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Luta política

Quixote sobre duas rodas

por Redação Carta Capital — publicado 15/11/2012 16h02, última modificação 16/11/2012 18h40
Cicloativista que se tornou a pedra do sapato dos políticos em Curitiba será o primeiro brasileiro a cruzar a África de bicicleta
transpanta

O blogueiro durante a viagem pela Transpantaneira. Foto: Arquivo Pessoal

Faz pouco mais de dois anos que o jornalista Alexandre Costa Nascimento ouviu a história de dois irmãos que pedalaram em 18 meses cerca de 15 mil quilômetros entre a Guatemala e Curitiba. Inspirado pelo caso, ele tomou coragem e comprou uma bicicleta cinco dias depois. A ideia era mudar os hábitos e começar a percorrer a duas rodas os 15 quilômetros (ida e volta) entre a casa e o trabalho todos os dias. Mas, entre o desejo e a missão, esbarrou em uma série de obstáculos.

A agressividade das ruas tomadas por motores apresentou seu cartão de visitas no dia em que foi atropelado e viu o motorista fugir sem deixar tempo de anotar a placa. O acidente causou ferimentos leves e provocou estragos na bicicleta. Ao chegar em casa, o jornalista tentou a sorte ao digitar as palavras “atropelei” e “ciclista” no Twitter. Não deu outra: o motorista acabava de publicar na rede um post no qual se gabava por ter quase atropelado um ciclista na cidade. Contatado, o agressor acusou o golpe, se comprometeu a consertar os estragos e foi impelido a pedir desculpas.

Foi uma das primeiras mostras de que equipamento e boa vontade não bastavam para circular a duas rodas. Era preciso gritar um pouco mais alto. Meses depois ele criou o blog “Ir e Vir de Bike” para compartilhar informações sobre viagens, trilhas e dicas de passeios. Em pouco tempo, descobriu que os ofícios – blogar e pedalar – eram quase um ato político.

O blog, hoje hospedado no portal da Gazeta do Povo, o principal jornal do Paraná, se transformou num canal reivindicações de melhorias no transporte urbano de Curitiba. A insistência em pedir espaços adequados para pedalar levou o prefeito da cidade, Luciano Ducci (PSB), a bloquear o cicloativista no Twitter. “Fiz um post sobre o assunto e escrevi: ‘O bloqueio virtual não é nada para quem leva #block todos os dias de carros, táxis e ônibus pelas ruas da cidade. Você pode me bloquear (…) mas nós, ciclistas, somos centenas, milhares e, cada vez mais tomaremos as ruas, um espaço público que é nosso. 2012 vem aí. Será a nossa vez de bloqueá-lo’.”

Em menos de duas horas o prefeito (que de fato seria “bloqueado” nas urnas sem sequer chegar ao segundo turno) voltou atrás, pediu desculpas e prometeu ouvir os ciclistas a partir de então.

Foi só a primeira briga. Pouco depois, um trecho de ciclovia do bairro Rebouças foi destruído e substituído por calçadas de concreto. O blog fez barulho e obrigou a prefeitura a suspender as obras, alegando "erro da empreiteira". O trecho foi refeito após pressão dos vereadores.

O descompromisso com os ciclistas seria denunciado outras muitas vezes, como quando o blogueiro foi à rua com uma trena e descobriu que o espaço reservado a usuários de uma ciclofaixa era de apenas 73 centímetros de largura. Ou quando mediu  as prioridades da administração e descobriu que o prefeito gastava 350% a mais com cafezinho em seu gabinete do que com a recuperação da malha cicloviária. Ou quando fez as contas e observou que, de cada 500 mil multas de trânsito aplicadas em Curitiba, apenas uma tinha como causa o descumprimento dos artigos do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) para proteger ciclistas. (Num total de dois milhões de autuações, o blogueiro descobriu que apenas quatro foram registradas porque os motoristas não respeitaram a distância mínima de 1,5 metro ao ultrapassar ciclistas, conforme determina o artigo 201 do código. O levantamento levou o Ministério Público do Paraná a instaurar um processo administrativo para apurar eventual omissão da prefeitura).

Em dois anos houve tanto barulho que hoje os servidores da Secretaria de Trânsito de Curitiba (Setran) e da Comunicação Social da Prefeitura monitoram todas as manhãs o blog para saber se não há nenhum "incêndio" novo. Tanto que, nas eleições de 2012, os principais candidatos a prefeito na capital paranaense tiveram de assinar compromissos sobre a ciclomobilidade. Só o atual prefeito não assinou. Nem se reelegeu. Ironia: o blog tem hoje 8,3 mil seguidores no Facebook e o prefeito, que em sua gestão demonstrou tão pouco caso aos ciclistas, deixou de ir ao segundo turno por meros 4 mil votos.

Desde que começou a pedalar e a blogar, Costa perdeu as contas de quantas brigas provocou para tentar garantir um trânsito mais humano em Curitiba. Só não perdeu as contas de quantas viagens realizou para espalhar (e descrever) a causa bicicleteira. Em dois anos, ele percorreu a Rodovia Transpantaneira (Mato Grosso), o Circuito Vale Europeu (Santa Catarina), andou por Berlim (Alemanha), Salt Lake City (EUA), o Deserto do Atacama (Chile) e Colônia de Sacramento (Uruguai). Agora ele se prepara para cruzar o continente africano em janeiro 2013. Será o primeiro brasileiro a participar do Tour d’Afrique, espécie de expedição a duas rodas de 12 mil quilômetros entre o Cairo, no Egito, e a Cidade do Cabo, na África do Sul. O trajeto passa por países Sudão, Etiópia, Quênia, Tanzânia, Malauí, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue, Botsuana e Namíbia e terá um monitoramento de eventuais instabilidades políticas e sociais dos países a serem atravessados. Os organizadores avisam: “Não se junte a um de nossos tours a menos que você esteja preparado para aceitar esses riscos”.

A viagem deve durar quatro meses.

“Vamos cruzar um continente apenas com energia humana. As grandes cidades dos países em desenvolvimento começam a perceber que o modelo econômico focado no transporte individual motorizado torna a vidas das pessoas e das cidades inviável. Isso não tem apenas custos econômicos, mas, principalmente, sociais”, diz o blogueiro antes de embarcar. “Sei que é uma visão meio quixotesca, mas tenho a esperança de essa viagem ajude a difundir essa consciência e encorajar pessoas comuns a também pedalar por uma cidade melhor.”