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Gigantes farmacêuticas precisam investir em pesquisa

por The Observer — publicado 09/05/2014 04h52
Com bactérias cada vez mais resistentes aos antibióticos, é absurdo que as multinacionais estejam contendo a criação de novos remédios
Spencer Platt / Getty Images / AFP
Pfizer

Mulheres passam em frente à sede da Pfizer em Nova York, na segunda-feira 5. O laboratório teve queda de 9% em sua arrecadação no primeiro quarto do ano

Por Will Hutton

Podemos estar entrando em uma alarmante "era pós-antibióticos", advertiu a Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada. O alívio que a humanidade obteve com os antibióticos que combatem ataques à nossa saúde parece estar se esgotando, enquanto as bactérias desenvolvem mecanismos de defesa cada vez melhores. Pensávamos que a era das doenças infecciosas tivesse ficado para trás, mas ela está voltando?

Na União Europeia, 25 mil pessoas morrem todos os anos de doenças do sangue e do aparelho urinário, de pneumonia, tuberculose e diarreia, doenças que já foram tratadas com antibióticos eficazes. E isto em uma região onde há ampla vacinação contra infecções e onde a saúde pública é forte.

Os germes causadores da tuberculose ou da gonorreia hoje combatem os antibióticos cada vez mais depressa, e esses germes mutantes viajam por todo o mundo. Em todo lugar as pessoas têm de ficar mais tempo nos hospitais e enfrentar um risco crescente de infecção por outros doentes. Os índices de mortalidade começam a aumentar, em vez de cair.

A situação provavelmente não vai melhorar. Parte do problema é que as pessoas são muito descuidadas sobre como os antibióticos são prescritos e usados, e assim os germes não são eliminados; pelo contrário, desenvolvem melhores mecanismos de defesa. Além disso, nos últimos 30 anos as companhias farmacêuticas não desenvolveram novos tipos de antibióticos importantes. O último foi o carbapenem – chamado antibiótico de último recurso –, em 1980. Hoje mais da metade dos casos de pneumonia K, que costumavam ser tratáveis com drogas da classe carbapenem, não respondem mais. O doutor Keiji Fukuda, diretor-geral assistente da OMS para segurança da saúde, explicou o perigo: "Sem uma ação coordenada e urgente de muitos participantes, as infecções comuns e pequenos ferimentos que foram tratáveis durante décadas novamente poderão matar", diz ele.

O impacto é sentido em toda a medicina. A eficácia das drogas é interdependente. Pacientes de câncer submetidos a quimioterapia, um tratamento caro, precisam de antibióticos baratos para lidar com os efeitos colaterais potencialmente fatais, enquanto seus sistemas imunológicos sofrem o impacto do veneno para matar o câncer.

Habituamo-nos à ideia de que a ciência médica está melhorando; não há necessidade de temer um dedo infeccionado, quanto menos as doenças que traumatizaram as gerações passadas. Hoje parece que a ciência está perdendo a batalha que nos acostumamos a ganhar.

Mas a crise está muito menos na ciência do que nas maneiras como ela é conduzida e organizada. Não é por acaso que o fracasso em desenvolver novos antibióticos nos últimos 30 anos coincidiu com a reversão do Estado e o concomitante colapso da autoconfiança em iniciativas públicas ou nos efeitos benéficos dos gastos públicos.

A descoberta de drogas, e com ela a evolução de todo um complexo ecossistema médico, juntamente com a ciência que o apoia, foi conduzida pelos sinais de lucros no mercado comercial. Como as substâncias químicas antibióticas mais fáceis de encontrar já foram descobertas, a nova pesquisa é complexa e cara – mas os antibióticos são apreçados como drogas de baixa margem. Pior, os reguladores – especialmente a FDA nos Estados Unidos, que, como guardião do mercado de drogas mais rico do mundo, é de vital importância – só licencia antibióticos para usos particulares, e não generalizados.

