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O ativismo online realmente pode mudar o mundo?

por The Observer — publicado 25/11/2013 05h50
Com 30 milhões de filiados, a Avaaz é uma organização que pretende salvar a todos nós por meio da tecnologia. Conheça seu fundador, Ricken Patel
Divulgação / Avaaz
Avaaz

O Avaaz acredita no poder do ativismo digital

Por Carole Cadwalladr

Existem muitas causas. Esta me foi apresentada forçosamente diante do Parlamento em Londres em um dia de julho de 2013, quando eu tentava localizar a manifestação "Não deixe que a Birmânia se torne a próxima Ruanda". Afinal a encontro – há um quadro vivo de lápides e algumas pessoas vestidas como o presidente de Burma, Thein Sein, e o primeiro-ministro David Cameron com cabeças gigantes de papier-mâché –, mas sou distraída das histórias de potencial genocídio pelas atividades da organização GLS Stonewall e do Coro Gay de Londres, que também estão protestando a poucos metros de distância. É um dia crucial para a votação do casamento gay, e enquanto os manifestantes pró-Burma portam cartazes e entoam slogans, é um páreo duro: o Coro de Homens Gays de Londres lança uma versão a capela de I Need a Hero e Peter Tatchell apareceu e começou a dançar.

Mas então é esta a realidade do protesto no século XXI: um desfile de beleza. Uma competição pela coisa que todos parecemos ter menos: atenção. As câmeras de TV aparecem, porém, e uma jovem da minoria muçulmana rohingya da Birmânia dá entrevistas comoventes para jornalistas sobre os terríveis abusos aos direitos humanos que sua família sofreu. E cerca de uma dúzia de jovens aparecem para oferecer apoio. O protesto foi organizado pela Avaaz, uma organização ativista da internet, e esses são "avaazistas". Eles podem ter acabado de assinar uma petição online, ou "curtido" uma causa no Facebook, ou doado para uma campanha – para salvar as abelhas da Europa de pesticidas, defender os direitos à terra dos massai na Tanzânia ou "apoiar" Edward Snowden. E, dependendo de em quem você acredita, ou eles estão inventando um novo tipo de protesto do século XXI ou são um bando de desocupados com tanta probabilidade de iniciar uma revolução quanto de renunciar a seus iPhones e abandonar o Facebook.

Em apenas seis anos, a Avaaz – que significa "voz" em várias línguas – tornou-se um grupo de pressão global de destaque. É um novo tipo de ativismo que não é voltado para um tema, é conduzido por temas. São os abusos aos direitos humanos em Burma, ou a guerra civil na Síria, ou as ameaças contra a Grande Barreira de Corais ou a homofobia na Costa Rica. É o que quer que seus seguidores, guiados pela equipe da Avaaz, decidam clicar mais este mês. E se você ainda não ouviu falar na Avaaz é provavelmente apenas uma questão de tempo.

Em julho, quando fui à manifestação pela Birmânia, escrevi em meu notebook que ela tinha 23 milhões de "filiados". Em setembro, entrevistei seu fundador, o tranquilo canadense Ricken Patel, e notei na transcrição que agora tinha 26 milhões. Quando realmente me sento para escrever isto, em outubro, verifico o site e vejo que tem 27.865.177. E quando este artigo for impresso, em novembro, o número estará por volta de 30 milhões. Se é um pouco vergonhoso que 5 milhões de pessoas tenham aderido a uma causa no tempo que levei para pôr a mão no teclado, o contador no alto de sua página, Avaaz.org, mostra que no tempo que levei para escrever esta sentença mais 172 pessoas se inscreveram.

Mas ser um "filiado" da Avaaz não é como integrar o Greenpeace. Você pode ter assinado uma petição ou feito a inscrição para um e-mail. Você talvez não se lembre de ter feito nada. E talvez ainda faça parte do que se tornou um fenômeno global: a ascensão do protesto online – também conhecido como "clicativismo". E enquanto seus críticos discutem o que a Avaaz realmente conquistou – muitos dos que ela considera seus maiores sucessos foram em áreas em que outras organizações trabalham há anos –, não há dúvida de que se tornou um ator de enorme influência no cenário mundial. "Apesar de toda a sua bravata, e há muita bravata, é incrivelmente grande", disse-me um ex-funcionário da organização. "E os chefes de Estado prestam atenção, posso lhe afirmar. Existe muita disputa e ciúme por parte de organizações tradicionais como a Oxfam, mas ela levanta grandes questões sobre o futuro do ativismo liberal."

