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A origem do sofrimento

por Redação Carta Capital — publicado 13/07/2012 13h13, última modificação 13/07/2012 17h00
Psicanalista e professor da USP analisa 'Grande Hotel Abismo: Por uma Reconstrução da Teoria do Reconhecimento', de Vladimir Safatle
Capa

Capa do livro 'Grande Hotel Abismo: Por uma Reconstrução da Teoria do Reconhecimento', de Vladimir Safatle

Por Christian Ingo Lenz Dunker

 

Herdeiro da escola uspiana de Bento Prado Jr. e aluno de Alain Badiou, tem se apresentado como um dos intelectuais mais atuantes e combativos que a esquerda produziu nos últimos anos.  Seu trabalho consegue ser reconhecido tanto no circuito universitário nacional e internacional, quanto alcança o grande público com suas intervenções em jornais, na televisão e em movimentos sociais. Para desespero de seus críticos seu trabalho não é composto como uma obra de divulgação ou meramente como justificativa retórica para o engajamento militante.  Há, de fato, uma linha sinuosa, mas rigorosa, que liga seus estudos de alta densidade conceitual em filosofia, teoria social e psicanálise com a tomada de posição simples, mas muito impactante. Salário máximo, imposto proporcional, democracia direta, avaliação do saldo da ditadura militar brasileira são algumas de suas ideias corrosivas e contundentes, mas não pirotécnicas ou movidas a impactos de ocasião. Trata-se de um novo tipo de intelectual brasileiro, que fala baixo, mas corajosamente. Que consegue se fazer entender no limite do esforço ou da ignorância de seus interlocutores.

O novo livro de Vladimir Safatle, Grande Hotel Abismo: Por uma Reconstrução da Teoria do Reconhecimento (Martins Fontes, 2012), originalmente sua tese de livre docência junto ao departamento de Filosofia da USP, no qual é professor, procura estabelecer uma espécie de novo fundamento para uma série de áreas envolvidas com o que se pode chamar de sofrimento social, ou seja, a política, a ética, a clínica e também a educação e as artes. Sua hipótese de fundo é que este sofrimento está intimamente ligado com experiência de reconhecimento e com a forma como as instituições, e no limite o Estado, pode interpretar e responder a tal sofrimento no processo de construção de leis, em nossas práticas políticas, em nossas relações de desejo, de linguagem e de trabalho.

O diagnóstico de Safatle contra a maior parte das teorias disponíveis nesta matéria parte de uma injustificável associação histórica entre o que chamamos de indivíduo e o que denominamos sujeito.  O exemplo maior desta sobreposição é a antropologia humanista tudo o que não se enquadra como espelho de nós mesmos, tudo o que não podemos incluir como uma versão possível de nossa própria identidade simplesmente possui direito a existir. Este é o roteiro pelo qual o humanismo nos leva de volta ao terror do qual ele pretendia nos livrar. Esta forma inflacionada de pensar o indivíduo não será criticada por Safatle nos moldes da oposição tradicional ao egoísmo, à cobiça, ao interesse e às demais fragilidades morais do individualismo. A teoria de Safatle parte do fato de que ser apenas um indivíduo, pensar-se apenas como um indivíduo e sonhar apenas como um indivíduo poder ser uma patologia social, que nos leva a uma forma de vida desnecessariamente pobre e mutilada.

Geralmente atribuímos a origem do sofrimento ao controle, disciplina ou determinação. Sofremos seja pela falta ou pelo excesso de racionalização, de previsibilidade e de segurança. E a maior parte das políticas públicas e das formas morais coletivas dedica-se a produzir e reformar tais sistemas de determinação que dominam a maior parte de nossas práticas de vida. Segundo este pressuposto uma boa teoria do reconhecimento é aquela que permite identificar lacunas e obstáculos à progressiva realização dos ideais dos indivíduos ou fragilidades em seus sistemas de proteção conta a infelicidade. Desde o início da modernidade nossa preocupação com a justiça e com a liberdade tem se apoiado em teorias do reconhecimento que privilegiam a identidade e a determinação como os elementos fundamentais do processo histórico que nos torna sujeitos de nosso próprio destino. Tornar-se “alguém na vida”, diferenciar-se da massa amorfa, criar para si um destino especial, são exemplos de ideais concernentes ao individualismo que moldaram nossa forma de vida como um projeto de autodeterminação. O problema é que nos últimos tempos esta constelação tem rendido uma imaginação política caracterizada pela pobreza abissal.

Apoiado no pensamento dialético de Hegel, Safatle toma um caminho alternativo ao mostrar que na origem desta situação está nosso esquecimento de que existem experiências imprevisíveis, contingentes e indeterminadas que são benéficas e produtivas. Talvez a roupagem representada pelo indivíduo esteja se tornando apertada demais para exprimir toda a extensão infinita de nossa temporalidade e de nosso desejo. Nem tudo que pertence ao ser do sujeito cabe no uniforme pré-fabricado do indivíduo. Muito do que percebemos como desordem, anomia ou instabilidade precisa ser tratado com mais leis, métodos e estratégias de controle feitas para impedir que o imprevisto aconteça de novo. Mas será mesmo que temos que agir com um único remédio para todos os males da modernidade? Boa parte de nosso sentimento de que vivemos uma vida em forma de condomínio, cercados por bárbaros, defendidos por muros e constrangidos por regulamentos, decorre de nossa crença consolidada de que nosso horizonte como indivíduos está dado e concluído. Para aqueles que pensam que o homem, em sua essência, já seria suficientemente dotado de autonomia, espontaneidade e expressividade, seja para o bem ou para o mal, o livro de Safatle é uma provocação inédita. Para aqueles que estão cansados dos benefícios do individualismo o livro em questão é um incentivo para retomar a capacidade de sonhar e de inventar futuros possíveis que não sejam apenas defensivos em relação aos desastres, ecológicos e econômicos, ou às tragédias, morais ou sociais.

