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Ciência anêmica

por Thomaz Wood Jr. publicado 14/12/2010 11h14, última modificação 14/12/2010 11h14
O pesquisador John Iannidis tem dedicado sua carreita a demonstrar a fragilidade da pesquisa médica. Suas conclusões deveriam servir de inspiração para outros campos do conhecimento

A mídia de massa adora a ciência (e a pseudociência). Em uma semana, revela a receita para retardar a velhice; na seguinte, mostra o poder da dieta A ou B para evitar doenças cardíacas; depois, demonstra os inegáveis impactos positivos do consumo da raiz X ou do cogumelo Y; e na sequência prova que a exposição ao sol provoca câncer ou que a falta de exposição ao sol provoca câncer.
O apetite dos leitores por novidades parece ser insaciável. A cada nova moda, o ciclo se repete: comprar, consumir e descartar. A capacidade dos jornalistas para fornecer novidades parece ser inesgotável. A circulação das revistas, a venda das cotas de propaganda e seus empregos dependem de sua competência de manter um permanente estado de frenesi novidadeiro. Em suma, trata-se de um sistema orientado pela produção, que além de mover a máquina da mídia, faz girar a indústria do bem-estar, com seus remédios, vitaminas, tratamentos, técnicas e especialistas. Mas como se sabe, nem tudo que reluz é ouro. Aliás, neste caso, quase nada do que reluz é ouro.
A bem da verdade, os jornalistas são apenas os disseminadores das novidades, meros intermediários. Na origem do processo está uma respeitada instituição chamada ciência ou, especificamente, a pesquisa médica, cujo nobre objetivo é descobrir as causas e curas para os males do homem.
Ocorre que a pesquisa médica é também uma grande instituição e, como ocorre com instituições em outras áreas de conhecimento, está hoje organizada na forma de um aparato bilionário, que compreende centros de pesquisa, estruturas de ensino, revistas científicas, eventos e milhares de pesquisadores. Pois essa instituição segue uma lógica própria. Para sobreviver e progredir em suas carreiras, os pesquisadores devem gerar trabalhos de impacto e publicá-los. É a famosa norma publish or perish (publique ou morra). O mesmo vale para os centros de pesquisa. Os mais famosos atraem doações e financiamentos. Assim, estabelece-se, também na origem do processo, um culto de novidades e de ideias de grande impacto. Até aqui, tudo bem. O progresso humano depende de nossa capacidade de aumentar o conhecimento e inovar. No entanto, também na pesquisa médica, nem tudo que reluz é ouro.
John Ioannidis é um pesquisador conhecido e respeitado na área. Sua especialidade é a meta-análise: o estudo de outros estudos. Ele tem dedicado sua carreira a realizar trabalhos científicos para demonstrar as inconsistências e a fragilidade da pesquisa médica. Em matéria recente, veiculada na revista The Atlantic, David H. Freedman traça seu perfil e conta suas desconcertantes descobertas. Ioannidis revelou que o número de erros que ocorrem na pesquisa médica é impressionante: desde a formulação dos objetivos da investigação e a escolha do método empregado até a forma de apresentação de resultados e a publicação de artigos.
Em um de seus mais célebres estudos, o pesquisador analisou 49 artigos publicados nas mais respeitadas revistas científicas, reconhecidos pela comunidade acadêmica como trabalhos de excelência. Entre esses, 34 tiveram seus resultados revistos e nada menos do que 14 (41%) foram considerados errados ou muito exagerados. Se os melhores artigos apresentam tal taxa de erro, imaginemos o resto!
O grande problema é que as conclusões erradas chegam aos médicos, que passam a fazer prescrições erradas. As conclusões erradas chegam também à mídia, que induz mudanças de hábitos entre seus ingênuos- leitores. Essas mudanças, na melhor das hipóteses, não causam efeito algum e, no pior caso, geram efeitos danosos para a saúde dos incautos. Pior ainda: frequentemente, premissas erradas se estabelecem como práticas correntes e levam anos para ser alteradas. Não faltam casos de remédios que foram aprovados em testes clínicos, passaram a ser largamente prescritos, para depois serem retirados do mercado.
Apesar dos resultados de suas pesquisas, Ioannidis continua acreditando que a ciência é uma atividade nobre. Mas é também uma atividade de “baixa eficiência” e não se pode esperar que os cientistas estejam sempre certos. É com erros e acertos que a ciência progride e, na verdade, apenas uma pequena parte das pesquisas realmente levará a impactos positivos sobre a qualidade de vida.
As conclusões de Ioannidis deveriam servir de inspiração e alerta para outros campos científicos, especialmente para a Administração de Empresas, que não se cansa de inventar e disseminar panaceias para todos os males, reais ou imaginários. Mais rigor, menos ambição e mais humildade ajudariam o campo a avançar.