O crescimento explosivo da Avaaz é apenas uma parte do que a torna totalmente diferente das organizações beneficentes ou de campanhas tradicionais. Marque seu avanço em um gráfico e parece um foguete decolando. Mas é o produto de uma era em rede, e sua evolução foi mais parecida com a de um vídeo no YouTube do que com os primeiros anos da Anistia. O plano de negócios original – alcançar 5 milhões de seguidores em cinco anos – teve de ser abandonado depois de 18 meses. Seu crescimento é exponencial. Eles passaram de nove funcionários no primeiro ano para cem hoje (seu escritório principal fica em Nova York, mas há funcionários espalhados por toda parte). Quando pergunto em quantos países, Patel não sabe realmente.

"Todo mundo está em todo lugar e todo mundo está se movendo o tempo todo. Provavelmente temos pessoal em 30 a 40 países." E pelo que vejo no escritório em Londres, onde um computador de mesa mofa em um canto como uma relíquia de outra era, eles geralmente são jovens modernos, que realizam suas reuniões pelo Skype e provavelmente estão colaborando em um documento do Google com um colega no Brasil para uma campanha em Portugal, assim como trabalham em uma questão do Reino Unido com a pessoa sentada a seu lado.

A Avaaz é ao mesmo tempo global e globalizada, e sua abordagem é menos liberal rasgada do que pragmática cabeça-dura. Ela não lança uma campanha – para evitar a chacina das baleias do Atlântico, para libertar trabalhadores migrantes em Bahrein ou levar a paz à Palestina – porque Patel ou a equipe acreditam nela apaixonadamente (embora possam acreditar). Eles lançam uma campanha que acham que vai dar certo. É experimentada com uma amostra de membros, e então eles avaliam a reação. Patel diz que é uma maneira de garantir que os membros têm o poder definitivo, que eles são o patrão, e não ele mesmo.

E economiza tempo: a Avaaz não apoia causas sem esperança. Se ela lança uma campanha, aplica seus recursos nela – e uma parte de seu orçamento anual de 12 milhões de dólares, doados por indivíduos – e há uma boa probabilidade de que tenha um impacto. (Em 2011, quando as notícias não saíam, ela armou a oposição síria com modems e telefones com câmeras via satélite; este ano, uma campanha de e-mail e anúncios, pesquisas de opinião e abordagens pessoais ao presidente conseguiram reverter a sentença de uma jovem vítima de estupro nas Maldivas, que tinha sido condenada a ser chicoteada (embora ainda não tenham alcançado a paz na Palestina).

O que a Avaaz está fazendo é tentar desbloquear os segredos da Internet – do que faz o vídeo de um gato bonitinho caindo se tornar viral, mas não outro – e levar essas técnicas a tratar não apenas da carreira de Justin Bieber ou as vendas de discos de Lady Gaga, mas de um genocídio, estupro ou extinção de espécies potenciais.

"Somos como um laboratório de viralidade. Para cada campanha, testamos cerca de 20 versões diferentes do que vemos que as pessoas querem." Ela mexe e remexe, mudando as palavras, as imagens, o apelo à ação, e só então a libera para divulgação. O diretor de imprensa da Avaaz me mostra as versões anteriores de seu e-mail sobre a campanha de Burma. "Mudar o meme no alto, ou a fotografia, afeta maciçamente o número de cliques. Dezoito versões foram testadas. As pessoas acham que nós apenas colocamos qualquer coisa lá, mas existe uma enorme quantidade de dados sofisticados em como criamos as campanhas." E, assim como a Amazon e a Google tentam prever nosso comportamento e adaptam suas ofertas com base em nossas preferências anteriores, o mesmo faz a Avaaz. Ela usa algoritmos para detectar coisas que talvez não saibamos sobre nós mesmos.

"É uma ciência em tremenda evolução, o envolvimento na Internet", diz Patel. "Mas nós desenvolvemos uma imagem de alguém a partir de seus envolvimentos anteriores conosco. Por exemplo, podemos ver que um certo conjunto de pessoas, com base em seu comportamento anterior, poderia se interessar por começar uma campanha, e outro conjunto não, mas pode estar interessado em subscrever alguma coisa. Nós podemos adaptá-la ao gosto do indivíduo."

Tudo é viral hoje, diz Patel, "desde as crises financeiras às epidemias de saúde e às ideias". E aprender as lições disso e como atrair a atenção de algumas das pessoas com maior déficit de atenção no planeta – jovens com equipamentos eletrônicos – foi o golpe de mestre da Avaaz.

