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Internacional

Análise

Os EUA e Trump: as eleições de 2016 e o retrocesso

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 25/07/2016 14h22
A raiz do problema hoje é a mesma da Guerra de Secessão: olhar para o futuro ou permanecer no passado
Robyn Beck / AFP
Donald Trump

Trump na convenção republicana: como chegamos até aqui?

Por Cristina Soreanu Pecequilo

Desde o início de 2016, o quadro eleitoral norte-americano desenha-se em torno de linhas de retrocesso. Contrastando com 2008, quando Barack Obama, um novo candidato jovem, negro, carismático, emergiu no Partido Democrata derrotando a até então favorita senadora e ex-primeira dama Hillary Clinton nas primárias, a conjuntura eleitoral é desalentadora.

Pelo lado democrata, Clinton será confirmada e, pelo republicano, o milionário Donald Trump foi o escolhido, e a nação estará imersa em uma batalha pela Casa Branca que tem o potencial de ser uma das de mais baixo nível das últimas décadas.

Em 2008, a eleição de Obama foi pela mudança, e o retrato de um país dividido: sua vitória deu voz às minorias e representava a ascensão de uma América multirracial e multicultural, cujo perfil populacional, social e de renda encontra-se em transição.

De uma nação branca, anglo-saxã e protestante (WASP- White, Anglo-Saxon and Protestant), os Estados Unidos estão se consolidando como um país negro, latino e miscigenado. De um país rico, de forte classe média em um espaço de crescente linha de pobreza, exclusão social e tensões raciais, incluindo as polarizações de gênero e valorativas.

No ano da eclosão da maior recessão contemporânea nos núcleos do poder mundial (Estados Unidos e União Europeia), Obama trazia a esperança da conciliação e a quebra do militarismo e unilateralismo da gestão W. Bush, que cresceu à sombra do medo e da restrição às liberdades civis geradas pelo 11/09/2001.

Duas eleições depois, os Estados Unidos permanecem divididos em uma guerra de secessão, que se assemelha à do século XIX, quando travaram uma batalha sangrenta, que os dividiu entre a modernização e o retrocesso, entre o Norte industrial e o Sul escravocrata.

Ainda que usemos novos termos para definir os interlocutores, a raiz do problema é a mesma: olhar para o futuro ou permanecer no passado. Se Obama foi a face da América em 2008, Trump e Hillary são a América de 2016. Mas como chegamos a Hillary e Trump, principalmente Trump?

A presidência Obama cumpriu menos do que prometeu: em termos internos existiram avanços em muitos temas sociais, especialmente gênero e direitos das minorias, mas a pobreza, a exclusão e perda de renda continuam. A violência é endêmica, alimentada pelo preconceito e pela cultura da arma. Somados a isso, o racismo e a intolerância mútua crescem, simbolizados por uma guerra civil diária, em desrespeito aos direitos humanos.

Mesmo que parte da mídia brasileira ignore estes fatos, as bases domésticas do poder estadunidense sofrem há mais de vinte anos um processo de desgaste. Neste processo, a exclusão social é componente da secessão: enquanto o grupo que perde poder quer se manter sólido e se reorganiza em torno de novos nomes como Trump e “movimentos”, aqueles à margem demandam que a democracia em seu país, nos mesmos moldes que os Estados Unidos pregam para outras nações.

Externamente, Obama manteve a postura hegemônica: mudou discursos e práticas, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2009, retirou as tropas do Iraque (2011) e Afeganistão (2014), interveio na Líbia (2011), contém os emergentes representados pelos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), faz ingerências, retomou as relações com Cuba (2014), sem abrir mão do embargo, fechou o Acordo Nuclear com o Irã em 2015 (depois de descartar o Acordo Tripartite Brasil-Irã-Turquia de 2010), bombardeia por via aérea o Estado Islâmico, ignora a crise dos refugiados na União Europeia, dentre outros fatos (e a lista continua).

Donald Trump
Festa na convenção do Partido Republicano, em Cleveland, em 21 de julho, após a confirmação de Trump como candidato (Foto: Robyn Beck / AFP)

É nesse vácuo que se consolidam Clinton e Trump, desaparecem forças tradicionais como os Bush e se impede o crescimento de novos nomes como Marco Rubio e moderados como John Kasich. O republicano Kasich, governador de Ohio, poderia ser um novo Obama, mas não conseguiu competir com a máquina Trump. 

Clinton é quem ocupa este espaço pelos democratas e defenderá a continuidade. Bernie Sanders, seu adversário supostamente de esquerda por defender serviços públicos gratuitos e as revoluções políticas contra Washington, era um candidato tão folclórico e agressivo quanto Trump, e foi rejeitado pelas bases democratas, negros, latinos, classe média baixa, sendo abraçado por jovens brancos e eleitores mais velhos.

Trump, mesmo confirmado candidato, não representa a unidade: estas divisões ficaram claras na Convenção e o slogan “Nunca Trump” reproduz a mesma ferocidade verbal do candidato. A contagem de delegados atribuiu votos a Ted Cruz e a John Kasich. Enquanto Kasich representaria, como indicado, a moderação, Cruz é a polarização além de Trump. Cruz não apoiou Trump e pediu aos eleitores um voto consciente. Foi vaiado, mas pode passar sua mensagem que é para muitos a realidade: não votarão em Trump (assim como partidários de Sanders talvez não forneçam suporte a Hillary).

A despeito de Trump ter conseguido o apoio de alguns eleitores mais religiosos e sintetizar algumas agendas da Tea Party – pró-armas, anti-imigrantes, anti-direitos sociais e civis, anti-aborto – muitos não o consideram representativo dos valores norte-americanos: o estilo frugal pregado por estas comunidades, princípios familiares chocam-se com a riqueza do candidato, seu divórcio, seu egocentrismo.

A escolha de Mike Pence, governador de Indiana, para vice tenta matizar estas tendências. O constrangimento maior? Só o plágio da fala de Melania Trump, copiada de palavras de Michelle Obama.

Não houve “paz e amor” no longo discurso de aceitação de Trump. Os ataques concentraram-se na figura de Clinton como representante de uma América falida, violenta e com medo, dirigida por incompetentes. Evitou-se repetir algumas falas mais xenofóbicas e homofóbicas, polêmicas de gênero e religião, mas não se pode esquecer o que foi dito nas primárias.

Uma breve vista panorâmica da Convenção Republicana mostrava um público majoritariamente branco, masculino, um recorte artificial do país, de vez em quando mesclado por rostos negros que a câmera não se cansava de procurar na multidão. Latinos? Dificilmente.... Coincidências ou o perfil real do Partido e sua agenda de poder?

Trump repetiu promessas de segurança, prosperidade e geração de empregos e contradições na política externa: vai atacar o Estado Islâmico, mas não é favorável a intervenções, vai defender o comércio, só que pressionando a China. Ruído em cima de ruído, envolto em muita raiva, que compõe um forte show para a mídia de uma figura carismática.

Usar a verborragia como tática, dizer que é “movimento não política” é apenas jogo de palavras para esconder a ausência programática. As pesquisas eleitorais indicam um empate técnico, o que é preocupante.

Hillary pode ter seus defeitos, mas representa pelo menos uma coalizão de forças mais progressista dentro de sua heterogeneidade. Cabe à sociedade norte-americana, e como pano de fundo à global, questionar: por que deixamos a agressão verbal e física escalar em silêncio ou só com respostas tímidas? Já temos nossos “Trumps”.

*Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro GR-RI