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A ferramenta perdida

por Rosane Pavam publicado 12/11/2012 11h13, última modificação 12/11/2012 11h19
A Magnum mostra em livro e exposição como os contatos contribuíram para a evolução das imagens
bressonpost

Quando fazíamos contato: Cartier-Bresson, por René Burri

Este século torna nulos fundamentos jornalísticos como, por vezes, a ética, e constantemente nega ferramentas antes tidas por inescapáveis à confecção das notícias. No segundo caso se incluem as folhas de contato, fundamentais para a edição das imagens no século XX e hoje excluídas de jornais e revistas. Desde o fim do daguerreótipo e das câmeras fotográficas nas quais os negativos eram únicos, essas folhas representaram uma garantia à edição. Criado com o advento das câmeras analógicas automáticas, o recurso oferecia a primeira visão do que havia sido capturado no filme, por meio da impressão direta de um rolo ou de uma sequência de negativos sobre o papel fotográfico. E, mais importante, a folha de contato, ou simplesmente contato, também apontava para uma avaliação criteriosa, por vezes implacável, do processo criativo de um autor.

O fotógrafo Henri-Cartier Bresson, soberbo em técnica de composição tanto quanto na capacidade de teorizar sobre as imagens, olhava seus próprios contatos e de outros como quem buscava esmerar a arte. Um dos fundadores da agência fotográfica Magnum, a ele cabia muitas vezes decidir a melhor foto dentro de uma sequência apresentada por determinado artista. Sentava-se em um pequeno banco e, lupa na mão, como demonstra a imagem captada por René Burri em Nova York, em 1960, percorria as pequenas reproduções uma a uma, virando-as sempre de cabeça para baixo. Somente aquelas que contivessem a beleza das linhas sob qualquer angulação mereceriam a permanência impressa, reveladora, ademais, do olhar promissor de quem as fez.

Estas são informações apresentadas em Magnum – Contatos (Instituto Moreira Salles, 508 págs., R$ 190), que também é motivo de exposição entre 6 de novembro e 6 de janeiro na livraria do Instituto Moreira Salles, no Conjunto Nacional, em São Paulo. O volume expõe a arte das folhas de contato em forma de epitáfio, segundo uma definição de outro ilustre artista da agência, Martin Parr. É um livro fabuloso, dividido por décadas daquele século em que os artistas da Magnum se destacaram na cobertura de eventos mundiais. Da Guerra Civil Espanhola à Segunda Guerra Mundial, da invasão de Praga ao Maio de 1968 francês ou à queda do Muro de Berlim, ao atentado às Torres Gêmeas, a história vem descrita ali por meio de suas imagens icônicas. Mais que isso, pelo esforço de obtê-las, revelado pela sequência de imagens dos contatos e pelo depoimento sucinto de seus autores.

No texto intitulado O Instante Decisivo, Cartier-Bresson reivindicava para a fotografia de rua uma nova plasticidade, produto das linhas instantâneas tecidas pelo objeto em movimento. De posse de sua rápida intuição, ele argumentava, o fotógrafo deveria saber intervir com um clique no instante certo, congelando as linhas do acontecimento em perfeito equilíbrio. Por meio desse texto tornado célebre, Cartier-Bresson buscava orientar os profissionais em seu ofício, mas, dada sua repercussão, a partir dele fotografar a rua talvez tenha significado tão somente fotografar como Cartier-Bresson.

Pois, neste livro da Magnum, o que se faz agora é desmistificar a atitude do fotógrafo diante desse “instante”. Nem mesmo Bresson estaria à espera de que “cabeça, olhos e coração” se alinhassem em um único momento mágico de captura. Antes de clicar o instante decisivo, provam os contatos, os grandes fotógrafos, não raro o próprio Cartier-Bresson, clicaram muitas outras tentativas, calculando de maneira demorada suas possibilidades de enquadramento. E foi exatamente ele, o exercício incansável do clique, o responsável por levá-los à imagem única de grande plasticidade, de perfeita geometria.

