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Internacional

Análise

"Brexit": A permanência é a melhor saída

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 20/06/2016 10h04
Saída do Reino Unido da União Europeia seria ruim para o país e para o bloco; resposta à crise deve ser mais integração
Daniel Leal-Olivas / AFP
Brexit

Com as bandeiras do Reino Unido e da UE, casal posa em frente ao Parlamento britânico em 19 de junho: o país está dividido

Por Paulo José Whitaker Wolf e Giuliano Contento de Oliveira

Diante do referendo no próximo dia 23 de junho em que os britânicos decidirão se irão permanecer ou não na União Europeia (UE), vale lembrar que as relações entre o Reino Unido e o projeto de integração regional europeu nunca foram fáceis.

No pós-guerra, os britânicos retiraram-se das primeiras negociações nesse sentido, receosos com um projeto de integração regional supranacional, isto é, em que as instituições nacionais concordam em transferir poderes soberanos para um conjunto de instituições supranacionais, que, por seu turno, desenvolveriam políticas comuns a todos os países-membros.

Naquele momento, o Reino Unido estava mais interessado em eliminar as barreiras aos fluxos de mercadorias e capitais, mas os países do continente, liderados por Alemanha e França, desejavam ir além. Depois, os britânicos reconsideram essa decisão, mas o projeto de integração regional já havia se tornado uma iniciativa, fundamentalmente, da França e da Alemanha.

Em função da resistência do então presidente francês Charles de Gaulle, a candidatura do Reino Unido foi negada duas vezes, em 1963 e em 1967. Ela foi aceita apenas em 1972, quando De Gaulle já havia deixado o cargo, após longas e, por vezes, difíceis negociações.

Mesmo depois do ingresso do Reino Unido no bloco, a tensão entre os dois lados do Canal da Mancha continuou bastante intensa.

Graças a sua insistência, os britânicos conseguiram concessões importantes dos demais países-membros, tais como:

i) não aceitar contribuir muito mais do que receber do orçamento europeu, passando a receber uma compensação monetária anual por isso;

ii) rejeitar a adoção da moeda comum, tendo conseguido manter a libra esterlina e, consequentemente, a autonomia de suas políticas monetária, cambial e fiscal;

iii) não participar da Área de Schengen, de modo que o fluxo de pessoas entre o país e os demais países que compõem o bloco ainda exige a checagem de passaportes nas fronteiras;

iv) rejeitar os termos das regras europeias sobre migração e, além disso, conseguir condições especiais em seu processo de implementação. Isso faz com que as regras de acesso aos benefícios sociais pelos estrangeiros que se estabelecem no Reino Unido sejam mais rígidas que as de outros países do bloco, por exemplo.

O sentimento britânico contrário à UE ganhou força depois da deflagração da crise europeia, a partir de 2008. Em muitos países da região, a crise de sobre-endividamento do setor privado se converteu em uma crise de dívida soberana, que teve como contrapartida um severo ajuste fiscal, com efeitos socioeconômicos deletérios em todos os países europeus, inclusive no Reino Unido.

Nesse contexto marcado por grandes adversidades, o primeiro ministro David Cameron anunciou, do nº 10 em Downing Street, a realização do polêmico referendo. Suas palavras contra os rumos do projeto de integração regional europeu foram altas o suficiente para serem ouvidas e causarem furor em Bruxelas, assim como em Paris e Berlim. Afinal, não se via uma afronta tão grande dos britânicos ao referido projeto desde a intransigência da também conservadora Margaret Thatcher em abrir mão de poderes soberanos em favor de um “superestado europeu”.

As pesquisas de opinião recentes apontam empate técnico entre favoráveis e desfavoráveis ao “Brexit”, de modo que o resultado dependerá da posição assumida pelos indecisos.

Levantamento realizado entre os dias 9 e 12 de junho pelo instituto Opinion Research Business (ORB) mostrou que 48% são a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia, 49% são contra e 3% estão indecisos. Convergindo com esse resultado, estudo realizado pelo Financial Times a partir dos resultados de diferentes pesquisas de opinião, publicado dia 13 de junho, apontou que 45% dos britânicos são favoráveis à permanência, 47% são contrários e 8% estão indecisos.

Deve-se observar, contudo, que optando ou não pela saída do bloco, não há como ignorar que os britânicos certamente não são os maiores entusiastas do projeto em tela. De acordo com pesquisas realizadas pelo Eurobarômetro, 28% dos britânicos têm uma imagem negativa da UE, 37% acham que as coisas estão caminhando na direção errada no bloco, 42% não se sentem cidadãos da UE, 43% estão pessimistas em relação ao futuro do bloco, 43% acham que teriam um futuro melhor fora da UE, 48% acreditam que o bloco não está trabalhando por eles, 54% acham que os interesses do Reino Unido não são levados em consideração pela UE, 55% não confiam nas instituições do bloco, 63% não acreditam que a sua voz seja ouvida na UE e 72% são contrários ao euro.

A primeira questão fundamental é que a saída do Reino Unido da UE poderá levar ao aumento da incerteza e à deterioração do estado geral de expectativas dos atores econômicos, aprofundando ainda mais a crise na região, incluindo a da própria economia britânica, que se arrasta há aproximadamente uma década.

Os países europeus são os principais parceiros dos britânicos no âmbito das relações de comércio e investimento, viabilizadas pela eliminação das barreiras aos fluxos de mercadorias e capitais. A City de Londres, o núcleo da economia britânica baseada nos serviços financeiros, seria particularmente afetada nesse processo.

Ademais, a saída do bloco também pode prejudicar o Reino Unido pelo fato de que ele é beneficiado pelos estímulos ao desenvolvimento das regiões mais atrasadas da Inglaterra, da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte, via investimentos produtivos, em infraestrutura, em inovação, em educação e qualificação de mão de obra, em sustentabilidade, entre outros, financiados pela Política Regional ou de Coesão com recursos do orçamento comunitário, entre outras políticas.

Não apenas o Reino Unido tende a perder com a saída da UE, mas também a UE tem muito a perder com a saída do Reino Unido. O projeto de integração regional será ainda mais fragilizado, sobretudo no contexto de crise econômica e social atual.

De fato, a resposta dos países europeus deve ser mais, e não menos, integração entre eles. Os países europeus devem fortalecer e não abdicar dos esforços em comum, com a consciência de que todos podem ganhar se cooperarem entre si.

Por fim, essa cooperação deve ser convertida em ações mais contundentes das instituições e políticas supranacionais a fim de que elas possam se somar à ação das instituições e políticas nacionais destinadas a criar as condições para o processo sustentado de retomada do crescimento econômico e para a redução das desigualdades sociais na região.

Dessa forma, pelo bem do Reino Unido e da UE, espera-se um voto de confiança dos britânicos no projeto de integração regional europeu e em tudo o que ele representa desde a sua fundação, há mais de meio século.

O maior projeto de integração regional da história foi viabilizado pelo interesse comum, vale dizer, pela cooperação. Será por meio dela que a UE poderá superar a crise atual e, espera-se, recuperar os princípios norteadores fundamentais do projeto de integração, baseados na noção de união.

 

* Paulo José Whitaker Wolf é Doutorando em Economia no IE/Unicamp e Professor do Curso de Especialização em Relações Internacionais da Extecamp. Giuliano Contento de Oliveira é Professor do IE/Unicamp e Coordenador de Curso de Especialização em Relações Internacionais da Extecamp (www.eco.unicamp.br/ceri). Convidados do GR-RI.

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