Mas para alguns é demais. É exatamente o tipo de "ativismo preguiçoso" que causa desespero nos críticos do chamado "tecno-utopismo". Por que Malcolm Gladwell afirmou que "a revolução não será tuitada" em um artigo altamente discutido na revista New Yorker em que ele declarou: "Cinquenta anos depois de um dos mais extraordinários episódios de rebelião social da história norte-americana, parecemos ter esquecido o que é o ativismo". Evgeny Morozov colocou a coisa de maneira ainda mais clara em seu último livro, To Save Everything Click Here [Para salvar tudo, clique aqui]. O subtítulo? "A loucura do solucionismo tecnológico".

É uma loucura? "Curtir" uma página no Facebook não vai salvar o mundo. Mas na Grã-Bretanha há cinco vezes mais pessoas associadas à Avaaz do que membros do Partido Trabalhista. E 30 mil pessoas doam dinheiro para ela todos os meses. Dinheiro que foi gasto em anúncios e atos, e no que Patel alega serem "alguns dos melhores e mais tarimbados defensores no setor público hoje. Assessores do presidente Obama, os presidentes Lula e Dilma e o primeiro-ministro do Japão. Há organizações de petições online bastante simplistas por aí, especialmente sites comerciais que têm experiência zero e compreensão da política zero, mas não somos nós".

Os truques visuais – como as caricaturas em Papier-mâché de Thein Sein e David Cameron – são uma marca da Avaaz. Assim como sua ideia do que Patel chama de "Toc". O quê? "Uma teoria da mudança [nas iniciais em inglês]. Como você chega de A a B com credibilidade? Como alguém clicar ou dar um telefonema para um líder realmente vai mudar o mundo? Se for fraco, as pessoas não se interessam, não se envolvem. Nós sempre temos uma teoria da mudança muito bem desenvolvida."

E tudo é quantificado. Esta é a ciência da construção de movimento. "Temos até uma fórmula para escrever nossos e-mails. Sempre estamos ligados ao imediatismo. Dizemos 'daqui a três dias'. Então as pessoas podem dizer: 'Está bem, preciso fazer isso nos próximos três dias'. E então descrevemos uma 'crisetunidade'."

É outro termo próprio da Avaaz. "Mas acho que originalmente o pegamos dos Simpsons", diz Patel. "É uma mistura de crise com oportunidade. Estamos neste momento extraordinário na história. Temos o poder de eliminar nossa espécie. Mas ao mesmo tempo fizemos um tremendo progresso nos últimos 30 anos. Reduzimos mais que pela metade a pobreza global. Aumentamos radicalmente o status das mulheres. Existem motivos tremendos para esperança e otimismo."

Existe algo muito avaaziano sobre a crisetunidade, venho a pensar, em que ela emprestou alguma coisa escorregadia e inteligente da cultura popular e a remanejou para algo que costumava ser chamado de o Bem Maior. E então lhe acrescentou uma grossa dose de sinceridade.

Patel é sincero, mas não do tipo "ei cara vamos salvar o planeta". Ou do "eu sinto a dor das pessoas" de um político que quer se reeleger. Ele é pensativo, reflexivo e tem um currículo impressionante – trabalhou como analista de conflitos para organizações como a ONU e a Fundação Gates em lugares como Libéria e Afeganistão. E não é um estudante de olhos arregalados. Entretanto, ele quer mudar o mundo e acredita que pode.

Irritar-se não é uma coisa muito típica de Ricken Patel, mas ele quase o faz quando lhe pergunto se é um otimista por natureza. "Eu realmente não acho que sou! Já fiz essa pergunta a mim mesmo. Não tenho respeito pelo ativismo ingênuo. Nós assumimos posições firmes. Quando eu trabalhava como analista de conflito, recomendava a ação militar quando achava que era adequada. Honestamente, acho que tenho uma visão muito clara e que o fatalismo que vejo no mundo é preguiçoso e sem base. As pessoas assumem que o cinismo encerra uma espécie de perícia, e eu nunca acreditei nisso."

Foram os ideais elevados e a natureza não burocrática da Avaaz que atraíram para ela muitos funcionários cansados das restrições de trabalhar para grandes agências de ajuda tradicionais. "Muitas pessoas que trabalham lá a acham incrivelmente libertadora”, disse um ex-avaazista. "Você poderia dizer 'Isto é uma confusão' na segunda-feira e fazer algo a respeito na quarta." Mas "existe uma espécie de culto sobre ela. Há muitos homens trabalhando lá que pensam que a tecnologia vai salvar o mundo".

