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Tecnologia

Tão Gomes

Tão Gomes

10.10.2011 15:04

Celulares atacam a pobreza

A febre dos telefones celulares pegou no Brasil de forma definitiva.

Temos mais celulares ativos do que habitantes. Para alguns, é um mau sinal. Indicaria desperdício e incapacidade do brasileiro de priorizar suas economias. Deveriamos, segundo esses críticos, dar de comer melhor às nossas crianças, ou ensina-las hábitos de higiene e melhorar sua educação. Em vez, disso, um grande número de pessoas opta por investir seus poucos reais na compra de um celular.

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Trata-se de uma análise apressada, equivocada. A posse de um celular pode indicar  exatamente a preocupação com as nossas crianças, a procura de melhores condições de vida para quem está no limite da linha de pobreza. É um avanço básico para o indivíduo sair da condição de marginal, no sentido amplo, em buca da cidadania.

Recentemente, o renomado economista Jeffrey Sachs, autor do livro O fim da pobreza, escreveu que o telefone celular é a tecnologia mais transformadora para o desenvolvimento. Sachs é diretor do projeto Aldeias do Milênio, da ONU, que selecionou 14 povoações da África subsahariana empobrecidas pela falta de água e vitimas de seguidas epidemias de malária. Em 2005, Sachs visitou essas aldeias e ficou impressionado com as precárias condições de vida da populacão. Voltou lá recentemente e ficou impressionado com as modificações que encontrou.

Jeffrey Sachs registrou a presença de telefones celulares em cerca de 30% das casas das aldeias. Atribuiu o que viu de progresso à existência desses aparelhos. Suas análises foram corroboradas por especialistas. O acesso à telefonia móvel foi o principal agente dessa evolução. Especialmente nas questões de saúde. Os moradores das aldeias passaram a ligar para os médicos do programa, solicitando sua presença, ou ouvindo recomendações. As populações locais deixaram de viver em completo isolamento. A implantação de centrais de recarga automática, é claro, foi fundamental, como lembrou Amanda Gardner, diretora do programa Business Call, também ligado à ONU. Hoje, segundo Amanda, você pode estar numa aldeia rural de Ruanda, procurar uma central de recarga, e reabastecer seu celular via telefone.

Entre 2005 e 2010, o uso de celulares triplicou nos países em desenvolvimento, atingindo quase 4 bilhões de usuários, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT). Em nenhum lugar do planeta esse crescimento foi tão rápido quanto na África, que viu o número de celulares aumentar em 400% no período. Um estudo de 2006 da Universidade de Michigan constatou que cada 10% de aumento na penetração da telefonía celular faz crescer a economía local em 0.6%.

Michael Joseph, ex-diretor de um provedor de telecomunicaciones no Quênia – que passou de 17,000 usuarios em 2000, para a mais de 18 milhões em 2010 – estima que é provável que haja mais cobertura de celulares no Quênia do que em várias regiões da Europa. O crescimento do  PIB no Quênia a metade do que foi nos 10 anos anteriores não fosse o celular, comentou Joseph com a CNN.

Olga Morawczynski, que passou  18 meses no Kenia estudando o impacto dos serviços de telefonia movel no país, diz que, graças ao celular algumas mulheres chegaram a comprar alisadores de cabelo, um produto tipicamente urbano.

Jeffrey Sachs não tem medo de chamar de “gênio“ o sujeito que inventou o sistema de celular pré-pago. Isso teria possibilitado o acesso dos mais pobres independente da ação dos governos e ao mesmo tempo abriu caminho para a entrada das empresas comerciais.

Afinal as pessoas, mesmo pobres, tem direito aos seus sonhos de consumo.

taogomes

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Sua opinião

  1. Renato disse:
    O problema é como será orientado esse pessoal no manuseio desses aparelhos quando forem descartados. Muitos aqui no Brasil simplesmente jogam na lixeira. É preciso uma política de orientação de manuseio dessa tecnologia.
  2. NonSek disse:
    Uh-huuu...! Vamos mandar algumas toneladas de celulares para a Somália e resolver os problemas lá. Com um salzinho e vinagre talvez até sejam nutritivos. Me parece estranho que celulares sejam a "causa", não um "sintoma" de alguma mudança (embora a distinção entre causa e efeito nem sempre seja tão marcada). Se o cara da aldeia pôde ligar para o doutor, é porque tinha um doutor lá para atender, né?
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