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Steve Jobs 2

Um espírito contraditório

por Paula Thomaz — publicado 06/10/2011 12h55, última modificação 06/10/2011 15h52
'Ele tinha um hardware fechado, sem compatilhamento de tecnologia e conhecimento', lembra Sérgio Amadeu

No mês de agosto, quando Steve Jobs, falecido nesta quarta-feira 5, deixou a presidência da Apple, sua carta de despedida parecia o prenúncio de sua morte. O visionário ou “remixador de tecnologias”, como o denomina o sociólogo Sérgio Amadeu, talvez tenha encontrado nessa despedida uma forma de dar fôlego à própria vida e tratar do câncer de pâncreas descoberto em 2004. Talvez essa também tenha sido uma forma de preparar os ânimos do mercado.

E ele conseguiu: o desempenho da empresa nas bolsas de valores, naquele mês, se manteve estável. Seu substituto, Tim Cook, não poderia ser melhor. Na Apple desde 1998, ele já atuava como diretor de operações do grupo e estava à frente da empresa na ausência de Jobs desde o início deste ano.  Mesmo assim, a reação dos meios de comunicação foi de quase morte e páginas foram dedicadas ao gênio da Apple.

Ainda que tenha feito sua despedida antecipada e preparado usuários, fãs e mercados em agosto para a notícia de ontem, pairam no ar as dúvidas sobre o que será daqui para frente. Para Amadeu existe um futuro incerto quanto ao desempenho da empresa na bolsa de valores. “Não dá para saber como será esse equilíbrio entre expectativa e temor. A bolsa age muitas vezes de modo irracional. Então resta saber como serão movimento dos adversários da Apple. Eles podem criar fatos que gerem temores sobre a empresa de Jobs.”

Mas qual será a influência que vai ganhar o coração dos investidores?

Para o sociólogo, a Apple é uma empresa muito grande que tem um conjunto de criadores e desenvolvedores que são o espírito da empresa. “Não era só o Steve Jobs”, afirma. Segundo ele,  a empresa pode perder sua força simbólica.  Uma força que "dá energia e aponta o futuro, que dá a impressão, nem sempre verdadeira, de que você está na crista, na vanguarda, ou não”.

O homem por trás das invenções tecnológicas perfeitas, tem, no meio de tanto reconhecimento do trabalho, um defeito, de acordo com Amadeu. Apesar de trabalhar práticas recombinantes, ele tinha uma perspectiva equivocada, “que era na verdade não trabalhar com o compartilhamento das tecnologias e do conhecimento. Ele tinha um hardware fechado, um software fechado. Ele trabalhava no núcleo mais duro da propriedade intelectual, o que era muito contraditório com o espírito do nosso tempo”.

Para Amadeu, a Apple perdeu a disputa com a IBM ao lançar o primeiro microcomputador na concepção de propriedade intelectual dura. “O hardware dele é de arquitetura fechada, apesar de ser pioneiro. A IBM lançou o PC de arquitetura aberta.” Com isso, a Apple não se tornou o padrão, apesar de ter enorme qualidade e de ter encontrar o seu nicho.

Repercussão

Contradições à parte, o que ficou mesmo sobre Jobs foi o reconhecimento de seu talento por toda parte. O criador do Facebook, Mark Zuckerberg, em sua página da rede social escreveu: "Steve, obrigado por ser um mentor e um amigo. Obrigado por mostrar que o que construiu consegue mudar o mundo. Vou ter saudades suas".

Bill Gates, da Microsoft, afirmou que "o mundo vê raramente pessoas que têm uma influência tão importante quanto a que Jobs teve. Os seus efeitos serão sentidos por muitas gerações futuras".

Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama classificou Steve Jobs "entre os maiores inovadores norte-americanos”. Enalteceu "o espírito de engenho norte-americano", e disse que a sua criatividade "mudou a forma como cada um de nós vê o mundo".

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