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Por que o Twitter supera o Facebook em notícias quentes

por The Observer — publicado 13/09/2014 04h21
As pessoas imaginam que o Twitter e o Facebook são muito parecidos, mas as reações à morte de Michael Brown em Ferguson sugerem que não
Alfredo Estrella / AFP
Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, durante evento no México, em 5 de setembro. É problemático confiar na rede dele para se informar

Há exatamente um mês, um adolescente negro chamado Michael Brown foi morto a tiros por um policial branco na cidade de Ferguson, no estado de Missouri (EUA). Houve diversas testemunhas oculares, mas as circunstâncias da morte são discutíveis e atualmente são objeto de investigações do FBI e do grande júri. O que não se discute é que a morte provocou ondas de protesto, tumultos, policiamento agressivo, a imposição de toque de recolher, a convocação da Guarda Nacional e, às vezes, imagens que fizeram Ferguson parecer um subúrbio de Bagdá.

Para muitas pessoas, isso reavivou lembranças do espancamento selvagem de Rodney King cometido por oficiais de polícia de Los Angeles em 1991. Esse incidente, que em circunstâncias normais teria sido provavelmente apenas um fato rotineiro para o departamento de polícia, provocou os mais sérios tumultos urbanos vistos nos EUA desde os levantes de Watts em 1965. O que os desencadeou foi o fato de o ataque a King ter sido gravado em vídeo por uma testemunha, da sacada de seu apartamento. O vídeo resultante é de baixa qualidade, mas de todo modo nauseante; quando transmitido em redes de televisão americanas, provocou uma explosão de raiva dos cidadãos negros.

Assim, um exemplo precoce da "mídia cidadã" teve um papel importante na história de King. Agora avance 23 anos, para 9 de agosto deste ano. Ferguson é uma cidade predominantemente negra, mas sua força policial é predominantemente branca. Pouco depois da matança, observadores gravaram entrevistas com testemunhas e protestos em smartphones e ligaram as gravações a suas contas no Twitter. Notícias da morte se espalharam como fogo no mato pelos EUA, causando dias de confrontos de rua entre manifestantes e policiais e a imposição de algo muito parecido com a lei marcial. O secretário da Justiça dos EUA acabou aparecendo e o FBI abriu uma investigação sobre direitos civis. Durante dias, se você é um usuário do Twitter, Ferguson dominou seu "tweetstream", a ponto de que um conhecido meu, voltando de férias fora da rede, inicialmente deduziu da tendência ao hashtag "#ferguson" que sir Alex tinha morrido.

Não há dúvida de que o Twitter teve um papel chave ao levar uma morte local ao noticiário nacional e internacional. (Até a equipe de Putin se divertiu com isso, oferecendo-se para enviar observadores de direitos humanos.) Mais de 3,6 milhões de tuítes relacionados a Ferguson foram enviados entre 9 de agosto, o dia em que Brown foi morto, e 17 de agosto.

Então, três vivas para a mídia social?

Não exatamente. Escute o que John McDermott, um observador sério da nova mídia, tem a dizer. "Se você verificou seu mural no Facebook na última semana e meia", ele escreve, "você quase sem dúvida viu um amigo participar do desafio do balde de gelo, a sensação viral positiva destinada a aumentar a consciência sobre e angariar dólares para a pesquisa de ALS. Entretanto, se você passou mais tempo no Twitter, teve maior probabilidade de receber atualizações sobre Ferguson, Missouri, onde a polícia (e agora a Guarda Nacional) tentam impor a ordem a uma cidade que pede justiça para Michael Brown, o rapaz de 18 anos morto a tiros por um policial em 9 de agosto."

Uma das funções mais importantes da mídia social como o Facebook e o Twitter é a maneira como ela "refere" (isto é, encaminha) amigos ou seguidores para artigos publicados em outros lugares. McDermott cita números da SimpleReach – empresa de análise de mídia social que trabalha com centenas de editoras, incluindo Forbes, Gawker, New York Times e Vice – que mostram que "matérias sobre Ferguson e/ou Michael Brown publicadas desde 7 de agosto geraram menos referências no Facebook em média (256) do que matérias sobre o desafio do balde de gelo (2.106)".

Isto é interessante de diversas maneiras. Primeiro, mina a suposição geral de comentaristas, especialmente desde o início da Primavera Árabe, de que toda "mídia social" pode ser amontoada em uma única categoria. A realidade é que Twitter e Facebook são redes radicalmente diferentes.

Mais importante, as discrepâncias entre o modo como os dois serviços conduziram a morte de Brown ilustram as maneiras como as redes sociais podem salientar ou minimizar as reportagens ou os acontecimentos. A ideia de que essas tecnologias fornecem uma tábula rasa sobre a qual os eventos se inscrevem é bobagem.

E não há arma fumegante aqui, apenas um algoritmo fumegante. O que você vê no Twitter é determinado por quem você segue. Em comparação, o que você vê em seu mural do Facebook é "curado" pelos algoritmos da empresa, que tentam adivinhar o que vai lhe interessar (e talvez induzi-lo a comprar alguma coisa). Ter uma franca discussão sobre o racismo que desfigura os EUA talvez não se encaixe nesse programa. É por isso que o Facebook é para memes do balde de gelo e o Twitter é para o que realmente está acontecendo.

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