Você está aqui: Página Inicial / Cultura / A gota d’água

Cultura

Crônica do Villas

A gota d’água

por Alberto Villas publicado 29/01/2015 11h22
Como era viver num bairro praticamente sem água
Falta d’água

O meu avô guardava água onde dava pra guardar. Qualquer vasilha era enchida imediatamente, assim que o ronco nas torneiras anunciava água à vista

O meu avô morava no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, e lá só tinha água uma vez por mês. Quando alguém falava em Santa Tereza, logo vinha à cabeça o bairro que não tinha água, que atravessava o mês sem um pingo na torneira, um deserto.

O mundo era outro. Os fuzileiros americanos chegavam ao Vietnã, os soldados brasileiros desembarcavam na República Dominicana, Che Guevara deixava Cuba para combater o imperialismo em outros países da América Latina, os negros americanos levavam cacetadas da polícia no bairro de Watts, em Los Angeles, e a Arquitetura perdia Le Corbusier.

A casa do meu avô era uma casa muito engraçada, comprida, caiada, simples, não tinha água, nem nada. Tinha um quintal grande e mal conservado. Tinha uma parreira de uvas Niágara, uma horta e, me lembro bem, dois barris enormes onde ele guardava água, quando ela vinha, fraquinha fraquinha, mas vinha. Além dos barris, ele tinha vários baldes de latão e bacias de alumínio perto do muro. O plástico ainda não havia invadido nossas casas.

O meu avô guardava água onde dava pra guardar. Qualquer vasilha era enchida imediatamente, assim que o ronco nas torneiras anunciava água à vista. E ela chegava geralmente na calada da noite, no meio da madrugada. Ele deixava as torneiras sempre abertas e era o ronco nas torneiras que o acordava.

O meu avô levantava devagar, pé por pé, sozinho para não acordar a minha avó. Ia arrastando o chinelo até o quintal para organizar aquele momento tão esperado do mês, o momento da chegada da água.

Tudo cheio, ele se sentia aliviado, como se recebesse um salário para passar o mês. “Tenho água aqui para mais de 30 dias”, dizia ele. E tinha mesmo. Passava o os trinta dias seguintes à base de canequinha de alumínio. Era canequinha para tomar banho, lavar a vasilha, molhar o pano para passar no chão, limpar o  vaso sanitário, regar as taiobas no quintal, lavar as uvas Niágara que colhia perto do Natal. Ele sabia exatamente o quanto podia gastar por dia para não faltar, até o próximo ronco.

Minha mãe ficava incomodada, triste e preocupada com essa situação. Meu avô tão velho, precisando acordar no meio da noite para encher vasilhas e mais vasilhas de água. Mas não tinha Cristo que fizesse meu avô pegar suas coisas e mudar de Santa Tereza. Aquele era o seu bairro e de lá ele não saia por nada.

A falta d’água ali naquele bairro não era pauta pro jornal Estado de Minas, pra Rádio Itatiaia, nem tampouco pra TV Itacolomi. Todo mundo sabia que Santa Teresa não tinha água e pronto, não era novidade. E seguia o seco.

Não havia água mineral em garrafa plástica naquele 1966. Que eu me lembre, tinha apenas a São Lourenço, a Caxambu e a Cambuquira, em garrafas de vidro que o meu avô não tinha dinheiro pra comprar.

Pode parecer piada mas, um dia, começaram a construir um clube recreativo na Rua Salinas, no coração de Santa Tereza. Tinha quadra de vôlei, de basquete, de futebol de salão, mesa de ping-pong e – acredite – uma piscina.

Só no dia da inauguração da piscina, eles retiraram uma lona preta que cobria o nome do clube, bem na entrada.

A minha tia Lilita foi uma das primeiras sócias do Clube Recreativo Oásis. Sim, ele se chamava Oásis e, naquele tempo, o nosso país já era o país da piada pronta.