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Revolução agrária

Grãos trangênicos voltam a assustar a Europa

por Redação Carta Capital — publicado 26/09/2012 11h14, última modificação 26/09/2012 11h55
Experiência com soja geneticamente modificada causou alto índice de câncer em ratos; franceses estão assustados com os resultados
soja

A importação de grãos de soja não geneticamente modificados sairia ao kenos 12% mais caro para os franceses. Foto: Valter Campanato/ABr

Por Amanda Lourenço

O debate sobre os possíveis malefícios dos alimentos transgênicos voltou com força depois que uma pesquisa científica francesa relacionou o aparecimento de tumores cancerígenos em ratos com o consumo de milho geneticamente modificado. O estudo causou alvoroço e o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, chegou a anunciar medidas de incentivo à proibição dos OGM (organismos geneticamente modificados) em toda a Europa, caso se confirme o resultado da nocividade do produto.

Na pesquisa, publicada pela revista "Food and Chemical Toxicology", 200 ratos foram alimentados durante dois anos de formas distintas: o primeiro grupo com grãos de milho NK603 geneticamente modificados e o pesticida Roundup; o segundo com o OGM, mas sem o pesticida; o terceiro sem o OGM, mas com o pesticida; e o quarto sem OGM nem pesticida. O resultado apontou uma alta taxa de mortalidade dos três primeiros grupos causada por grande incidência de câncer.

As imagens divulgadas eram impressionantes: tumores do tamanho de bolas de pingue-pongue que chegavam a representar 25% do peso dos ratos. As fêmeas foram mais afetadas nas glândulas mamárias e os machos, nos rins e no fígado.

Na prática, o alimento trangênico não é consumido sem o pesticida, já que os grãos são modificados justamente para se tornarem mais resistentes ao produto, que acaba matando apenas as pragas, não a planta. Segundo o coordenador do projeto, Gilles-Eric Seralini, professor da Universidade de Caen, essa foi a primeira vez que os efeitos a longo prazo tanto do transgênico quanto do pesticida Roundup foram avaliados em tal profundidade.

A norte-americana Monsanto, empresa responsável pelos dois produtos e maior produtora de transgênicos do mundo, anunciou em comunicado que seus pesquisadores vão revisar o documento, mas adiantam que “alegações similares foram feitas pela mesma pessoa e por outros grupos de pressão contra a biotecnologia” e que foram “sistematicamente refutadas por artigos avaliados por pares, bem como pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos”. A empresa também questiona o autor do trabalho, que “já foi amplamente refutado pela comunidade científica mundial no passado”.

Uma das principais críticas à metodologia foi a utilização dos ratos albinos Sprague Dawley. “O animal utilizado é inadequado, já que tem uma tendência natural ao câncer. E também eram em número abaixo do recomendado”, alega Leila Oda, presidente da Associação Nacional de Biosegurança, a ANBio. O uso dos ratos albinos também foi questionado na Europa, mas de acordo com pesquisadores do Centre National de Recherche Scientifique, sua presença é frequente em laboratórios.

A representante da ANBio também criticou o sensacionalismo em torno da notícia: “Os responsáveis pela pesquisa deveriam ter contatado os órgãos reguladores imediatamente, ao invés da mídia como foi feito”. Ela alega também que os testes foram feitos em apenas um tipo de milho transgênico, ou seja, mesmo se o resultado for real, o problema pode estar naquele OGM específico - o que não é o caso do pesticida Roundup, um dos mais usados no mundo.

Revolução agrágria

O primeiro-ministro francês já avisou a imprensa local que vai se opor aos alimentos transgênicos, caso seu perigo seja confirmado. “Pedi um inquérito rápido que permita verificar a validade científica deste estudo. Se os resultados forem conclusivos, (o ministro francês da Agricultura) Stéphane Le Foll defenderá a proibição dos OGM em nível europeu", afirmou Ayrault. Os resultados são esperados para fim de novembro.

A União Europeia restringe com rigor o cultivo de alimentos trangênicos. Atualmente só é permitida a plantação de dois produtos do tipo: o milho 810, da Monsanto e a batata Amflora, da alemã BASF, que já não é mais cultivada no continente. No entanto, grandes quantidades de grãos geneticamente modificados são importadas para alimentar a criação de animais e servir de base para alimentos de consumo humano. É permitido o comércio de outros 44 tipos de OGM.

Na França, os criadores começam a se preocupar com a possibilidade da proibição à importação: “Nosso país importa 40% de toda proteína, principalmente a soja, cujo padrão no mercado mundial é OGM. Entre 75% e 80% do gado francês é alimentado a base de transgênico”, informou à Reuters Valérie Bris, responsável da alimentação animal de Coop de France, que representa mais de dois terços das empresas do setor.

Desta forma, proibir a entrada de transgênicos em território europeu seria fazer obrigatoriamente uma revolução agrária. “A União Europeia importa cerca de 40 milhões de toneladas de soja anualmente, praticamente toda a soja que consome. Gostaria de saber onde ela conseguiria substitutos para todo esse OGM”, questiona Lucílio Alves, professor do departamento de economia da Escola Superior de Agricultura da USP. O Brasil sozinho exportou quase 6 milhões de toneladas apenas de soja em grãos para o velho continente em 2010.

Não resta dúvidas de que seria extremamente complicado por em prática uma restrição dessa amplitude. E a questão não seria apenas o cultivo, mas o manuseamento da colheita. “Seria necessário fazer uma segregação entre os produtos OGM e não-OGM, senão esse último poderia ser contamidado. O armazenamento e o transporte também teriam que ser cuidados e limpos, para não haver resíduos durante todo o processo da colheita até a chegada na Europa”, explica o professor.

A importação de grãos sem modificação genética sairia consideravelmente mais cara, um aumento de 12% segundo Valérie Bris. “Se a medida fosse adotada apenas pela França, isso nos colocaria em uma situação de competitividade desastrosa em comparação aos outros países europeus”, diz a responsável.

No entanto, Alves acredita que se toda a União Europeia realmente determinasse a interdição dos OGM e pagasse um preço mais caro, os produtores se interessariam pelo negócio. “Será que a Europa estaria disposta a pagar um valor adicional por esse produto, por essa segregação? Se estivessem, seria possível sim”, conclui.