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Novo blog

Um teimoso defensor da vida amazônica

por Kelly Cristina Spinelli — publicado 05/06/2013 16h32
Um dos principais representantes do jornalismo brasileiro em defesa das matas e de seus povos, Felipe Milanez estreia blog na CartaCapital
Felipe Milanez

Felipe Milanez estreia blog sobre a floresta amazônica

“Outra pauta de índio?”, questionavam os editores de jornais e revistas ao ouvir as sugestões de Felipe Milanez, 35, o novo blogueiro de meio ambiente e questões sociais da CartaCapital.  Ele topava com “o desinteresse ligado ao racismo e à falta de conhecimento da região”, invariável mesmo que tivesse ótimos personagens, como índios sobreviventes de massacres, ou que suas sugestões fossem fruto de imersões em zonas de conflito, desviando de ameaças e intimidações de madeireiros.

Teimando, ele publicou uma série de seus relatos, muitos deles com sucesso e repercussão. Sombras da selva, na NationalGeopraghic, foi finalista do prêmio Abril 2007. Contava a história de dois índios sobreviventes de um genocídio no Mato Grosso. A vida em Colniza, cidade então eleita a mais violenta do Brasil, foi assunto de outra reportagem – literária, em primeira pessoa - para a Rolling Stone.

O casal ambientalista José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva foi assassinado meses depois, em 24 de maio de 2011. Eles batalhavam contra o extrativismo ilegal na região e eram jurados de morte pelos madeireiros com quem se negavam a negociar. Uma reportagem de Milanez sobre as ameaças sobridas por eles foi lida na Câmara dos Deputados por Sarney Filho, do PV do Maranhão, quando estava para ser votado o novo Código Florestal. Sarney Filho foi vaiado pelos ruralistas e o Código Florestal, ao qual Milanez só se refere entre aspas - á que “é um código sobre agropecuária e não florestas” - foi aprovado. O caso foi retratado no documentário ToxicAmazon, que rendeu a Milanez uma indicação ao prêmio da ONU de "Herói da Floresta".

Quem trabalha pela defesa da floresta e de seus povos encontra tantos obstáculos que é mais difícil entender os que continuam nessa briga do que os que desistem. Há médicos que abandonam o trabalho voluntário em uma tribos ingígenas por considerarem “difícil demais” conviver com a falta de investimento, com a burocracia, com ver morrer índios porque a ambulância nunca vinha. Milanez é do improvável time dos insistentes.

Mês passado, três anos depois, Milanez recontou a história no site da CartaCapital chamando a atenção para o fato de que os pistoleiros que mataram o casal José Carlos e Maria do Espírito Santo foram presos, tamanha a repercussão que o caso teve, mas o mandante de seus crimes ainda está solto, em acordo com a impunidade reinante na região.“O drama de Zé Cláudio e Maria, que eram meus amigos, é muito triste. Mas infelizmente é mais uma história de violência brutal, idiota e impune que ocorre na Amazônia, como foi a morte de Chico Mendes, de Wilson Batista, de Dema, de mais de 800 pessoas na Amazônia nas últimas décadas”, desabafa.

O trabalho dele denuncia os horrores que acontecem de um lado do Brasil do qual raramente se ouve falar nas capitais, dá valor à gente esquecida. Uma de suas reportagens foi anexada a um processo jurídico pelo reconhecimento de tribos indígenas na Amazônia.

“Não sei que poder os meios de comunicação possuem. A questão é colocar na pauta os temas que devem estar na pauta. Os veículos de comunicação são um dos diversos canais possíveis. É preciso usar diversos canais para que temas fundamentais como o genocídio e a destruição ecológica que pode levar ao fim a humanidade como é hoje sejam falados e debatidos, sem que isso seja feito pelas minorias conservadoras e reacionárias que só pensam em acumular mais, em se apropriar mais, de forma ainda mais irresponsável”.

A militância contra o viés conservador desse debate já lhe custou um emprego. Em maio de 2010, quando era editor da NationalGeographic, ele usou sua conta pessoal no Twitter para criticar uma reportagem da revista Veja, da mesma editora Abril. Foi controversamente demitido no mesmo dia. “Foi uma violência não só contra mim, mas também contra os meus colegas, todos ficamos muito chateados. Mas a matéria da Veja foi uma violência muito maior contra os índios, contra os quilombolas, contra o Brasil. Uma violência contra o Eduardo Viveiros de Castro e o Mércio Gomes, dois antropólogos que tiveram frases inventadas. Era uma peça extremamente racista”, diz.

 

 

Um aliado

Milanez já era adulto quando viu um índio de perto pela primeira vez. Gaúcho, ele cursava ciência política na Universidade de Toulouse, na França, quando conheceu e se interessou pelos movimentos sociaisligados ao meio ambiente na Amazônia. Na volta ao Brasil, foi assessor do consultor jurídico do Ministério da Justiça, em Brasília. Teve acesso a documentos sobre os índios Paracaña e foi convidado a montar, com Julia Magalhães, a revista Brasil Indígena, da FUNAI – e então começou a se embrenhar em terras isoladas e se meter em conflitos que sentia necessidade de contar.

“A questão da Amazônia é que quando se trabalha com essas populações, não se está lá numa perspectiva colonialista de usar o que te serve e vazar, como um galã explorador. Você tem que dar uma resposta. Os índios e os ribeirinhos têm uma sofisticação política muito grande e você acaba virando aliado deles”, diz.

De volta à Europa, ele hoje é pesquisador do prestigioso Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e da Universidade de Manchester, e integra uma rede de pesquisas europeias, a European Network of Political Ecology.

Levou consigo as contradições da região mais em risco do Brasil – os banhos de mar no Xingu versus a tristeza a violência da Belo Monte, o ar úmido e fresco da floresta contra o calor e a tensão de Marabá - e a vontade de aliar seus textos jornalísticos à experiência acadêmica, o que pretende fazer no novo blog. “As chamadas "minorias" são na verdade a grande maioria da população mundial, e no Brasil, ainda mais. Meu foco vai ser justamente a maioria, e não o 1% que é bem mais representado em grande parte da imprensa, que eles mesmos dominam. O foco será em temas de ecologia política, de conflitos ecológicos, de desafios a serem superados tendo por objetivo uma relação democraticamente mais igualitária e de justiça ecológica e social”.