Você está aqui: Página Inicial / Tecnologia / A Hidra online na batalha pela WikiLeaks

Tecnologia

Tecnologia

A Hidra online na batalha pela WikiLeaks

por Guilherme Felitti — publicado 10/03/2008 16h15, última modificação 20/09/2010 16h16
Conhece o WikiLeaks? Confesso que, antes da ação movida pelo banco Julius Baer Bank que culminou no congelamento do seu endereço, nunca havia ouvido falar no serviço. Foi o próprio banco que aproximou o serviço de mim e de outros milhões de usuários.

Conhece o WikiLeaks? Confesso que, antes da ação movida pelo banco Julius Baer Bank que culminou no congelamento do seu endereço, nunca havia ouvido falar no serviço. Foi o próprio banco que aproximou o serviço de mim e de outros milhões de usuários.

Basicamente, a WikiLeaks usa a plataforma de compartilhamento de conteúdo Wiki, empregada com amplo sucesso para tornar a Wikipedia uma enciclopédia pública e coletiva, para que documentos confidenciais de empresas ou governos, principalmente os que apontem algum tipo de irregularidade, sejam "vazados" para a internet.

Na Wikipedia, a comunidade controla a qualidade dos verbetes comparando diferentes edições de usuários e, em muitos casos, revertendo alterações que culminem em um verbete menos preciso. A graça da WikiLeaks é exatamente o contrário – o serviço não guarda registro algum do responsável por vazar os documentos, o que faz com que o anonimato confira um tom de denúncia à publicação.

É possível navegar pelo , segundo o próprio serviço, pelas biografias dos envolvidos, os perfis de instituições envolvidas em escândalos ou pelos países de origem –o Brasil está lá, minguado de denúncias.

Documentos confidenciais que ligam o Julius Baer Bank a práticas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas em contas nas Ilhas Cayman em nome de seus clientes foram vazados, possivelmente por alguém funcionário do banco, para a WikiLeaks, o que motivou o banco a acionar a Justiça dos Estados Unidos pedindo a interdição do site - qualquer semelhança com o caso YouTube-Cicarelli no Brasil não é mera coincidência.

Na primeira decisão, veio a explosão de popularidade. Se pretendia tirar os documentos do ar e limpar a rede de qualquer vestígio das provas de corrupção, o Julius Baer Bank se viu na situação exatamente oposta. Assim que a decisão da Justiça exigiu que o domínio Wikileaks.org fosse congelado e o nome de seus responsáveis fossem revelados à Justiça, a WikiLeaks começou a experimentar uma explosão de procura motivado pela atenção da mídia que o caso ganhou.

A primeira grande conseqüência foi quase simultânea à ordem judicial. Usuários pelo mundo remontaram a Wikileaks, agora fora do seu domínio original, em versões idênticas às originais rodando em dezenas de servidores – naquele ponto, o serviço já tinha assumido seu lado Hidra.

Só que o Julius Baer Bank não é nem um Hércules. A segunda grande conseqüência veio da mesma corte responsável pela condenação original. Ao retirar todas as imposições judiciais duas semanas mais tarde em um discurso desconcertantemente preciso, o juiz Jeffrey White classificou suas próprias ordens como sem sentido e admitiu que, em razão delas, percebeu-se um "efeito exatamente contrário do pretendido".O PDF com a decisão na íntegra pode ser baixado no Citizen Media Law Project.

Ao tentar impedir que um grupo restrito de usuários (os que já conheciam e acessavam a WikiLeaks) colocassem as mãos nos documentos confidenciais, o banco atraiu a atenção da mídia tradicional e da blogosfera, dando ao serviço de vazamento de dados uma inesperada visibilidade, algo que uma simples consulta ao Google Newso gráfico do serviço de tráfego online Alexa indicam com clareza - perceba o pico de acesso da segunda semana de feveiro em diante.

A bandeira branca subiu três dias após a segunda decisão, que devolveu o domínio e permitiu que a WikiLeaks voltasse a funcionar normalmente, com o Julius Baer Bank desistindo do processo – uma imagem de arquivo sem muito sentido comemora o fim dos problemas judiciais na capa do WikiLeaks, com engravatados levantado os braços em êxtase.

A incapacidade de alguns grupos, sejam eles empresas ou governos, de entender que a internet não é passível de um controle centralizado, como o que uma decisão judicial pretende, decorrem em pataqüadas como a que se envolveu o Julius Baer Group. Ninguém pede a um banco, envolvido até o pescoço em dados confidenciais e informações altamente sigilosas sobre transações financeiras, que abrace a transparência exigida pelo poder da mobilização anônima da internet.

É preciso, porém, ter o mínimo de conhecimento sobre como um meio funciona antes de sair, com a truculência de um touro, contra quem vive ali. Pelos documentos do banco vazados anonimamente, possivelmente os mais acessados da WikiLeaks após o escândalo, independente de onde ela esteja hospedada, dinheiro não vai faltar a instituição para a contratação de alguns consultores.

O Julius Baer Group resolveu jogar pedras no vespeiro e não teve pernas para conseguir correr. Agora, é lembrar-se do caso enquanto se arranca os espinhos do corpo.