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Vamos falar mais sobre o aquecimento global?

por Reinaldo Canto publicado 14/09/2016 09h23, última modificação 14/09/2016 09h24
Estados Unidos, China e Brasil ratificam o Acordo de Paris, mas sociedade segue ignorando os efeitos e consequências mundiais das mudanças climáticas
Beto Barata/PR/Fotos Públicas
O presidente Michel Temer em cerimônia de ratificação do Acordo de Paris

Realizada no mesmo dia da cassação de Cunha, ratificação do Acordo de Paris por Michel Temer perdeu espaço nos noticiários

O presidente Michel Temer assinou na terça-feira 12 o documento que ratifica o Acordo de Paris, responsável por estabelecer as metas de redução das emissões dos chamados gases de efeito estufa (GEEs) que o país se comprometeu a atingir.

A chancela brasileira ocorreu semanas depois que os Estados Unidos e a China, os dois maiores emissores responsáveis pelo agravamento do aquecimento global no planeta, também assinassem seus compromissos.

Tratam-se de sinais positivos que deverão redundar em ações concretas para reduzirmos o galopante aumento na temperatura do planeta? Talvez sim, mas com algumas ressalvas.

Ao participar da cerimônia de assinatura do Brasil, o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, afirmou que o ato representou um primeiro e importante passo. Por outro lado, alertou que é necessária uma ação efetiva, capaz de mudar os rumos das políticas públicas brasileiras em relação à agenda do clima.

É neste ponto que residem os maiores desafios não só para o Brasil, mas em qualquer outra parte do mundo, para que todos participem efetivamente desses esforços, já que as consequências das alterações climáticas afetam a todos, indistintamente.

Se na COP 21 havia de seus participantes (majoritariamente representantes de governos, empresas, cientistas e ONGs) uma unânime compreensão sobre os malefícios do aquecimento global, não é menos verdade que, para os cidadãos residentes em todos esses países e continentes, o tema ainda é visto quase como ficção científica.

Não que as pessoas deixem de sentir seus efeitos no dia a dia. Muitos até afirmam em suas redes de relacionamento que secas, enchentes e ondas de calor, entre outros, tenham em sua origem as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global.

Mas de fato, o que as pessoas estão dispostas a fazer, apoiar, interagir a esse respeito? Em geral o que se vê é: absolutamente nada.

Ainda que, por um lado, falte exatamente clareza sobre como atuar numa questão tão complexa e universal, não é menos verdade a ausência ensurdecedora de informações mais palatáveis que envolvam definitivamente as pessoas para a importância e consequências do aquecimento global.

Parte da responsabilidade é de nós, jornalistas, ao não “chamar” as pessoas para uma maior discussão sobre o tema. Infelizmente, no mesmo dia que Temer assinou o compromisso brasileiro, a principal notícia foi a cassação do deputado Eduardo Cunha. Não há o que dizer sobre o destaque desse fato, mas, ao mesmo tempo, será possível que não exista espaço para também enfatizar a importância do ato climático?

O processo eleitoral ao longo do tempo e a indigência de seus candidatos tem representado outro fator de distanciamento dos cidadãos para estabelecer um debate construtivo com a sociedade. Seria importante que tivéssemos mais autoridades públicas no âmbito municipal, por exemplo, capazes de enxergar um pouco mais além do que asfaltamento de ruas ou a construção de um posto de saúde.

Bom lembrar que as previsões sobre o aquecimento do planeta tem superado as expectativas até dos mais pessimistas. Recentemente, foi divulgado que julho foi o mês mais quente já registrado desde que esse tipo de análise começou a ser feita, há 137 anos. Trata-se da décima quinta alta consecutiva de aumento constante da temperatura média global.

Com frequência, somos brindados com informações de pesquisadores e cientistas sobre os efeitos danosos do aquecimento para a agricultura, as florestas e a biodiversidade – e suas perdas catastróficas e irreversíveis.

Mesmo que Brasil, Estados Unidos e China tenham dado esse importante sinal para a humanidade, sem o envolvimento de todos dificilmente iremos alcançar os resultados almejados. Então, fica aí o convite: vamos falar mais sobre o clima?