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Por via das dúvidas

por Felipe Marra Mendonça publicado 09/02/2011 16h51, última modificação 09/02/2011 16h51
A China bloqueia, na internet, notícias sobre os protestos nos países árabes, por temer o efeito sobre os ânimos locais

A China bloqueia, na internet, notícias sobre os protestos nos países árabes, por temer o efeito sobre os ânimos locais
O poder da internet nos correntes protestos no Egito e na recente insurreição na Tunísia ainda não pode ser efetivamente qualificado, mas é certo que ela teve algum papel nos acontecimentos. Entre os comentários feitos por diplomatas americanos e divulgados pelo WikiLeaks estavam relatos de um governo “corrupto”, “odiado” e “esclerótico”. A divulgação foi parte do impulso para o começo dos protestos que culminaram com a queda do ex-presidente Ben Ali na sexta-feira 14.
No Egito, a influência da internet foi considerada tão nociva pelo regime de Hosni Mubarak que o governo decidiu simplesmente fechar as conexões dos provedores locais com o resto do mundo no dia 28, assim como as redes de telefonia celular. Isso evitaria qualquer tentativa de organização de protestos via redes sociais ou a divulgação de instruções por mensagens de texto ou mesmo ligações entre cidadãos. É difícil apontar o estopim virtual dos protestos egípcios, embora a influência tunisiana seja clara. Um dos pontos de partida teria sido um vídeo feito por Asmaa Mahfouz, uma egípcia de 28 anos, que circulou no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=SgjIgMdsEuk) e depois foi compartilhado no Facebook.
A fala de Asmaa é emocionante. Ela faz um depoimento sobre um primeiro protesto fracassado, em que foi acossada por agentes da polícia egípcia, e depois conclama seus conterrâneos a deixarem de lado o medo para protestar contra o governo. “Aos que dizem que as mulheres não deveriam ir protestar porque serão surradas, que tenham alguma honra, sejam homens e me acompanhem no dia 25 de janeiro.”
Ela também critica os que só acompanham os acontecimentos com a distância segura da mídia e da internet. “Sentar em casa e acompanhar as notícias pela mídia ou pelo Facebook leva à nossa humilhação. Leva à minha humilhação. Se você tiver honra e dignidade como um homem, venha e me proteja, a mim e às outras meninas no protesto. Se ficar em casa, merecerá o que acontecer com você, e será culpado perante a sua nação e seus conterrâneos. E será culpado pelo que acontecer conosco nas ruas enquanto você fica em casa. Vá para as ruas, envie mensagens de texto, faça com que as pessoas saibam do movimento.”
E as pessoas souberam e apoiaram, como visto nos últimos dias no Egito. As repercussões agora abrangem a Argélia, a Jordânia e o Iêmen, mas muitos se perguntam se um movimento semelhante poderia suscitar na China. Por via das dúvidas, as autoridades chinesas tomaram medidas para evitar uma disseminação dos eventos, com medo de que eles pudessem inspirar a população local. O sinal foi dado por um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês na sexta 28 de janeiro, quando disse que o governo chinês apoiava as autoridades egípcias e seus esforços para manter a estabilidade social. O termo “Egito” foi bloqueado das ferramentas de busca na maioria das redes sociais chinesas e os meios de comunicação receberam instruções para moderar a cobertura do que acontecia no exterior. Mais do que uma plataforma de comunicações, a internet se tornou uma ameaça aos regimes autoritários.