Quantas vezes Philip Jones Griffiths terá acionado o disparador antes de chegar à foto que intitulou Vítima -Civil, -Vietnã, em 1967? Seu curioso contato -prova que a essência do que buscava foi obtida na última foto de um rolo preto e branco de 36 poses. O personagem, que traz uma etiqueta no braço, cobre com a mão o rosto ferido, a cabeça envolta em pano. “Esta mulher foi rotulada, possivelmente por um soldado piedoso, como VNC (civil vietnamita). Coisa bastante incomum. Os civis feridos eram em geral rotulados de VCS (suspeito de ser vietcongue), e todos os camponeses mortos, postumamente elevados à categoria de VCC (vietcongue confirmado).” Trata-se também de um caso em que decisivo, para o fotógrafo com sua Leica, foi mesmo publicar a imagem no livro Vietnam Inc., de 1971, contribuindo para o fim do conflito. “Bem cedo descobri que, se você quer mudar o mundo, aproveite essa caixinha maravilhosa que fica sobre o seu pescoço.”

Nem sempre, contudo, o livro assume ser imprescindível para um artista de rua estar no centro dos grandes acontecimentos. O importante é olhar em volta dele, ao seu redor, conforme o próprio Bresson sugerira certa vez, e então sentir-se pronto para retratar o espírito de um tempo, sua memória. Ou mesmo dispor-se a construir o fato, como ocorreria a Inge Morath na Nova York de 1957. É dela a foto Uma lhama em Times Square, tida por simbólica daquela cidade em que tudo e todos poderiam supostamente conviver em estranha liberdade.

O clique da lhama se deu no número 34 de um rolo de 37 poses. Inge fora designada pela revista Life a mostrar animais que se exibiam com sucesso na televisão, como cães, gatos, um porco, um canguru e um touro. Segundo a folha de contato, a lhama começa a chamar a atenção da fotógrafa pelo refinamento. O animal chega a tomar champanhe em taça na pose número 11. A fotógrafa decide então acompanhá-la à rua, onde é conduzida pela dona numa coleira. A lhama se vê confrontada na calçada por um pequeno cão, mas se mostra indiferente a ele. Ruma então ao banco de trás de um carro, a porta aberta por um motorista. A fotógrafa registra que, ao adentrar o veículo, o animal coloca o pescoço na janela. O tráfego é intenso e, quando a lhama parece olhar em sua direção, a fotógrafa tem quatro chances para o clique antes de o rolo acabar.

Em nome da geometria, René Burri põe o Brasil em evidência nesta edição, em imagem de 1960 feita no Rio de Janeiro. O fotógrafo clica do alto do Ministério da Educação e Saúde o saguão de concreto e colunas construído por Oscar Niemeyer. Enquanto observa os meandros da construção, ele se vê atraído cada vez mais pelo jogo de sombras e luzes refletidas. De repente, nota os caminhantes entrelaçados por olhares. Um grupo de três homens observa duas mulheres que caminham “com um claro senso de propósito”, simulando um jogo de atração. “É uma metáfora visual para os polos opostos homem e mulher, luz e sombra, macio e duro, horizontal e vertical”, ele escreve sobre a melhor foto de seu -rolo de 36 poses.

Kristen Lubben, editora das 435 ilustrações deste livro, sente-se grata por ter contado com a coragem dos fotógrafos em abrir ao público a progressão de seu trabalho. “Muitos se mostraram compreensivelmente relutantes com a ideia de se expor. Por isso, este trabalho também demonstra resultar de um ato de confiança”, escreve a curadora do International Center of Photography (ICP) à CartaCapital em meio aos efeitos do furacão Sandy sobre sua Nova York. “Embora possam variar muito as razões para a produção de uma boa foto ou para a existência de um bom fotógrafo, pode-se ver a inteligência visual em jogo em muitas das sequências do livro”, diz. Segundo ela, Magnum Contatos trata essencialmente de tudo aquilo deixado para trás com a adoção da fotografia digital, responsável por mascarar o processo de erros e acertos até a imagem definitiva. “Sem os contatos, perdemos a oportunidade de situar o contexto para uma foto, o registro do tempo quadro a quadro, a forma como cada fotógrafo trabalha. Era uma ferramenta incomparável”, ela afirma, com uma ressalva. “Também ganhamos com o sistema digital. A fotografia, em nossos dias, tornou-se mais igualitária e onipresente do que nunca.” •

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