Ela também já teve sua parcela de críticas. Participou ativamente do contrabando de jornalistas para dentro e fora da Síria, mas foi atacada por exagerar seu papel na ajuda ao fotógrafo Paul Conroy (que viajava com Marie Colvin, do Sunday Times, quando ela foi morta), para que ele escapasse. Outros acreditam que há apenas uma quantidade limitada de empatia para suas ações, e que seu sucesso custou a queda de receitas das ONGs tradicionais.

Provavelmente não é coincidência o fato de a Avaaz ser uma organização global com ambições globais. Patel foi criado na zona rural do Canadá, perto de Edmonton, "ou Deadmonton, como deveria se chamar", filho de pai indiano-queniano e de mãe inglesa de ascendência judaica-russa, e foi à escola em uma reserva indígena. E ele me diz que foi "uma criança precoce". Quem foram seus heróis?, pergunto. Ele não hesita: "Dag Hammarskjöld". Dag quem?

"Foi o segundo secretário-geral da ONU. Li seu diário particular, e simplesmente acho que é uma figura muito sincera, de espírito público, que enfrentou um tempo difícil."

Nesta era da personalidade, eu esperaria outra coisa de Patel, ou, Ricken, como ele é chamado por sua equipe e seus seguidores. A revista People o incluiu em um artigo sobre os mais "quentes humanitários" do mundo. E quando a Economist o colocou na capa de sua revista Intelligent Life, seu queixo com barba curta definido por uma iluminação climática, havia nele mais que um toque de sonho hollywoodiano. Até Al Gore, o ativista dos ativistas, elogiou a Avaaz como "inspiradora". Quando entrevisto uma ex-avaazista, ela me pergunta: "Ele continua solteiro? Quando trabalhei para ele, devia ser o homem mais perseguido de Nova York. Acabo de ler o último livro de Dave Egger, no qual há um personagem que é um deus-nerd utópico que tenta salvar o mundo, e é basicamente Ricken".

Mas, uma vez um canadense tranquilo, ao que parece, sempre um canadense tranquilo, mesmo que ele tenha seguido a mesma estrada para a vida pública que pessoas como Ed Balls e Yvette Cooper – fez filosofia, política e economia em Oxford (onde organizou um protesto universitário contra as mensalidades) e depois a Escola de Governança de Harvard (onde foi um dos líderes de uma campanha por salários dignos). Porque, com toda a sua conversa sobre "viagens", o fato de ele pensar que os direitos das mulheres mudaram o mundo e de acreditar que seu senso de dever público é porque sua própria mãe lhe deu "uma quantidade tremenda de amor, uma enxurrada de amor incondicional", ele é uma espécie de animal raro: um homem na vida pública que não tem medo de emoções. No entanto, sua conquista mais marcante para a Avaaz não foi salvar as baleias, bebês ou vítimas de estupro, foi denunciar Rupert Murdoch.

A Avaaz liderou uma campanha contra a aquisição da BSkyB por ele, e durante o Inquérito Leveson e-mails usados em julgamento mostraram que "a preocupação básica de Jeremy Hunt era a campanha da Avaaz. Sabíamos que ele tinha medo da análise judicial. Então contratamos advogados de alto nível e lhe prometemos uma análise judicial. Isso o tornou mais cuidadoso, então fizemos nossos integrantes enviarem 35 mil declarações legalmente admissíveis. Ele teve de contratar uma equipe para examiná-las. Nós sabíamos que o escândalo [de grampo telefônico] viria muito antes de ele ter surgido, por isso nossa estratégia foi retardar a decisão de Hunt até que ele surgisse. E isso se desenrolou maravilhosamente. Não acho que acabamos vencendo Murdoch. Ele está em uma posição muito boa agora. Mas aquilo teria expandido seu império em 50%, e me orgulho de termos ajudado a detê-lo."

Você esperava uma grande reportagem de primeira página contra você? "Ainda estou esperando. Acho que Murdoch virá... Todo mundo nos disse para não fazê-lo. Eles vão linchar vocês. É suicídio." Patel encolhe os ombros. Talvez o ativismo preguiçoso tenha suas vantagens. Talvez a Avaaz e seus filiados estejam menos constrangidos, menos temerosos. Talvez você possa salvar as baleias e Edward Snowden e levar a paz à Palestina também. E no tempo que você levou para ler este artigo outras 500 pessoas aproximadamente aderiram à Avaaz. Para salvar o mundo clique aqui.

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