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Cultura

Crônica do Menalton

A voz das estatísticas

por Menalton Braff publicado 24/09/2012 11h39, última modificação 24/09/2012 11h45
Estamos em 69º lugar no IDH da ONU. Então por que comparar o nível de leitura do brasileiro com o do europeu?
biblioteca

Biblioteca Pública do Acre. Foto: Agência Acre de Notícias

Segundo as estatísticas de dez anos atrás, que releio por desfastio, e por serem da minha área, pertenço a pequeno grupo de pessoas, um grupo formado por 1% dos brasileiros possuidores de biblioteca de mais de 500 volumes. Deveria estar soltando foguetes ao me descobrir incrustado nesta nata, mas não estou. Levando em conta meu espírito público, talvez devesse então estar acabrunhado ao descobrir que se lê tão pouco no Brasil, mas também não estou. Um amigo meu, que já não está neste ou em qualquer outro mundo, para formar-se economista teve de estudar muitas ciências, entre as quais a ciência estatística. Enquadrou populações, quadriculou produtos, transformou isso tudo em mercado e pôs-se a campo com a intenção de salvar o Brasil. E vocês sabem o que aconteceu? Nem ele salvou o Brasil nem por ele foi salvo. Continuamos todos a navegar em mar bravio enquanto ele abandonou o barco heroicamente. Mas antes de se despedir, meu amigo, que era teimoso, mas bronco não, deixou-me como herança uma verdade elementar: A estatística serve para provar que, se eu puser a cabeça dentro de um forno a cem graus centígrados e os pés dentro de um frízer a zero grau, minha temperatura média será de cinquenta graus.

Um vizinho aqui ao lado me diz que a verdade não é elementar, mas estúpida. Este meu vizinho não tem mesmo senso de humor. Claro que não estou questionando a sério se a estatística é ou não uma ciência útil. O que se deve entender, entretanto, é que não há razão para que se meçam os cinquenta graus de minha temperatura média uma vez que terei morrido. Os dados, por si sós, pouca coisa revelam.

Então vamos fazer uma pequena incursão pelas conclusões da pesquisa da qual saí ao lado de 1% dos brasileiros. Dizem os pesquisadores que o brasileiro não sente prazer na leitura e arrolam quatro razões para que ele não se dirija às prateleiras. Trinta e nove por cento dos entrevistados disseram que não têm tempo para ler. E acredito. Se se puserem a ler, que tempo terão para o chopinho, para o campeonato brasileiro, para o papo-furado na esquina depois do serviço? Outros tantos por cento (não se especifica) afirmaram que não têm o hábito. Me parece uma conclusão um tanto redundante, se a pesquisa era sobre a leitura no Brasil. Há os que não se interessam (18%) ou que não têm paciência mas sobra-lhes preguiça. Assim mesmo, confessadamente. E, por fim, aqueles que preferem outro entretenimento (17%).

A questão que me parece óbvia e que não invalida a pesquisa, é que sofremos de uma inércia oficial ao mesmo tempo causa e consequência de um gravíssimo problema social.

De um país escravocrata até pouco mais de cem anos, e que tratou como tratou dos antigos escravos, deixando-os ao Deus dará; de um país em que o único prato de comida do dia não é assim tão garantido, de um país como este o que mais se poderia esperar?

Espantam-se os técnicos pesquisadores com o fato de se ler pouco? O interessante é que ninguém se espanta com o fato de se comer tão pouco. Leitura e comida não entram lá com muito peso nas cogitações de nossas autoridades.

Estamos em 69º lugar no IDH levantado pela ONU. Por que então comparar o nível de leitura do brasileiro com o nível do europeu, por exemplo? Mas se essa comparação é por natureza indevida (os parâmetros não podem ser os mesmos), isso não significa que se deve sentar à beira da estrada esperando que as coisas aconteçam. Alguma medidas no sentido de melhorar o quadro atual têm sido tomadas, mas tímidas ainda, com pouco investimento. É preciso mais e melhor.

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