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Cultura

Som e fúria

A música não está pior

por Piero Locatelli — publicado 01/08/2012 18h56, última modificação 06/06/2015 18h19
Estudo de físicos espanhois diz que a música está cada vez pior. Não é bem assim.
música

Mais de meio milhão de músicas gravadas entre 1955 e 2010 foram analisadas. Foto: Andrej Isakovic/AFP

Um estudo divulgado na última semana alentou os amantes de canções antigas. As agências destacavam: .

A pesquisa feita por físicos espanhóis parte de um banco de dados com músicas feitas entre 1955 e 2010. Conclui: a criação e a produção da música popular não estão mais “evoluindo”. Elas estariam, cada vez mais, piores e mais parecidas entre elas.

Com a pesquisa, quem detesta músicas novas teria embasamento científico para continuar reclamando. Mas é bom olhar com calma o que os físicos chamam de piorar.

Os pesquisadores dizem que a música está mais pobre porque a harmonia está mais simples, já que a variação e a combinação de acordes nas canções é cada vez menor.

Ou seja, segundo os critérios dos físicos, o clássico Hey Jude, dos Beatles, é uma música pobre e igual às outras. Usa quatro acordes combinados de maneira simples. Bob Dylan também seria só mais um. O clássico Like a Rolling Stone também tem quatro acordes, e muitas canções dele ainda menos, como Knockin on heaven’s door.

Esse critério também não serve para julgar estilos como o hip-hop e a música eletrônica, já que ambos são, em sua maioria, repetições de harmonia simples. A força e a originalidade do rap está na letra e no ritmo, desconsiderados no estudo.

A simplicidade também é bem-vinda em muitos casos. A pobreza harmônica permite adolescentes erguerem guitarras, tocarem três acordes e fazerem suas próprias bandas sem maiores problemas.

A pobreza de timbres, o som próprio de cada instrumento, apontadas no estudo, também pode ser interpretada como um sinal de que a música vai bem. Hoje, qualquer pessoa com um computador num morro carioca ou na periferia paraense pode gravar funk ou tecnobrega sem precisar ter conhecimentos profundos de estúdio. Tudo pode ser parecido, mas isso é a música democratizada, que pode ser feita por qualquer um e não fica na mão de meia dúzia de técnicos de estúdios.

O estudo ainda desconsidera como as pessoas chegam à música que escutam. Uma coisa é música diferente ser produzida. Outra coisa é a pessoas terem acesso e ouvi-las.

Meus pais não tinham acesso à música experimental alemã nos anos 70, com harmonia e timbres pouco convencionais. E, se tivessem, não sei se eles gostariam de continuar ouvindo. Continuariam a preferir o Roberto Carlos –outro artista de harmonias e timbres pobres segundo os critérios dos físicos.

Os meios de comunicação e a indústria fonográfica continuam a influenciar muito o que as pessoas ouvem, mas é mais fácil fugir disso hoje do que era há cinquenta anos.

Além disso, nunca foi produzida tanta música no mundo. Podem existir mais canções com harmonias simples e timbres parecidos em relação a tudo que já foi produzido. Mas também nunca houve tantos sons diferentes sendo feitos.

O mundo é um ótimo lugar para quem ouve repetidamente os últimos hits de David Guetta ou Michel Teló. Aos que os desprezam e preferem escutar os eruditos e virtuosos, uma boa notícia: também nunca foi tão simples fazê-lo. A música vai muito bem.