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Terra de gigantes

por Thomaz Wood Jr. publicado 01/02/2013 10h14, última modificação 06/06/2015 18h42
Desenvolvida com arquitetura aberta, a internet se parece cada vez mais com o “mundo real”, com grandes criaturas a dominar meios e mensagens

No despertar de 2013, a Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos declarou que a empresa Google não havia violado leis antitruste ou adotado práticas contra a livre competição. A declaração surpreendeu e frustrou diversos observadores, que esperavam ver condenada a forma como a empresa mostra os resultados de busca. Edward Wyatt, escrevendo para o jornal The New York Times, observou que a decisão permite ao Google fortalecer sua posição na internet, além de evitar uma custosa batalha judicial. Para vencer, a empresa investiu mais de 13 milhões de dólares em lobby e mobilizou um exército de advogados, executivos e engenheiros.

As investigações fizeram eco àquelas enfrentadas pela Microsoft nos anos 1990. Conforme cresceram e expandiram seus negócios, as empresas foram capazes de mobilizar recursos, adquirir ou aniquilar competidores. Ambas foram acusadas por rivais e por agentes reguladores de explorar de forma injusta sua posição dominante no mercado.

A internet tem raízes em desenvolvimentos de tecnologia e comunicação que ocorreram nos anos 1960, especialmente a Advanced Research Projects Agency Network (Arpanet). A explosão da rede mundial ocorreu a partir dos anos 1990, com um crescimento vertiginoso do tráfego e do número de usuários. Embora em sua origem houvesse interesses militares, a rede cresceu com base em uma arquitetura descentralizada e aberta, e marcada por uma cultura alternativa e libertária.
No entanto, nos últimos anos, o crescimento de grandes corporações com atividades baseadas na rede, ou parcialmente relacionadas à rede, parece estar tornando o mundo virtual cada vez mais parecido com o mundo real. Bruce Sterling, ­escritor norte-americano de ficção científica, observador do cenário virtual, declarou recentemente que a internet é cada vez mais algo conformado ou fortemente influenciado por cinco “pilares”: Apple, Google, Facebook, Amazon e Microsoft.

Esses cinco gigantes têm histórias extraordinárias. A Apple, cria do idolatrado Steve Jobs, renasceu das cinzas para se tornar uma empresa colossal, invejada por sua capacidade de inovar e de moldar o mercado. Google, a partir de uma singela ferramenta de busca, transformou-se em uma líder incontestável da propaganda online. O Facebook atropelou seus rivais e superou, em 2012, 1 bilhão de zumbis (ou usuários). A Amazon passou de livraria virtual a gigante da logística, gerenciando um portfólio abrangente de produtos. A Microsoft, de Bill Gates e Paul Allen, hoje gerenciada por Steve Ballmer, continua sendo o maior fabricante mundial de softwares, porém, se reinventou, investindo em videogames e outros produtos.

A revista britânica The Economist, parceira de CartaCapital, em matéria publicada em dezembro de 2012, alerta para três problemas relacionados à presença de gigantes na internet: o primeiro é a tendência de o vencedor dominar todos os mercados; o segundo é a tendência dos gigantes de “aprisionarem” seus clientes em suas respectivas plataformas; e o terceiro é hábito dessas megacorporações de adquirir e incorporar empresas menores, antes que elas se tornem ameaças à sua posição.

Conforme argumentou Alexis C. Madrigal, no website da revista The Atlantic, se você for a Nokia, a Hewlett-Packard ou um fabricante japonês de produtos eletrônicos, esses cinco gigantes “roubam todo o seu oxigênio”. E podemos completar: se você for um simples mortal, um mero consumidor, esses cinco gigantes o submeterão a um conhecido processo que envolve sedução, conquista, extração de valor e aprisionamento, quando você se tornará refém de seus modelos de negócio e plataformas. No mundo que essas empresas estão criando, a tecnologia funciona bem dentro de seus domínios, mas cruzar as fronteiras pode ser um pesadelo.

O que fazer? Os reguladores norte-americanos e europeus parecem acreditar que podem, pelo discurso ou por pressão, convencer os gigantes e adotar códigos civilizados de conduta competitiva. Será? Críticos mais duros apontam a necessidade de cisão dos gigantes. Segundo tal raciocínio, conforme exemplificado por The Economist, Apple e Google seriam forçados a escolher um tipo de negócio: fornecimento de conteúdo digital, produção de ­hardwares ou distribuição de informações. Nada de controlar as três minas de ouro.

O impacto de um movimento desse tipo poderia ser notável, mas seria benéfico para o consumidor? Ou seria mais sensato aguardar que o “sistema” opere sua mágica, que os gigantes trombem entre si, ou tombem por sua arrogância e outros lhes tomem o lugar? O fato é que, como indica o antigo provérbio: em briga de elefantes, quem mais sofre é a grama.

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