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A visita de Obama à América Latina: e o Brasil com isso?

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 04/04/2016 12h46
Em momento de expansão dos EUA, o Mercosul e o Brasil são a pedra no sapato para o crescimento do livre comércio na região
Casa Rosada/Gobierno de Argentina
Obama-e-Macri

Obama prometeu tornar públicos os documentos sobre a atuação dos EUA na ditadura militar argentina

Por Graciela Rodriguez

Ecoar no Brasil o que acontece fora do país é tarefa habitualmente difícil. Com a cobertura da visita de Obama a Argentina não foi diferente. Foi muito desanimador o espetáculo da mídia nacional, principalmente a televisiva, que só lhe destinou os escassos minutos em que Obama se referiu ao Brasil, para aparentemente não dizer nada com retórica grandiloquente.

Entretanto, a visita que foi realizada coincidindo com os 40 anos do golpe militar genocida que nosso país irmão sofreu em 1976, não pode passar assim despercebida. A começar pela afronta que significou essa presença simbólica, numa tentativa de resignificar dia tão especial para a história e memória não só da Argentina, como também de muitos dos países da região, que viveram golpes semelhantes e que tiveram posteriormente que sobreviver a “Operação Condor” no caso dos países do Cone Sul das Américas.

Chega a ser de uma hipocrisia poucas vezes assistida a visita de Obama e Macri ao Parque da Memória, sem sequer uma condenação explícita à intervenção que os EUA tiveram no golpe, como também dos benefícios que resultaram do golpe econômico-militar para as empresas da família Macri.

A promessa de Obama de tornar públicos documentos sigilosos sobre a atuação dos EUA em relação à ditadura militar na Argentina foi considerada no mínimo insuficiente pelos organismos de Direitos Humanos do país, que não acompanharam os mandatários na visita ao Memorial.

Ao mesmo tempo, chegou a ser nauseabundo ver o presidente argentino chegar pela primeira vez a esse Memorial para realizar declarações como as de “que não exista nunca mais violência política nem institucional” no país, malabarismo retórico que reafirma a velha teoria dos dois demônios, e culminar com “nunca mais divisão entre os argentinos” famoso eufemismo utilizado para deter as investigações nos processos de memória e verdade contra o genocídio por parte do Estado e os crimes contra a humanidade praticados pelo golpe militar.  

A magnitude das manifestações populares no dia 24 de março, junto ao reconhecimento do genocídio, que de fato significaram os atos realizados pelos dois mandatários em homenagem às vítimas do terrorismo de Estado, mostram a outra face da moeda e servem de perspectiva reconfortante.

Entretanto, não para por aí a importância simbólica e concreta desta visita, que não foi motivo de nenhuma reflexão na imprensa brasileira. Evidentemente, não é nada casual que esta visita do presidente americano tenha acontecido poucos dias depois da visita do presidente da França, François Hollande.  

De fato, ambas as visitas devem ser lidas como uma legitimação ao restabelecimento na Argentina de um governo neoliberal, que nos primeiros cem dias de mandato, já promoveu a implementação das conhecidas políticas de ajuste econômico, que aliás, foram justamente motivo de elogio do presidente norte-americano, e que também convocou Macri a “transformar a Argentina em um aliado universal dos Estados Unidos”.

Claro que para tanto encômio entusiasmado, também somou pontos a recente negociação pelo atual governo argentino do acordo para pagamento aos especuladores dos “fundos abutres”, outro motivo de elogios de Barack Obama.

Mas talvez, além destes sinais evidentes do apoio mostrado pela visita, o motivo da mesma tenha usufruído de menos evidência pela imprensa e esteja mais relacionado com o momento geopolítico que vive a região da América do Sul e as disputas pela hegemonia global. 

Obama-e-Castro
Visita de Obama a Cuba e depois a Argentina é um esforço para recuperar a hegemonia dos EUA na América Latina (Foto: Cuba Debate)

 A grave crise política e econômica desencadeada no Brasil por setores políticos e empresariais da direita do país, somada ao avanço dos acordos de liberalização comercial como o TPP que vem ampliando seu espectro de apoio entre os países da região, mais as constantes ameaças e críticas que sofre o MERCOSUL e também a UNASUL como perspectivas de integração regional estão entre as principais razões políticas desta polêmica visita e possivelmente no cerne dos quatro acordos de cooperação e o memorandum de entendimento assinados pelos mandatários.

A visita de Obama a Cuba e depois a Argentina é um evidente esforço para recuperar a hegemonia norte-americana na América Latina, cada vez mais sobre a influência econômica da China, que tem ampliado com vigorosos investimentos sua presença na região.

Por outro lado, o MERCOSUL e a União de Nações Sul-americanas, (UNASUL) em termos políticos, têm sustentado uma perspectiva de inserção global mais autônoma para a região. Estes são com certeza alguns dos principais elementos que provocaram essa necessidade de recuperação do “pátio traseiro” num momento crucial da recente investida neoliberal que varre o mundo.

As estranhas declarações da Ministra de Relações Exteriores da Argentina, Susana Malcorra, feitas pouco antes da visita de Obama, anunciando que seria possível acionar a cláusula democrática contra o Brasil que poderia assim sofrer “uma desvinculação temporária”, podem se tornar muito perigosas se entendidas no contexto das resistências brasileiras à abertura do Mercosul, tanto nas negociações com a União Europeia, quanto à aproximação ao TPP ou até ao estabelecimento de novas negociações de liberalização comercial.

Vale lembrar que o Brasil, dentro do Mercosul, é um dos países do mundo com menos acordos de livre comércio assinados, e sua saída, ainda que temporária, poderia dar lugar a animar propostas ainda um pouco dissimuladas de aproximação ao TPP e outras.

A política externa dos governos Lula e Dilma, especialmente do primeiro, mostrou a possibilidade de um caminho de multipolarização do mundo, com novas parcerias comerciais e de cooperação que não exclusivamente as Norte-Sul, baseadas na expansão do mercado regional através do Mercosul e de acordos regionais de cooperação.

Neste momento a concretização da política expansiva dos EUA e consequentemente da UE, precisam da liberalização comercial irrestrita do TTP e também do TTIP, para retomar a expansão do capital norte-americano, diante do expressivo crescimento chinês na Ásia e sua expansão crescente na África e América Latina. Nesse cenário, o Mercosul, como também o próprio Brasil, são a pedra no sapato para a expansão do livre comércio na região.

Brasil, que teve papel central na resistência a ALCA, deve ser “recuperado” para esta reciclagem do bloco que está sendo montada pela dupla Obama/Macri. Daí a importância de olhar para fora. Veremos mais um motivo para nossa direita golpista, senão talvez o principal...

*Graciela Rodriguez é coordenadora do Instituto Equit, membro da AMB – Articulação de Mulheres Brasileiras e da REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos. Participante do GR-RI.