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The Observer

Comércio de marfim provocará extinção de elefantes na África

por The Observer — publicado 01/01/2013 09h24, última modificação 06/06/2015 18h24
Ativista acusa a China de alimentar a caça ilegal; as presas seriam contrabandeadas em malotes diplomáticos
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Caça em busca de marfim pode levar elefantes a extinção, diz ativista. Foto: Galeria de Calítoe./Flickr

Jane Goodall, uma das maiores conservacionistas do mundo, fez um apelo apaixonado por uma proibição mundial à venda de marfim para evitar a extinção do elefante africano.

Seu pedido se segue à apreensão na Malásia, na semana passada, de 24 toneladas de marfim ilegal e um relatório de conservacionistas advertindo que o comércio ilegal de marfim hoje ameaça governos, enquanto grupos rebeldes usam a venda de presas para financiar suas guerras.

"Uma tragédia maciça está se desenrolando em algumas partes da África. Isto é desesperadamente sério, sem precedentes", disse Goodall. "Acreditamos que a Tanzânia perdeu a metade de seus elefantes nos últimos três anos. Aviões militares de Uganda foram vistos sobre a República Democrática do Congo atirando contra elefantes. As milícias armadas hoje estão matando os elefantes."

Ela acusou a China de ser a responsável em última instância, porque a maior parte do marfim é mandada para lá para ser transformada em ornamentos. "O principal mercado são a China e o Oriente. O marfim parece ser contrabandeado nos malotes diplomáticos chineses ou em aviões sem identificação, ou é contrabandeado pela fronteira do Congo. Bandos armados e policiais florestais estão aderindo ao contrabando ou estão sendo mortos. Temo que estejamos perdendo a batalha em alguns países. É chocante", ela disse.

A crescente presença da China na África tem sido acusada por um surto sem precedentes de caça ilegal. Na semana passada, a descoberta pela alfândega malásia de 1.500 presas escondidas em compartimentos secretos de dez contêineres que supostamente carregavam pisos de madeira foi a maior carga de marfim ilegal já registrada, equivalente a todo o marfim ilegal apreendido no ano passado.

Os contêineres estavam supostamente a caminho da China, através da Espanha, partindo de Togo, um destino popular para bandos armados que contrabandeiam marfim. Ela se segue à apreensão em Hong Kong em outubro de quase 1 mil presas de marfim originárias da Tanzânia e à descoberta de mais de 200 presas na própria Tanzânia.

Goodall, que ficou famosa por seu trabalho como primatologista, lidando com chimpanzés na África, comparou a deterioração da situação com os elefantes com o drástico declínio das populações de primatas nos últimos 40 anos. "Estamos vendo a devastação de populações de elefantes em muitos países. É uma situação semelhante à dos grandes macacos. Todo mundo deveria se preocupar. Estamos lutando por uma proibição mundial total à venda de marfim."

Ela disse que faria campanha para convencer a ONU a proibir as vendas de marfim. "O mundo precisa acordar. Os governos precisam se endurecer. Ninguém, em lugar nenhum, deve comprar marfim. Os países devem receber ajuda para reforçar os controles contra a caça ilegal", disse Goodall.

Um recente relatório apresentado à ONU pela WWF International advertiu que o comércio ilegal de marfim ameaça os governos africanos, enquanto os grupos rebeldes usam a venda de presas para financiar suas guerras. "Isto se trata de muito mais que a vida silvestre. Esta crise ameaça a própria estabilidade dos governos. Tornou-se uma profunda ameaça à segurança nacional", disse Jim Leape, diretor-geral da WWF International.

A caça ilegal estaria fora de controle em alguns países. No sul do Sudão, a população de elefantes era estimada em 130 mil em 1986 e caiu para 5 mil, disse o diretor da World Conservation Society, Paul Elkan. "Nos próximos cinco anos eles poderão ter desaparecido completamente, com os atuais índices de caça ilegal. Até as forças de segurança estão envolvidas no tráfico", ele disse.

Os conservacionistas culparam as autoridades da Tanzânia por não controlar a caça e o tráfico de marfim. "Existe uma enorme chacina de elefantes acontecendo na Tanzânia neste momento. As coisas saíram do controle", disse o veterano conservacionista Iain Douglas-Hamilton. "Não há proteção para os elefantes, assim como não havia para os bisontes no século passado, quando todos foram eliminados dos EUA. Por isso as pessoas não devem se iludir."

A Tanzânia, que tinha de 70 mil a 80 mil elefantes em 2009, é considerada o lar de quase um quarto de todos os elefantes africanos. Mas Peter Msigwa, um deputado do país, disse na semana passada que a caça ilegal está "fora de controle", com uma média de 30 elefantes sendo mortos por dia por causa do marfim.

"No fim do ano, estamos falando de 10 mil elefantes mortos", disse James Lembeli, presidente do comitê de recursos naturais da Tanzânia. "Ande por este país, onde você tem populações de elefantes, e verá carcaças em todo lugar", ele disse.

No ano passado a polícia da Tanzânia confiscou mais de 1 mil presas de elefantes escondidas em sacos de peixe seco no porto de Zanzibar.

Em junho a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas descreveu a situação dos elefantes da África como "crítica" e disse que a caça de elefantes atingiu seu nível mais alto em uma década, com dezenas de milhares mortos por ano para a extração de suas presas.