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Opinião

De olho em Kyoto e Nagoya

por Rui Daher publicado 11/07/2014 10h15, última modificação 11/07/2014 10h34
As discussões sobre o aquecimento global e a biodiversidade precisam ser observadas com mais atenção
Oxfam
Campanha Oxfam Cancun

Crianças brincam perto de instalação feita pela ONG britânica Oxfam em Cancún, no México, em 2010, durante conferência sobre o aquecimento global. "Urgente - Salve vidas em Cancún", diz a mensagem na garrafa

No Japão, a distância entre as cidades de Kyoto e Nagoya é de 260 km. No Brasil, um caminhão precisará percorrer 2.100 km, até o porto de Paranaguá (PR), para descarregar soja colhida em Lucas do Rio Verde (MT).

Quando se trata, no entanto, de assinar dois documentos benfazejos ao futuro da humanidade, o percurso entre as duas cidades japonesas parecerá 100 vezes maior e a viagem poderá durar um quarto de século.

Em simpósios, conferências, estudos de organizações oficiais e não governamentais, o planeta tem procurado combinar uma forma de preservar-se diante de seus adversários terrestres. Dos extraterrestres, Hollywood tem sabido tratar e, no final, sempre sobrevivemos.

Interesses particulares se confundem, confrontam e impedem que o Protocolo de Kyoto se transforme num tratado de boas maneiras ambientais restritivas do aquecimento global.

Ensaiado desde 1988, em Toronto, reforçado em 1990, na Suécia, e tomado de glamour nas ECO-92 e +20, no Rio de Janeiro, até hoje não obteve consenso mundial, embora devesse estar vigorando desde 2004, quando foi aceito pela Rússia.

Não está. Duas novas tentativas serão feitas. Uma, em dezembro deste ano, em Lima, outra no ano que vem, em Paris. A crença é pequena.

Claro que os prós e contras podem ganhar interpretações mais refinadas. Não nesta coluna, que vê o mundo de forma mais simples, e pelo que duram as pendengas ou se frustram os resultados, parece acertar.

A quizumba é assim: quem pecou mais no passado deverá como penitência rezar mais Ave-Marias e Pais Nossos.

Países industrializados, que mais emitiram gases de efeito estufa e influenciaram no aquecimento global, pelo protocolo, deverão moderar a flatulência e permitir aos menos desenvolvidos quotas maiores de soltura de gases.

Nada de escatológico nisso, mas acontece que ninguém quer ceder em seus consumo, crescimento e desenvolvimento. Até porque não se sabe quem estará na liderança desse tripé no século XXI.

Se questões como investir em fontes renováveis de energia, inclusive a solar, forem consideradas, aí sim empelota mais o angu até o caroço.

Valerá a pena os emergentes conquistarem o direito de expelirem mais gases ou melhor seria virarem a estratégia na direção de promover maior acesso às fontes renováveis de energia?

Olhando para o Brasil, arriscaria sugerir navegar com um pé em cada barco. Temos posições mandatórias tanto em energia fóssil como nas renováveis. Apenas precisaríamos ser capazes de equilibrar os fatores e planejar harmonicamente interesses econômicos e o bem-estar das gerações futuras do planeta. Concordo não ser muito fácil nesta Federação de Corporações.

Em Nagoya, a discussão é mais recente, intrigante, difícil de engolir e, acredito, até aqui ter passado desapercebida dos brasileiros.

O pior é que o tema está chegando – perigo, perigo! – ao Congresso Nacional, onde as emissões intestinais misturam os estados gasoso, sólido e líquido.

A ONU prepara a primeira rodada de negociações sobre distribuição e pagamento para o uso dos recursos genéticos do planeta.

Sim, quem a possui, como poderá usá-la e quanto cobrará pela biodiversidade, que virará produto nos mercados mundiais.

Embora tendo participado de sua criação, em 2010, o Brasil ainda não ratificou o Protocolo de Nagoya. Quem não o fizer não poderá votar textos, artigos ou meter o bedelho.

Pretende-se encontrar uma forma de proteger o patrimônio biológico dos países, frente à biopirataria, através da criação de royalties para uso da flora e fauna locais.

Sertanejos extrativistas, povos indígenas, comunidades de nações pobres em regozijo? Sim, principalmente, se souberem o quanto lucram as indústrias farmacêuticas e de insumos para a agropecuária com o uso de recursos naturais retirados de territórios alheios e desprotegidos.

A próxima conferência mundial sobre biodiversidade ocorrerá na Coreia do Sul, em outubro. A ONU garante até lá contar com o apoio dos 50 países necessários para aprovação do Protocolo.

Uma ausência importante e cada vez mais provável é a do Brasil, dono da mais rica biodiversidade do planeta, e que se justifica alegando assunto muito complexo, pois envolve o interesse de muitos setores.

O valor econômico de nosso patrimônio em biodiversidade é estratosférico. Em não se tratando, em sua maioria, de recursos finitos, alguns cientistas chegam a compará-lo ao valor potencial da exploração de petróleo na camada pré-sal.

Quem teme, pelo menos, começar a discutir as bases do Protocolo é a bancada ruralista no Congresso. Alega supostos prejuízos à agropecuária brasileira, como encarecer nossas produções de soja, milho, bovinos, enfim, de genéticas desenvolvidas em outros países.

Mas isso já não é cobrado nos preços, ou mesmo como royalties, pelas multinacionais fabricantes de insumos.

Tramita em regime de urgência um projeto de lei apresentado pelo governo ao Legislativo sobre o acesso e a pesquisa de materiais genéticos brasileiros, excluindo do texto os alimentos, o que poderia permitir nossa participação nas discussões que começaram nesta semana.

Penso que os dois assuntos são importantes e deveriam estar sendo mais explorados em nossas folhas e telas cotidianas.

Se na semana eu não mudar de ideia, volto ao tema na próxima coluna.