Para um laboratório que maximiza os lucros, como a Pfizer, a conclusão é óbvia. Não desperdice pesquisa e desenvolvimento valiosos em antibióticos de baixa margem de lucros que nunca se tornarão sucessos super-rentáveis. Em vez disso, desenvolva, por exemplo, o Viagra, que é um gerador de dinheiro global de alta margem de lucros. Explore sua potência financeira evitando ao máximo os impostos – outros idiotas podem financiar a infraestrutura da qual você se beneficia diretamente – e tente comprar outros laboratórios, como o AstraZeneca, que foram tolos o suficiente para investir em drogas mais integradas ao ecossistema médico. Você poderá colher os resultados dos esforços deles, embolsar seus vastos bônus e comprar uma ilha no Pacífico. Você poderá até ter sorte bastante para encontrar um governo fraco e mal orientado – como o do Reino Unido – , que acredita nessa maneira de fazer negócios.

No século XIX, um dos maiores catalisadores para o fim do laissez-faire foi a experiência vívida das doenças infecciosas, falta de saneamento, ar poluído, alimentos contaminados e medicamentos não regulamentados. A classe média alta construiu suas casas de campo no oeste das cidades inglesas, com vento favorável, para tentar limitar sua exposição não apenas ao mau cheiro, como ao risco de infecção: não é por acaso que a classe trabalhadora vivia contra o vento, no leste das cidades.

Mas a doença infecciosa não respeita os limites de classe e riqueza. A partir da Lei de Vacinação de 1840, os vitorianos decidiram que a saúde pública tinha de vir antes da liberdade individual e lançaram as iniciativas combinadas para construção de esgotos, vacinação de crianças e o domínio de uma ciência cada vez melhor para sustentar seus esforços. Movimentos antivacinação que protestam contra a extensão do Estado – o equivalente ao Ukip (Partido pela Independência do Reino Unido) de hoje – tiveram de abandonar sua resistência diante das necessidades de saúde e do peso das evidências.

A OMS invoca hoje esse mesmo espírito. Os antibióticos são preciosos e os ganhos para a saúde pública, precários. Nossa cultura não respeita o suficiente essas drogas que salvam vidas; nós as usamos como aspirinas, não completando o tratamento prescrito, ou mesmo dando remédios não utilizados para amigos ou parentes para os quais eles não foram diagnosticados.

A natureza está preparando sua vingança. Agora precisamos de um novo esforço coletivo para reagir. Ele começa com cada indivíduo reconhecendo e valorizando o milagre dos antibióticos, mas também significa que novos antibióticos têm de ser desenvolvidos mais depressa e com maior eficácia. Precisamos de formas mais inteligentes e mais abertas de colaboração em pesquisa entre diversos laboratórios farmacêuticos, em torno de estratégias de saúde que compreendam que as drogas são bens de saúde pública globais e que o ecossistema médico se levanta e cai como um todo. O sucesso dos antibióticos é tão importante para nossa saúde quanto para os lucros das farmacêuticas. Os governos precisam restabelecer os incentivos e os laboratórios, suas prioridades. Os melhores cientistas e universidades sabem disso e querem que sua ciência seja utilizada dessa maneira.

A Grã-Bretanha poderia assumir a liderança, mas nas próximas semanas deveremos ser roubados de um de nossos maiores ativos farmacêuticos, a AstraZeneca. Ela provavelmente será adquirida pela Pfizer, que tem entre seus principais objetivos estratégicos evitar impostos. A OMS deve pedir mudanças não apenas no modo de se utilizar os antibióticos, mas em como eles são pesquisados e produzidos, para que o mundo não enfrente consequências devastadoras. Bactérias perigosas infectam até os ideólogos do governo britânico, tão ansiosos para vender para interesses americanos, e os acionistas da AstraZeneca, cuja única lealdade é ao preço mais alto das ações em curto prazo. Nossa saúde exige uma nova seriedade de intenções e o reconhecimento de que é um bem público, e não uma brincadeira particular. Dizer não à Pfizer seria um chamado de despertar para todos.

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