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Análise: Gianni Carta

“Selfies” e a era de Narciso

por Gianni Carta publicado 25/11/2013 16h26, última modificação 26/11/2013 13h54
É o termo deste ano em que milhões de autorretratos feitos com celulares foram postados na rede. Mas o homem apaixonado por si postaria um selfie? Por Gianni Carta
Reprodução / Instagram
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Naldo em uma "selfie" dupla postada em sua conta no Instagram

Somos todos animais sociais e precisamos ser “liked” pelos nossos “amigos”.

E somos obcecados pela nossa aparência.

Para resolver essas questões nada melhor do que um “selfie”, o termo mais popular deste ano de 2013, segundo os Oxford Dictionaries. Cerca de 17 mil pessoas usaram a nova palavra.

É claro, todo mundo sabe fazer um autorretrato com um smartphone: basta segurá-lo e afastá-lo com o braço, apontá-lo para si mesmo e clicar.

Facilita ter um IPhone4 ou um Samsung Galazy S4. Ambos oferecem o recurso frontal, isto é, a possibilidade de dirigir o foco diretamente para si mesmo sem fazer manobras com o smartphone.

Em busca da aprovação de amigos – e quiçá atrás de celebridade – as pessoas postam seus selfies no Facebook, Twitter ou Instagram.

No Facebook, de fato, internautas postam seus selfies com frequência. Vemos por exemplo uma moça que aparece à beira de uma piscina com um fantástico tanquinho. Até Justin Bieber ficaria com inveja.

Depois a vemos em outra ocasião também bastante sexy, desta feita com uma saia em uma festa.

Outros postam seus selfies que variam dependendo da fase: a intelectual – com óculos e lendo; a esportiva – com uma raquete em uma quadra de tênis; a fase relaxada – em uma praia no Caribe degustando um prato de frutos do mar. E por aí vai.

Esse pessoal viciado em selfies é camaleão. E, em geral, é também bastante superficial.

Quando são adolescentes com egos do tamanho do Canadá é mais compreensível, embora seus pais devessem ensiná-los que tudo tem um limite.

Mas e quando são mais velhos, e argumentam que só querem dividir suas vidas com os “amigos” (mais sobre os “amigos” abaixo), seus objetivos ao postar selfies são mais questionáveis.

Independentemente da faixa etária do autor do selfie, a parte mais difícil é o veredicto.

Uma avalanche de likes fará o autor do selfie se sentir querido, bonito, bacana, cool (anglicismos são bem-vindos pelos adeptos do selfie). Em suma, sentem que fazem parte da comunidade de uma determinada rede social.

No entanto, uma escassez total de likes será o equivalente a uma punhalada nas costas.

A pessoa em questão sentirá que não tem amigos. Ou aqueles presentes na sua conta de rede social não gostam realmente dele. Ou será que ele não deveria ter posado de maiô para mostrar a pele bronzeada e o tanquinho na praia?

O autorretrato remonta ao início da civilização. O homem sempre tentou se autorretratar em muros de pedra e mais tarde em quadros. Com o advento da fotografia, na primeira metade do século XIX, várias pessoas fizeram autorretratos.

Depois máquinas fotográficas passaram a oferecer o recurso self-timer, que permitia ao fotógrafo ser fotografado. Ele acionava a máquina e corria por vezes para se inserir em um grupo já preparado para a fotografia.

A chegada da máquina compacta digital mudou o quadro. E o smartphone ainda mais.

Com as novas tecnologias somadas às redes sociais ganhou vida o selfie.

As pessoas, especialmente as celebridades, acham que têm controle sobre as fotos, pois podem deletar aquelas não apreciadas. Não é bem assim. Podem controlar o que postam, mas as fotos não são vistas somente pelos “amigos”.

Uma vez na internet, esse campo selvagem, vai saber como essas fotos serão utilizadas? Atenção deve ser dada aos futuros patrões.

Em tempo: Narciso não estava interessado em divulgar sua imagem. Apaixonou-se por ele mesmo e não estava preocupado com o parecer dos outros.

Há duas versões para o fim desse personagem mitológico greco-romano. A primeira é que após enamorar-se de sua aparência em uma fonte virou uma flor que leva seu nome. Segunda versão: enamorado com sua beleza deixou de comer e beber e morreu. Hoje, no inferno, continua a se contemplar nas águas do Estige.

Narciso gostava tanto de si mesmo que não precisaria ter uma conta no Twitter ou no Facebook, mesmo no inferno. Está enamorado de si mesmo e não precisa provar nada a ninguém.

De certa forma, Narciso é menos vaidoso do que aqueles a postar seus selfies nas redes sociais.

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