceu quando morou em Nova York até os anos noventa. Como exemplo, Stahel cita uma obra exposta em Londres: um amplo jardim formado somente por sementes de girassol feitas de porcelana. “Quando você vê essa obra, pode pensar o que quiser, mas quando você lê sobre ela, começa a perceber que pode se tratar de mais coisas. Ainda assim parece só uma enorme e bonita obra minimalista", diz Stahel. "Na fotografia, não. Você vê claramente as suas atitudes, seu jeito de viver e sua forma de trabalhar”.

Da internet para o museu. A maioria das obras foi publicada originalmente na internet, meio usado compulsivamente por Weiwei. Em 2004, o artista abriu um blog onde criticava o governo e expunha seu trabalho. A maioria dos posts eram feitos de forma rápida e conectados com o que acontecia no país. O site foi fechado pelo governo chinês em maio de 2009. Pouco antes, Weiwei havia publicado o nome de mais de cinco mil estudantes que morreram no terremoto na província de Sichuan.

O excesso de informação nas diversas postagens teve de ser retrabalhado para chegar aos museus. O primeiro passo foi uma triagem nas fotos, feitas com a ajuda do próprio artista e dos seus assistentes durante cerca de um ano. Das 270 mil fotografias tiradas por Weiwei e sua equipe, boa parte delas publicadas no antigo blog, 17 mil foram selecionadas. Elas serão exibidas em 12 monitores.

 

 

Após o fechamento do blog, Weiwei começou a utilizar o Twitter (@aiww, em chinês) como seu principal meio de comunicação. A maior parte das fotos publicadas na conta do artista eram tiradas com um celular e publicadas sem nenhuma edição. Entre elas, estão as imagens de quando Weiwei diz ter sido agredido pela policia chinesa antes de um depoimento na cidade de Chengdu.

Para serem expostas, as fotos do microblog foram impressas de forma comum, em baixa qualidade. Ao contrário do resto das obras, penduradas na altura dos olhos do espectador, elas serão colocadas próximas ao chão em pedestais. A versão brasileira da exposição terá uma pequena mudança. As paredes foram todas pintadas de branco e os visitantes serão obrigados a entrar sem sapatos.

Ao contrário dos brasileiros descalços, Weiwei não deve ver nada além de um modelo da exposição em três dimensões. Segundo o curador, o artista está feliz com a vinda da sua obra ao país. “Ele achava que era mais interessante que sua obra saísse da Europa. Ele amaria estar aqui. É muito depressivo porque ele não pode se mover. Ele chamaria todo mundo para comer, porque isso é a coisa mais importante para ele além de trabalhar e conversar.”

 

 

Serviço:

Museu da Imagem e do Som de São Paulo – MIS-SP
Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo
Visitação: 07.02 a 14.04.2013
Horário: terças a sextas, das 12 às 21h; sábados, domingos e feriados, das 11 às 20h
Ingresso: R$6,00 (inteira), R$3,00 (meia)