Você está aqui: Página Inicial / Tecnologia / 'A bruxa está morta'

Tecnologia

Yahoo

'A bruxa está morta'

por Gabriel Bonis publicado 08/09/2011 12h08, última modificação 08/09/2011 21h30
Demissão de executiva do Yahoo escancara crise na empresa que revolucionou a internet há 20 anos e parou no tempo

“Ding, dong. A bruxa está morta”, postou no Twitter o presidente de Aplicações e Comércio da AOL (América On-Line), Brad Garlinghouse, após a demissão da presidente-executiva do Yahoo, Carol Bartz, de 63 anos, na noite de terça-feira 6, pelo conselho da empresa.

Definida pelo diário americano Wall Street Journal como dona de uma linguagem maliciosa, rude e estilo de confronto, Bartz enviou um e-mail “amável” aos seus antigos funcionários dizendo que havia sido demitida por telefone. “Foi um prazer trabalhar com todos vocês e desejo-lhes apenas o melhor para o futuro”, escreveu a executiva, substituída interinamente pelo diretor financeiro Timothy Morse, de 42 anos.

A gestão de Bartz coincidiu com um momento de crise vivido pela gigante da internet e suas escolhas para solucionar estancar as perdas parecem não ter surtido o efeito desejado.

A executiva ficou marcada por uma política de corte de gastos por meio de 1,2 mil demissões nos EUA e o debelamento do patrimônio da empresa, encerrando diversos produtos como o buscador AltaVista, Delicious e Yahoo Buzz. A justificativa de investir na melhora da posição da empresa no mercado e no crescimento, oferecendo produtos diferenciados fazia parte da pressão interna para elevar as receitas, que atingiram 1,6 bilhão de dólares no terceiro trimestre de 2010, apenas 2% superior ao mesmo período de 2009.

Além disso, quando Bartz assumiu a empresa em 2009, o Yahoo registrava um prejuízo de 303 milhões de dólares no último trimestre de 2008, contra um lucro de 206 milhões de dólares no mesmo período do ano anterior.

As estratégias falharam e a companhia, responsável por revolucionar a internet há duas décadas, não conseguiu manter o nível constante de inovação exigido no setor, sendo superada pelos rivais Google e Facebook em conteúdo e publicidade.

Aliás, as vendas publicitárias do Yahoo, carro chefe da empresa, registram perda de 60% no mercado sob o comando de Bartz. Outro fracasso que teria contribuído para a queda da única chefe-executiva de uma grande empresa do Vale do Silício - região da Califórnia a concentrar as sedes das maiores empresas de tecnologia do mundo - foi a parceria no setor de buscadores com a Microsoft para enfrentar a hegemônica Google.

Em 2009, o Yahoo concordou em usar em seus sites o buscador Bing, detentor de 8,4% do mercado americano de buscas, contra 19,6% do Yahoo e 65% do Google. Em troca, administraria as vendas em publicidade on-line, com estimados 500 milhões de dólares anuais acrescentados na receita e um corte de 200 milhões de dólares em gastos. Porém, até o momento a parceria não rendeu os resultados esperados por ambas as partes.

No comunicado de demissão, o presidente do conselho do Yahoo, Roy Bostock, agradeceu o trabalho de Bartz e afirmou que a empresa “enxerga diversas oportunidades de crescimento, nas quais pode capitalizar” e que possui uma "equipe talentosa"  e "espantosos recursos"  para levar a empresa de volta ao topo. Algo difícil de acreditar, quando o cenário de perdas da empresa mostra-se pertubardor.

A demissão da executiva sem haver sequer um nome específico para substituí-la também pode indicar que não haveria “recuperação", tanto pela falta de profissionais disponíveis no mercado para aceitar comandar uma empresa em crise, quanto pelo esforço a ser dispendido para uma reestruturação.

Neste sentido, a escolha de Timothy Morse, na empresa desde 2009, para o lugar de Bartz poderia representar a preparação para a venda da empresa. Além disso, seria também um reconhecimento aos méritos do diretor finaceiro, que conseguiu fixar os preços de custos estruturais da companhia, aumentando a margem líquida da empresa em 19,3% até o fim de junho de 2011. No entanto, uma reestruturação da empresa exigiria um profissional mais especializado.

Justamente nesse cenário, o WSJ aventou que o conselho da empresa estuda colocar o Yahoo à venda. Embora essa não seja a intenção de seu cofundador, Jerry Yang, dono de apenas 3.6% das ações, mas ainda no comando ao lado de David Filo.

A demissão fez as ações do Yahoo subirem mais de 6% na Bolsa de Valores. Contudo, a empresa possui valor atual estimado em cerca de 14,5 bilhões de dólares, valor elevado para eventuais compradores.

Vale lembrar que em 2008, o Yahoo rejeitou uma proposta de compra de 47,5 bilhões de dólares feita pela Microsoft, por julgá-la inadequada. À época, a companhia alegou que a proposta subestimava a “marca global” da empresa e seus 500 milhões de usuários de audiência, além da plataforma de publicidade on-line.

Porém, grande parte dos valores do Yahoo está ligada aos mercados asiáticos, com 40% de ações da firma chinesa de e-commerce Alibaba e 35% do Yahoo Japão. Agora, em meio às novas turbulências e perdas no mercado publicitário, o conselho pode ter que se contentar com um valor de venda mais de três vezes inferior ao oferecido há três anos.