É preciso radicalizar a pergunta sobre o que significa a realização de uma vida. Radicalizar de tal forma a reconhecer como no interior do que chamamos de ser humano existe algo que é claramente mais que um indivíduo e menos do que um indivíduo. Somos mais que um indivíduo quando carregamos a marca do infinito em nossos desejos. Somos menos do que um indivíduo quando podemos nos ver também como inhumanos. Mas para isso teríamos que renunciar à fixação na existência em uma essência positiva e pensar que o “sujeito não é mais que o nome do caráter negativo do fundamento”. É preciso arriscar que a liberdade pode ser algo mais do que mero livre arbítrio individual, defesa genérica de direitos abstratos e democracia parlamentar representativa.

Para defender esta reconstrução da teoria do reconhecimento Safatle retira da teoria crítica de Adorno a importância do sentimento repressivo de identidade, com seus sintomas imediatos de perda do espírito, bloqueio da eticidade e fixação na finitude. Isso será feito por meio de uma nova forma de ler Hegel, um dos maiores pensadores da modernidade. A grande lição, neste caso, é que não devemos separar procedimentos de fundamentação e modos de aplicação de princípios. Isso significa, por exemplo, que não é suficiente contentar-se com uma moralidade pensada como mera aplicação de casos a suas regras correspondentes. Finalmente é da psicanálise de Jacques Lacan que Safatle importa algumas ideias para o tratamento possível do sofrimento social. Ao considerar que a causa deste sofrimento não é apenas excesso ou falta de determinação, mas também a dificuldade de reconhecer e dar valor a contingência e indeterminação como experiências produtivas, Safatle nos convida a valorizar a dimensão do ato para além da lei, da ação que leva em conta nossa incerteza prática, sem saber exatamente qual é a realidade que está contida na ideia de liberdade. Se não formos capazes de reconhecer que às vezes é naquele caso único, que contraria a regra, que se encontra a semente de nossa liberdade como futuro ainda impensado e ainda sem nome, jamais seremos capazes de realizar uma vida que seja realmente universal.

Safatle é um universalista radical. Ele toma nosso retrato claro e concluído sobre o que significa ser um indivíduo e nos devolve uma imagem difusa. Em vez de enfatizar as linhas demarcatórias e as fronteiras que definiriam nossa identidade ele nos convida a suspender a paixão pela identidade e examinar a hipótese de uma forma de vida na qual o eu deve incluir também, como possibilidade, sua própria auto-dissolução, sua não identidade e no limite sua inhumanidade. Para isso basta fazer o exercício para o qual o livro nos guia com perícia de negar predicados que nos habituamos a nos conceder de saída, tais como autonomia, autenticidade e unidade. Uma teoria do sujeito que não consegue reconhecer aquilo que está além ou de aquém do individual no homem, como a precariedade de seu corpo, a incoerência de suas ambições e a incerteza de sua temporalidade, só pode nos conduzir a falsos universais. Surgem deste exercício três figuras do inhumano: a animalidade (perda da autonomia), o monstruoso (perda da unidade) e o impessoal (perda da autenticidade). Três condições que estamos sempre demasiadamente prontos para aplicar sobre os outros, assim que estes se mostram desobedientes, indeterminados ou fora da ordem. Em nome da punição, da ordem e da determinação somos nós que nos tornamos inhumanos.  É este truque que o humanismo de coração mole e bolso duro propõe. Tolerar a tortura contra os “animais”, justificar a “monstruosidade” contra o terror, “impessoalizar” as escolhas, tornar o medo afeto central da política, negar direito de rebelião, judicializar a loucura, colonizar os outros com nosso padrão de normalidade, reduzir a justiça ao direito, ou seja, destituir prontamente tudo o que não é o retrato nítido de nossa própria identidade e ao mesmo tempo nos seduzir com a imagem de senhores da razão universal. É neste ponto que o livro de Safatle permite iluminar a teoria do sujeito para além da razão contratual, comunicacional, normativa e institucionalizada.

Se alguém dissesse, apenas dez anos atrás, que seria possível repensar ideias políticas de esquerda retornando a Hegel, reposicionar a teoria filosófica do sujeito, extraindo o melhor do pensamento crítico e estético de Adorno e propor uma leitura original da psicanálise de Lacan, que reconfigurasse sua potência clínica e social, certamente ouviria em resposta que isso pareceria um filme de terror intelectual. Os mais tolerantes talvez dissessem que isso seria bonito na ficção, mas impraticável na vida real. E os otimistas argumentariam que mesmo que fosse possível ninguém reconheceria sua relevância. Grande Hotel, Abismo é, em parte, a teorização desta improbabilidade e a prova viva que o impossível acontece. Caetano Veloso disse que Vladimir Safatle possui uma cabeça de concreto armado. E devemos dar razão ao qualificativo. Egresso da cultura filosófica universitária ele consegue pensar problemas concretos com ousadia e solidez. Armado com ideias elegantes e demonstrações precisas ele testemunha que o tempo das grandes cabeças não se extinguiu. Ele nos convida a escutar a música de nossa época sem deixar de olhar para o abismo do qual ela é feita. A direita que se cuide, pois armado, concreto e cabeça, Vladimir Safatle está abrindo um novo capítulo no pensamento crítico brasileiro.

 

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP

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