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A felicidade no abismo

por Ana Ferraz publicado 20/05/2012 09h16, última modificação 06/06/2015 18h59
Notável talento de sua geração, João Miguel fala sobre o ofício de atuar
João Mguel

Ser muitos e ainda ser um. Como o protagonista João, no premiado À Beira do Abismo, em que chorou como em nenhum outro filme. Foto: Gabriela Barreto

Ele queria a entrevista aos pés de um baobá, árvore sagrada para os africanos, cujo tronco monumental leva à sugestão de estar de cabeça para baixo. Não se tratava de um baobá qualquer, o que já não seria pouco, mas de um com o qual o ator João Miguel tem uma conexão. Profundamente ligado à natureza, sempre que pode visita o gigante de raízes fincadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Mas a chuva torrencial não permitiu.

Um dos talentos mais requisitados de sua geração, aos 42 anos o baiano criado entre Salvador e Itaparica refaz com serenidade o percurso de quem pratica a arte como espaço de transformação. “Nunca achei que seria um ator premiado”, diz a CartaCapital, a acentuar que não lhe interessa a fama sem lastro. “Não tenho o deslumbre de me sentir um ator. Tem gente que vive do próprio ego, a se carcomer. Não me interessa o reconhecimento pelo vazio. Se for reconhecimento pelo trabalho, então é merecimento e nesse caso não se pode ter falsa modéstia. Aí é suave, é bonito.”

Desde sua estreia como protagonista em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), as premiações foram se acumulando. “O filme já começou no mundo, em Cannes, foi muito bacana ver isso”, relembra João Miguel, a fala mansa, precisa e abundante modulada pelo sotaque aberto. Depois de aplaudida na mostra Um Certo Olhar, a película de estreia do diretor Marcelo Gomes amealhou prêmios dentro e fora do Brasil. Ranulpho, o nordestino que compartilha o caminhão do alemão que faz a vida ao vender o analgésico sertão adentro e afora, revelou João Miguel para um público que talvez não o tenha visto no teatro, a desempenhar um personagem mítico de força colossal: Bispo do Rosário, negro, pobre e louco encarcerado por 50 anos num hospício, cuja redenção se deu pela arte.

“O Bispo foi um preparo longo. A partir dali algo mudou de verdade. Eu tinha 25 anos quando me apaixonei pelo personagem. Vivia uma fase em que fazia perguntas cruciais sobre meu ofício.” Foram quatro anos e meio a maturar o espetáculo. Um processo de dedicação diária. “Visitei partituras de memórias que me ajudaram a entender que eu não queria falar sobre a loucura catalogada, mas sobre a lucidez.”

A figura do sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), que passou meio século como interno na colônia Juliano Moreira, no Rio, entrou na vida de João Miguel quando ele escrevia para um programa da comunidade afrodescendente baiana, Black TV. “Muitos se decepcionavam ao saber que era eu que fazia o texto, um branco Parmalat, como se diz na Bahia”, diverte-se. Naquele momento, o ator não tinha clareza acerca do que faria com personagem de tamanha envergadura.

“Bispo foi catalogado como esquizofrênico paranoide, viveu num período crucial do Brasil, de ditadura e repressão. Ele se dizia missionário, tinha delírios místicos, não podia pertencer à sociedade. E esse homem ficou 50 anos internado, uma vida inteira em que construiu a partir dos restos de lixo, das linhas que desfiava das colchas. Reconstruiu o próprio entorno como um espaço de arte”, recita João Miguel, o fascínio pelo personagem impresso no olhar. Para Bispo do Rosário, hoje reverenciado como grande expoente da arte, nada do que fazia podia ser classificado como tal. “Estão dizendo que faço arte. Quem fala não sabe de nada. Isto é minha salvação na Terra”, recorda o ator, que até hoje se pega a repetir as falas do monólogo.

João Miguel revolve a infância à procura do ponto de conexão com o personagem que levaria aos palcos do País. “Visito Bispo do Rosário a partir do que ele me inspira: aspectos de afirmatividade de pessoas da raça negra que passaram por minha vida, porque de alguma maneira eu nasci numa África brasileira, passei boa parte da infância em Itaparica, onde convivi com negros muito fortes, pescadores. O Bispo representava para mim, lá dentro da minha memória, esse tipo de pessoa que foi fundamental na minha formação.”

Representar o místico em seu labirinto criativo mudou a vida do ator. “Este homem construiu uma obra de 950 peças com uma dimensão que sai da catalogação do louco. Num mundo onde nos aprisionam pela catalogação só é possível ser feliz se não nos importarmos com essas rotulações.” O contato profundo com o personagem dinamizou as reflexões do ator sobre os marginalizados. “No Brasil, com essa mistura de culturas e etnias, essas pessoas nos ensinam muito mais que faculdades. Fala-se muito pejorativamente do jeito brasileiro de sobreviver, mas num país em que a raiz é comprometida por tantos interesses que desde o início vieram de fora é difícil entendermos quem nós somos.”

A felicidade de dialogar com a lógica de um artista que considera brilhante foi levada ao Brasil profundo. O que João Miguel vivenciou no périplo de representar em lugares talvez improváveis deixou memórias indeléveis. “Me apresentei em salas pequenas, ouvi coisas lindas de pessoas que nunca haviam visto teatro. No interior de Pernambuco um homem perguntou se o manto que eu usava era do Bispo do Rosário. Ele estava tão envolvido com aquilo tudo a ponto de achar que a roupa era de fato dele. Em Caruaru, uma pessoa me perguntou: ‘Você já enlouqueceu? Tenho medo de enlouquecer.’ Ouvi coisas muito íntimas a partir de um trabalho também íntimo.”

