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A vingança dos negros

por Eduardo Graça — publicado 12/01/2013 08h12, última modificação 18/01/2013 10h29
Em Django Livre, Quentin Tarantino promove um banho de sangue como libelo contra o racismo e a escravidão

De Nova York

Em meio século de vida, Quentin Tarantino desenvolveu uma paciência de Jó. A cabeleira negra desgrenhada jogada para o lado e as mãos grandes voando de um lado para o outro, como que desconectadas do resto do corpo, oferecem um contraponto à fala cadenciada, quase professoral, com que tenta driblar uma cilada do destino. Seu mais novo filme, Django Livre, a partir de sexta-feira 18 nos cinemas brasileiros, é tão subversivo e contundente quanto violento e profano. Um libelo contra o racismo e a escravidão, mescla o blaxploitation dos anos 1970 com o faroeste espaguete por meio da história do personagem-título, vivido por Jamie Foxx, negro liberto de forma esdrúxula às vésperas da Guerra Civil Americana.

No que o próprio diretor classifica de “catarse histórica”, o Django negro promove um banho de sangue e destrói sem piedade a casa-grande e seus ocupantes no Sul escravocrata. Pois justamente na manhã em que conversa com a imprensa em um hotel de Manhattan surgem as primeiras notícias sobre o massacre na escola primária de Newtown, Connecticut. Logo se tomaria conhecimento de que 20 crianças e oito adultos teriam sido brutalmente assassinados por um jovem de classe média-alta com problemas mentais. E a fetichização da violência, tema recorrente na trajetória do diretor de Kill Bill e Cães de Aluguel, se instauraria no centro da discussão em torno de um dos filmes mais importantes produzidos por Hollywood em 2012.

“Meu filme mais violento é Kill Bill. Django é meu filme mais duro, por conta do contexto histórico e do tipo de violência mostrada. Quis abrir duas portas, retratar tanto a brutalidade da escravidão, pouco exposta com todas as tintas no cinema em países marcados a ferro por sua imoralidade, quanto oferecer uma possibilidade de se identificar com a catarse destruidora do protagonista.”

Tarantino não exagera quando fala da dureza que se vê no filme. Para boa parte do elenco, presenciar cenas como as de escravos lutando em uma arena improvisada enquanto os senhores acompanham com gosto para saber quem vai morrer, ou a de um cativo sendo devorado por cães ferozes dá um nó na garganta. “Foi horrível. Mas aquelas não eram histórias novas para mim. As sevícias, as humilhações, a exploração sexual, o que os negros passaram foi tão pior, tão mais intenso que a ideia de que as pessoas vão se chocar me deixa boquiaberto”, diz o protagonista, Jamie Foxx.

Foxx não foi a primeira escolha. Django seria um veículo para Will Smith, mas se diz em Hollywood que o ator da franquia Homens de Preto se assustou com o linguajar e a carga política do filme. Uma revista de entretenimento chegou a tentar contar o número de vezes em que o depreciativo epíteto nigger é usado por personagens brancos e parou quando chegou na casa da centena. “Obviamente, considero apropriado para esse filme o uso corriqueiro dessa palavra. Na sala de edição, cheguei a imaginar que alguém diria que naquela época não se usava esse termo tanto assim, o que já seria uma ingenuidade. Acho ridículo contarem o número de vezes em que a palavra aparece. Não me venham com a história de que eu deveria suavizar o filme para o paladar das audiências contemporâneas. Quis fazer justamente o contrário, perturbar a audiência. Quero que o público sinta na pele as atrocidades da escravidão e reflita”, frisa.

 

Tarantino não discursa. Fala com calma, de modo articulado, e acha a maior graça quando um jornalista tenta imaginar a reação de seu colega Spike Lee ao sair de uma sessão de Django. Mas quando um repórter pergunta se ele amealhou seus três principais atores negros – além de Foxx, um brilhante Samuel L. Jackson como o maquiavélico Stephen, espécie de administrador da casa-grande onde a derradeira ação se dá, e Kerry Washington, vivendo Broomhilda, a esposa que Django busca desesperadamente – como consultores informais sobre os limites do politicamente correto ele sobe nas tamancas. “Não peço permissão para os negros para tratar do tema do racismo e da escravidão. Escrevi o roteiro e conversei com todos os atores, mas este é o filme que eu quis fazer. E todos estavam do mesmo lado.”

Indicado a cinco Oscars (melhor filme, ator coadjuvante, roteiro original, edição de som e fotografia) e a cinco Globos de Ouro (melhor filme, diretor e roteirista) e eleito pelo American Film Institute como um dos melhores filmes do ano, Django é, escreve no New York Times o principal crítico do jornal, A. O. Scott, uma espécie de Lincoln às avessas. A comparação com o filme de Steven Spielberg, favorito ao Oscar, e que estreia no Brasil na sexta-feira 25, é tentadora. Ambos tratam da escravidão, as tramas se desenrolam no mesmo período histórico e, nas palavras de Scott, “enquanto um abole a escravidão via aprovação da legislação do Congresso, o outro resolve a injustiça explodindo a casa-grande”.

Tarantino, sulista do Tennessee, conta que começou a escrever Django na casa de Christoph Waltz, que interpreta King Schultz, dentista e provável caçador de recompensas. A segunda metade do filme é dedicada ao resgate da mulher de Django  das garras de um brutal senhor vivido por Leonardo DiCaprio em um de seus melhores papéis. “Leonardo tem prazer em construir personagens. Ele chega no set e a proposta é se transformar de fato naquele ser que saiu de minha imaginação, Calvin Candie. Ele não o faz de uma forma psicótica, mas deixa de ser o Leo”, conta.

O principal aliado de Candie na administração da fazenda é Samuel L. Jackson, ator-fetiche de Tarantino. “Quando começamos a ensaiar, passei a repetir as últimas frases do que Leo dizia. Ficou algo assustador, como se um fosse a extensão do outro, como se não houvesse um sem o outro”, diz Jackson, que se lembra da sensação de filmar em uma fazenda com senzala intacta e pensar, em um átimo de segundo, no tamanho das mudanças políticas e sociais ocorridas nas Américas nos últimos 150 anos.

Na análise comparativa de dois dos mais discutidos filmes da temporada de premiações do cinema americano, A.O. Scott argumenta que é preciso sublimar tanto o banho de sangue tão incômodo aos jornalistas chocados com o massacre de Newtown quanto o humor anárquico de Tarantino para se encontrar o núcleo central de Django Livre: o nítido desgosto moral com a escravidão, a simpatia irrestrita pelo oprimido e a afirmação, através da relação de Django e Schultz, da irmandade entre seres tão diferentes. Para o crítico, Django pode não ser um filme melhor que Lincoln, mas é um exercício mais radical, estética e historicamente.

Não é pouca coisa para o cineasta, que termina a conversa com uma ameaça – aborrecido com a decisão da indústria de privilegiar o formato digital e de alta definição, mais próximo da tevê do que a velha película. Tarantino diz que Django pode ser seu derradeiro filme. “Estou pensando em me aposentar. Não entrei nessa indústria para fazer tevê em tela grande. Deixei de lado certos prazeres da vida para fazer cinema e só cinema. Não me casei, não tive filhos, pensei, respirei e transpirei cinema e estou feliz com o resultado, pois o cinema vale o sacrifício. Mas, se for para filmar em digital, pode escrever que depois de Django vou casar, ter filhos e ficar em casa. E só.”