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Meio Ambiente

O pico da água já terminou

por Envolverde — publicado 28/03/2011 10h37, última modificação 28/03/2011 11h45
Frequentemente se fala do “pico do petróleo” para definir o momento em que esse produto começar, irremediavelmente, a escassear. As medições indicam que a humanidade já passou o “pico da água”, mas continua a desperdiçá-la

Por Stephen Leahy, da IPS

Uxbridge, Canadá, 28/3/2011 – Frequentemente se fala do “pico do petróleo” para definir o momento em que esse produto começar, irremediavelmente, a escassear. As medições indicam que a humanidade já passou o “pico da água” e, entretanto, continua a desperdiçá-la. O canadense Kevin Freedman pretende viver este mês com apenas 25 litros de água por dia para cozinhar, beber e limpar, bem abaixo dos 330 litros consumidos em média na América do Norte. Kevin convidou 31 pessoas para participar de sua iniciativa “Desafio para a Conservação da Água”.

“No Canadá e nos Estados Unidos, as pessoas não têm ideia do quanto gastam e do quanto desperdiçam de água”, disse à IPS Kevin, que tomou essa decisão acompanhando o Dia Mundial da Água, comemorado no dia 22. “Embora se gaste menos, é muito difícil usar apenas 25 litros por dia. Não dá para tomar banho nem usar a máquina de lavar. Espero criar uma consciência de que a água é um recurso finito”, ressaltou.

Quase um bilhão de pessoas carecem de água potável, e esse número poderá duplicar em uma única geração na medida em que a demanda superar em 40% o fornecimento sustentável. A humanidade usa mais água do que poderia usar e esgota reservas não renováveis, acumuladas por mais de mil anos em aquíferos profundos. “Não é possível criar água, apenas geri-la”, disse a especialista Margareth Catley-Carlson, ex-funcionária do governo canadense e da Organização das Nações Unidas.

A falta de água é um grande obstáculo para o desenvolvimento de muitos países e regiões, disse Margareth à IPS. A escassez provoca carestia de alimentos, doenças, instabilidade política e até conflitos armados. “O governo acredita que seu papel é distribuir o líquido à população e à indústria”, acrescentou Margareth, diretora da Rede Canadense de Água. “Isso tem que mudar para ser possível gerir o recurso de forma sustentável, pelo bem da sociedade e do meio ambiente”, prosseguiu.

Entretanto, as autoridades não consideram a água um recurso valioso, não mantêm em dia a rede de distribuição e perdem entre 20% e 50% do líquido que deve ser distribuído. Nem mesmo cuidam dela os países do Sul, que têm pouca água. Sua disponibilidade é responsabilidade de mulheres e pobres, que não estão bem representados no governo, explicou Margareth. Os poucos fundos públicos são destinados ao Exército e a outras prioridades. “É tão frustrante. Podemos viver sem petróleo, mas não sem água”, ressaltou.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon pediu urgência aos governos para que invistam nos países pobres no setor de água e saneamento, especialmente em zonas urbanas, onde existe grande necessidade e a demanda aumentou 20% na última década. “Há uma crise de governança, de políticas débeis e má gestão, mais do que de escassez”, diz a declaração de Ban.

Em 2030, a demanda superará em 40% o fornecimento “acessível, confiável e sustentável do ponto de vista ambiental”, segundo a pesquisa feita pela consultoria McKinsey e Cia. Um terço da população, concentrado nas nações em desenvolvimento, viverá em bacias onde o déficit hídrico será superior a 50%, concluiu o estudo “Charting Our Water Future” (Medição de Nosso Futuro Hídrico).

A agricultura consome cerca de 71% da água utilizada atualmente. Existe estreita relação com a disposição de alimentos, segundo a pesquisa. A irrigação inapropriada e ineficaz é responsável pelo gasto. São feitos cultivos que exigem muita água, como o milho, em lugares secos, como a Espanha. Até o açúcar, com baixo valor alimentício, é cultivado com sistema de irrigação em alguns lugares. “É um absurdo”, lamentou Margareth.

Políticas erradas, subsídios como os concedidos aos biocombustíveis, acordos comerciais e maus hábitos são em grande parte responsáveis pela utilização irresponsável da água na produção de alimentos, explicou a especialista. O uso doméstico representa apenas 8% do consumo. A indústria é outro grande consumidor. Todos os produtos têm um componente hídrico, que se costuma chamar de “água virtual”, para descrever o volume utilizado para fabricar algo.

“Por exemplo, um computador de escritório exige 1,5 tonelada de água, um par de calça jeans, mais de seis toneladas, um quilo de aveia, uma tonelada, um quilo de frango, entre três e quatro toneladas, e um quilo de carne, de 15 a 30 toneladas”, explicou Nicholas Parker, presidente da Cleantech Group, empresa internacional que trata de acelerar o desenvolvimento e a adoção de tecnologias limpas.

O comércio mundial de “água virtual” superou 800 milhões de toneladas, equivalente a dez rios Nilo. “As pessoas não se dão conta de quanta água há em tudo o que fazemos ou compramos, de camiseta a vinho”, insistiu Nicholas.

Todo mundo pode se converter em um administrador melhor de água, disse Kevin Freedman. As lições aprendidas neste mês consumindo apenas 25 litros por dia poderão ser aplicadas a todo o ano, afirmou. “Na América do Norte, todas as pessoas podem reduzir seu consumo de água em pelo menos 25 litros. Desafio as pessoas a se comprometerem com essa meta”, ressaltou. Envolverde/IPS