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Sustentabilidade

Clima: preocupar-se só quando bater na bunda?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/11/2015 08h30
Pesquisa global mostra que China e países ricos ainda não levam as mudanças climáticas a sério; Brasileiros são os mais preocupados da América Latina
AFP PHOTO / GREG BAKER (04/11/2015)
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Prédios encobertos pela poluição em Pequim. Chineses não se mostram preocupados com o aquecimento global

A poucas semanas da COP21, a 21ª Cúpula das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que ocorrerá em Paris de 30 de novembro a 11 de dezembro e pretende chegar a um compromisso formal e legal com metas de redução das emissões, o Pew Research Center publica uma pesquisa mundial de opinião pública sobre o tema.

O resultado é ambíguo e preocupante. Enquanto os especialistas são praticamente unânimes em considerar o problema “grave, abrangente e irreversível”, conforme o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), na mediana global apenas 54% dos entrevistados considera esse problema muito sério.

Nos países mais críticos para o controle do aquecimento global, Estados Unidos e China, esses porcentuais são de 45% e 18%. É ainda menor o número daqueles que julgam que serão pessoalmente prejudicados: 40% na mediana mundial, 30% nos EUA e 15% na China.

Curiosamente, a região do mundo mais consciente do problema é a América Latina: neste continente, 74% consideram o problema muito sério e 63% se consideram pessoalmente afetados. E de todos os países, o Brasil é o mais apreensivo: aqui, 86% estão muito preocupados e 78% se sentem afetados. Neste último quesito, está atrás apenas de Uganda, onde são 88% os diretamente atingidos.

Com razão, pois os especialistas apontam a América Latina como uma das regiões mais ameaçadas, ao lado da África do Norte, Oriente Médio, Sul e Sudeste asiáticos e Oceania. E o Brasil, sob o impacto evidente da seca, não está em condições de ignorar a questão. 

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Trabalhadores no galpão onde se realizará a Cop 21 em dezembro, em Paris (foto: AFP / Lionel Bonaventure)

A educação e mídia brasileiras deixam muito a desejar, mas em geral fizeram seu papel no tocante a advertir as massas sobre o problema. Com algumas notórias exceções, principalmente a infame campanha de 2013 do grupo Band e de um colunista da Abril para promover a teoria conspiratória de que o aquecimento global é uma “farsa”.

A pesquisa mostra, por outro lado, que em muitos países decisivos, inclusive a China, a Coreia do Sul, o Japão, a Rússia, a Polônia e a Turquia, a consciência do problema regrediu consideravelmente nos últimos cinco anos e que em vários dos países ricos, notadamente Espanha, Reino Unido, França, Itália e mais ainda os EUA, essa questão ainda é percebida pelas massas como “polêmica” e marcada por fortes divergências partidárias.

Nos EUA, 68% dos “liberais” levam a questão a sério, mas apenas 30% dos conservadores. Na Itália, 69% da esquerda considera o problema relevante, mas apenas 42% da direita. Sem um consenso das principais forças políticas, é improvável que esses países assumam compromissos firmes sobre as medidas indispensáveis para limitar a catástrofe que se aproxima. Infelizmente, parece que esse consenso não existirá enquanto a água – ou a seca – não bater na bunda.