A parafrasear o amigo Siba, mestre da rabeca, João Miguel comenta, riso solto: “Ninguém viu meu apogeu. No início da carreira tive a felicidade de me comunicar quase com o desconhecido e perceber que isso vai crescendo.” Na gênese de tudo está o garoto, filho de mãe artista plástica e de pai envolvido com teatro político, a desenhar personagens, insuflar-lhes vida por meio de histórias criadas na brincadeira espontânea a durar horas. “Eram quase pequenas sagas.”

Tímido, João Miguel descobriu cedo o espaço do jogo, da brincadeira, da representação. A irmã foi sua primeira espectadora. Depois vieram conhecidos, encantados com o pequeno criador de histórias. Aos 11 anos, foi levado para participar do programa de tevê Bombom Show, protagonizado por crianças. “Entrevistei pessoas como irmã Dulce, Glauber Rocha e Dadá Maravilha. Eu encarava aquilo como uma extensão do que já fazia em casa.”

Dos 14 aos 17 anos, integrou o grupo teatral Tantas e Tamanhas, em que protagonizou sua primeira peça, A Viagem de um Barquinho. “Venho de uma geração que viveu uma pulsação cultural muito forte em Salvador, a congregar todas as linguagens, música, cinema, teatro, literatura, artes plásticas. Isso tudo de alguma forma estava no inconsciente da cidade.” Aos 18 anos, assumiu o desafio do ofício. Fez as malas e chegou ao Rio sozinho. “Era quase um outro país.” Alugou um quarto em Botafogo e foi estudar teatro na Casa de Arte Laranjeiras.

Ali surge o personagem sem o qual nenhum dos outros existiria. O palhaço Magal, como os amigos mais chegados o chamam. “O palhaço, de início, era a ponte com a criança, com a possibilidade de trazer a infância ao agora, não como uma coisa nostálgica, mas algo a se conectar com força no presente, a se permitir desnudar-se, não ter medo do ridículo, da espontaneidade, do inconsciente. É a possibilidade de você existir do jeito que você é.”

Do palhaço ao Bispo, deste ao cinema, tudo foi sendo construído ao longo do grande jogo em que a forte intuição é aflorada pelo trabalho. Para João Miguel, vida emocional, crenças, procuras, tudo vem misturado ao fazer de ator, no caso dele um assumido apaixonado por gente. “Todo mundo tem histórias para contar. Conto as que posso. Não saber exatamente como isso se dará me interessa muito. Viver em desafios, entrar em processos de criação, se permitir o abismo. Quando faço uma cena, de alguma maneira é uma morte e um nascimento de algo.”

Ao deixar o palco e se abrir para “a chegança de uma linguagem nova, o cinema”, João Miguel sentiu o tranco. Em especial em Cinema, Aspirinas e Urubus. “No primeiro momento foi abismal. Fiquei muitos dias sem dormir e cheguei para o Marcelo e disse que não dava para fazer isso sempre, pede uma energia sobrenatural.”

Para o intérprete, o personagem nasce do corpo, o grande armazenador de memórias. “O gesto vem daí, não da cabeça.” Em Estômago (2007), direção de Marcos Jorge, ele misturou vários sotaques nordestinos num só personagem, Alecrim. “Para mim aquele cara era um imigrante que pode ser de qualquer interior do mundo.” O ator indagou o diretor sobre o motivo de o personagem principal ser do Nordeste. “Ele pensava num nordestino como referência de pessoas hábeis na cozinha. Em São Paulo, todos os chefes são cearenses e às vezes eles viram japoneses”, brinca. “Acho incrível essa possibilidade de ser influenciado e não perder a essência.”

Em 2011, João Miguel viveu uma experiência inédita: interpretou o cangaceiro Belarmino na novela global Cordel Encantado. “O personagem me atraiu muito, um cangaceiro feminino e farsesco, a fazer a ponte entre o esconderijo do bando e a cidade. Tudo muito a ver com o palhaço.” Belarmino, a cada momento um disfarce, caiu no gosto do público. “Foi bacana aceitar. É uma indústria e cheguei com respeito.”

Neste ano João Miguel fez Xingu, de Cao Hamburger. “Foi incrível, pois Claudio Villas-Boas era um homem notável. E no caso de um personagem real todos o verão de acordo com a sua leitura.” Agora, acaba de sair da pele de João, caminhoneiro que foge de uma história perturbadora em À Beira do Caminho, drama dirigido por Breno Silveira que ganhou seis prêmios no 16º Filme PE. “Eu me acabei nesse filme, chorei como em nenhum outro na vida.”

Para um homem sempre atento em calibrar a medida do ego, uma carreira internacional não exerce fascínio. Em especial nos Estados Unidos. “Não tenho esse vislumbre. Sonhar no Brasil já é muita informação.” Admirador de José Dumont, “um gênio que influenciou muito minha geração”, de Marcelo Mastroianni, Al Pacino e Robert de Niro, Ângelo Antônio, Leandra Leal, Julio Andrade, Lila Guedes e William de Santis, João Miguel jamais perde de vista as origens. “No lugar onde nasci tinha o mundo, o universo.” Dali ele saiu e ali ele sempre retorna, feliz com o privilégio de representar muitos e ainda continuar a ser ele mesmo