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Opinião

Qual é o consenso sobre o aquecimento global?

por Paulo Yokota — publicado 02/06/2014 13h57
A expressão de que 97% dos cientistas concordam sobre o tema virou deboche, mas as mudanças climáticas seguem sendo assunto urgente

Um artigo publicado no The Wall Street Journal elaborado por Joseph Bast, presidente do Heartland Institute, e Roy Spencer, da Universidade de Alabama que colabora com a NASA, acaba se tornando um indicador da resistência surda que existe nos Estados Unidos para a tomada de medidas concretas que evitem o aquecimento global. Na realidade ainda não há um estudo científico cabal ligando a ação humana com o que está acontecendo no meio ambiente, mas são muitos os indícios que levam 2.500 cientistas de todos os setores, reunidos no recente United Nations Intergovernamental Panel on Climate Change, a sugerir esta ligação. Ainda que somente 41 autores e editores fossem responsáveis pelos capítulos relevantes do Quinto Relatório de Avaliação já divulgado.

Como se generalizou a expressão que 97% dos cientistas concordam com esta interpretação em diversos trabalhos, o que é evidentemente um exagero, acaba se debochando contra esta quase unanimidade. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, advertiu os estudantes de graduação de Boston da consequência incapacitante das mudanças climáticas, citando que os tais 97% dos cientistas estariam alertando que as providências para a sua correção seriam urgentes. O mesmo percentual foi utilizado pelo presidente Barack Obama, levando os autores do artigo a sugerirem que o secretário estaria papagueando o seu chefe, sendo somente um posicionamento político, mas que não conduz a uma decisão operacional.

Os autores do artigo do The Wall Street Journal afirmam que este percentual é uma mera ficção. No entanto, ainda que seja reduzido para a metade já seria um problema alarmante, pois todos estão vendo o degelo nos polos, nos picos das grandes montanhas do mundo, o aquecimento das águas marítimas, principalmente nas suas correntes que determinam fenômenos como El Niño e La Niña que causam vários problemas. Entre eles, as irregularidades climáticas como fortes secas ou tufões em determinadas regiões do planeta, inclusive no Brasil. Os riscos das regiões próximas do nível do mar continuam se elevando. A dúvida seria se isto se deve a uma tendência natural de longuíssimo prazo, ou devido aos danos provocados pelos seres humanos.

Bast e Spencer apontam uma opinião de 2004 publicada na credenciada revista Science, em que a cientista Naomi Oreskes, historiadora de Harvard, tendo examinado 928 artigos sobre o assunto, publicados em revistas científicas entre 1993 a 2003, constatou que 75% faziam esta ligação, no que não foi contestada por ninguém relevante. Os autores indicam um artigo publicado recentemente na revista igualmente credenciada Nature, observando que os resumos dos trabalhos acadêmicos muitas vezes contêm afirmações que não são fundamentadas nos estudos. Muitos cientistas afirmam que mesmo estas revistas importantes tendem a publicar artigos que apoiam as teses dos seus dirigentes.

Outra fonte muito citada é um artigo de 2009 que faz referência a tal 97% que consta do Eos, Transactions American Geophysical Union, da estudante Maggie Kendall Zimmerman da Universidade de Illinois, orientada por Peter Doran. A amostra utilizada é pequena, somente de 79 pesquisadores, e a pergunta formulada foi muito vaga no questionário utilizado.

Muitos outros artigos de menor importância foram publicados referindo-se aos percentuais em torno de 97%. Pesquisas mais rigorosas foram efetuadas pelos cientistas alemães Dennis Bray e Hans von Storch, publicadas no Environmental Science & Policy em 2010, mostrando que os cientistas relacionados com o clima não concordam com o consenso, com base em aspectos ligados com a credibilidade dos dados ou modelos utilizados para análises. Eles não acreditam que os processos climáticos, como a formação das nuvens e precipitação são suficientemente compreendidos para prever futuras alterações climáticas.

O que pode se deduzir destes e outros trabalhos científicos citados é que ainda não existe um consenso muito forte sobre o assunto, mas todos concordam que existem indícios preocupantes, havendo necessidade que seja tentado um entendimento amplo entre os países, no âmbito das Nações Unidas. O problema é que não havendo bases científicas para pontos fundamentais, fica difícil se atingir um acordo pragmático e operacional, notadamente com metas que vieram sendo perseguidas desde o Protocolo de Kyoto.

Os países mais poluentes como os Estados Unidos e a China ainda dão maior importância à sua recuperação do processo de crescimento econômico ou a sua manutenção, ainda que problemas substanciais continuem sendo acumulados que não permitiriam a sustentabilidade do processo de melhoria do nível de bem estar no mundo, infelizmente.

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