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Roberto Amaral

O Brasil, entre a luz e o obscurantismo

por Roberto Amaral publicado 30/10/2012 14h14, última modificação 30/10/2012 14h14
Há inúmeros protestos contra as novas hidroelétricas e contra Angra III. Mas qual é a alternativa para evitar um atraso irrecuperável?
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Imagem de abril mostra as obras no sítio Canais e Diques, a maior frente de trabalho nos canteiros de obras de Belo Monte. Foto: Valter Campanato / ABr

Os reservatórios brasileiros, de Norte a Sul, estão em baixa. Se não chover... Enquanto isso, e para evitar uma grave crise de fornecimento, o governo aciona as termoelétricas movidas a óleo, fonte poluente e cara. Hoje, essas usinas já produzem tanta ou mais energia do que Itaipu. Os principais projetos brasileiros ambientalmente sadios – hidroelétricas e usinas nucleares –, estão atrasados, sob o peso da resistência dos ambientalistas.

A Folha de S. Paulo (28/10/2012, p. A14) acusa a construção da hidroelétrica de Estreito (MA), recentemente inaugurada pela presidente Dilma Rousseff, de ‘afetar a vida de moradores’ das circunvizinhanças. A construção da hidroelétrica do rio Madeira foi postergada por vários anos porque um dirigente do Ibama ‘descobriu’ que a barragem interferiria no trajeto de bagres no período da desova. O projeto das usinas nucleares, combatido por um fundamentalismo primitivo e anticientífico, está atrasado pelo menos 30 anos. Fala-se, até, na diminuição do ritmo de trabalho no canteiro de obras de Angra III.

Na Bahia, a energia produzida por uma central eólica não pode entrar no sistema nacional porque a construção da rede de transmissão está embargada, por problemas ambientais. Carlos Tatit Holz (Belo Monte uma usina de conhecimento. Eletrobrás. Brasília. 2010. p. 9) afirma que não há hidroelétricas suficientes para atender à nossa demanda de eletricidade para 2030, ‘mesmo contando com os grandes aproveitamentos da Amazônia’, a não ser, observamos, que o país de nossos sonhos se transforme numa cloaca. Na verdade, o que está evitando ‘apagões’ de maior gravidade é o modesto aumento da produção industrial, quadro que o governo federal pretende reverter com as medidas macroeconômicas adotadas. Tudo indica que em 2013 cresceremos algo em torno de 4 ou 5% do PIB (é a estimativa do FMI). Aliás, a economia voltou a aquecer-se neste trimestre. E até a brava Marina da Silva sabe que economia aquecida significa alto consumo de energia.

Por isso, precisamos construir as hidroelétricas projetadas, principalmente na região amazônica, onde as bacias do Tocantins-Araguaia, do Xingu e do Madeira-Tapajós têm potencial de gerar dezenas de milhões de megawatts de energia limpa. Ambientalistas desavisados, Ministério Público e juizinhos de primeira entrância fazem o possível para retardar Belo Monte, com o aplauso da classe média alienada (a qual, no entanto, não acena com o intuito de reduzir seu consumo de energia - pelo contrário). Agem como ‘inocentes úteis’ a serviço de interesses internacionais que buscam impedir o nosso desenvolvimento. Escondem-se atrás de ONGs preocupadas em “salvar o planeta”. Ocorre que uma hidroelétrica não se constrói da noite para o dia. Entre o projeto e a primeira geração de energia são consumidos cerca de 10 anos. Os estudos de inventário da Bacia do Xingu, com vistas ao Projeto Belo Monte, por exemplo, começaram em 1975 e o início das obras, aos trancos e barrancos, só se deu ano passado. E essas obras, foi-não-foi, sofrem paralisações.

Haverá alguma relação entre estes fatos e os primeiros episódios de ‘apagão’ que começamos a viver recentemente?

O que se tem de concreto é a existência de verdadeiro lobby contra a geração de energia, pois esses ditos ambientalistas são contra tanto as hidroelétricas (acusadas, até, de ‘não serem fontes renováveis’), quanto as usinas nucleares, a única fonte realmente inócua em face do meio ambiente. Com qual fonte, então, pretende essa guerrilha ambientalista alimentar as fábricas de seus eletrodomésticos, produzir o alumínio de suas casas, o aço de seus automóveis, a energia de seus aparelhos de ar-condicionado? Com o petróleo poluente e caro, seja o gás, seja o diesel? Com carvão mineral, certamente importado, porque nossas reservas são limitadíssimas? Ou com a energia eólica sem redes de distribuição, e dependente de outras fontes (A hidroeletricidade? A energia nuclear?) para sua estabilidade? Com a caríssima e ainda mais limitada energia solar, responsáveis, ambas, hoje, por menos de 1% da produção nacional? Que tal suspender o civilizador ‘Luz para todos’ e retomar o candeeiro a querosene? Que propõem, afinal os opositores do desenvolvimento energético nacional?

Na verdade, o que pretendem, sem que o digam, é impedir a baixa do chamado ‘custo Brasil’, pois é sabido que a fonte mais barata de geração de energia elétrica é a hídrica, o que nos deu durante décadas vantagem competitiva em relação ao resto do mundo, tal a fartura de recursos hídricos de que dispúnhamos. Vantagem essa, relembremos, anulada pelo governo FHC em decorrência da ruinosa privatização do setor elétrico que patrocinou, alinhando nossas tarifas (então as mais baixas do mundo) às internacionais, tornando-as as mais altas do planeta! Tal distorção vem de ser corrigida pela presidente Dilma, ao anunciar corte que varia de 16% a 28% nas tarifas hoje vigentes, o que terá efeito benéfico na competitividade da indústria brasileira.

As aleivosias pouco variam com o tempo.

Exemplo disso foi a resistência a Itaipu, que neste ano deve produzir quase 100.000.000 MWh. Dizia a Gazeta Mercantil (SP) edição de 10/3/1977, que a hidroelétrica binacional não seria capaz de cobrir, sequer, o déficit no fornecimento de energia elétrica em São Paulo. Daí, sua desnecessidade. O que se sabe, hoje, calando os derrotistas de plantão, é que Itaipu já chegou a gerar 30% da eletricidade total consumida no país. O Estadão (26/3/1978) dizia que a barragem era potencialmente sísmica, podendo provocar um terremoto de grandes proporções. Em 16 de abril de 1983, a Folha da Tarde (RS) inventou um ecólogo que sentenciou que o reservatório provocaria mudanças climáticas numa extensa área do Pantanal sul-mato-grossense, ao sul de São Paulo, chegando aos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do Norte da Argentina e do Paraguai. Já o Globo (28/3/1983) previa geadas e neve. Nada disso ocorreu. A usina opera perfeitamente há 38 anos. Igualmente Angra I e Angra II, também duramente questionadas.

O desafio está posto: é preciso saciar a demanda de energia elétrica, sem a qual não haverá qualquer sorte de desenvolvimento. É evidente que esse desenvolvimento – quem ousa afirmar o contrário? – precisa ser sustentável e ambientalmente sadio, sem qualquer preconceito relativamente às fontes disponíveis de energia, pois, felizmente, nossa matriz compreende as mais diversas fontes, que se complementam, e essa é, exatamente, sua grande excepcionalidade, que nenhum outro País possui.

Estado e sociedade precisam decidir, antes que o atraso seja irrecuperável: tem ou não o País projetos estratégicos?