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Sustentabilidade

Opinião

Cidades podem oferecer futuro mais humano e ambientalmente equilibrado

por Angélica Nakamura, Giulia Giacchè, Guilherme Raniei, Gustavo Nagib, Luís Amato e Lya Porto — publicado 29/06/2016 18h24
Agricultura urbana possui capacidade de assegurar direito à ocupação de áreas disponíveis para planejamento mais democrático e participativo do espaço
Horta Comunitária da Saúde/Facebook
agricultura urbana

A agricultura urbana é uma atividade marcada pelo protagonismo de agricultores, organizações não governamentais, coletivos, ativistas e pesquisadores

Vivemos em um planeta de cidades: em 2008, pela primeira vez na história, a população mundial tornou-se predominantemente urbana. As projeções indicam que para o ano de 2050 66% dos habitantes viverão em cidades.

O processo de urbanização resulta em impactos socioambientais de caráter relevante, sobretudo quando se apresenta demasiadamente acelerado e sem o devido planejamento, tais como: diminuição da fauna e flora, impermeabilização dos solos, supergeração de lixo e provável aumento do preço dos alimentos.

Porém, na realidade apresentada, as cidades também podem nos oferecer oportunidades para um futuro mais humano e ambientalmente mais equilibrado. Nesta acepção, a agricultura urbana destaca-se por sua capacidade em assegurar o direito à ocupação das áreas disponíveis para a produção de alimentos, a cooperação comunitária e a redução dos custos com deslocamentos e energia, materializando um planejamento mais democrático e participativo do espaço urbano.

Apesar de a agricultura urbana ser considerada tradicionalmente uma atividade econômica marginal, ela tem um papel fundamental para as famílias de baixa renda, especialmente porque são as que costumam gastar de 60 a 80% dos seus rendimentos com alimentação.

Em 1996, uma pesquisa conduzida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) identificou que de 15 a 20% da produção de alimentos são provenientes da agricultura urbana. Estudos atuais estimam que 1,1 bilhão de pessoas estejam envolvidas com a referida atividade.

Por isso, nestas últimas décadas, diferentes organizações vêm realizando pesquisas e ações com a finalidade de diagnosticar a agricultura urbana e promover ambientes institucionais que a favoreçam como estratégia mitigadora de diferentes problemas urbanos, tais como a pobreza, a desnutrição e a questão ambiental.

A agricultura urbana, no entanto, necessita de um ambiente institucional propício, onde haja regulamentações para o acesso à terra, à gestão de riscos e às políticas públicas intersetoriais, dependendo, por sua vez, da inclusão daquela atividade como assunto estratégico e interligado aos planos de segurança alimentar e aos planos diretores das cidades.

Parte dessa problemática relaciona-se, ainda, com o descompasso entre o aproveitamento de áreas ociosas nas cidades, a produção de alimentos e a inserção da dimensão ambiental no planejamento urbano.

Como as cidades são grandes atrativos para o capital, elas geram um aumento populacional muitas vezes dissociado do aumento produtivo e da sua capacidade de alimentar as pessoas. Dessa forma, trazendo alimentos de localidades cada vez mais distantes, o custo com transportes aumenta, a remuneração dos produtores é geralmente baixa e o desperdício que ocorre ao longo da cadeira produtiva é alto.

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(foto: Horta Comunitária da Saúde/Facebook)

Ao ocupar áreas improdutivas na cidade, a agricultura urbana também promove oportunidades para pensar questões de utilidade e preocupação cotidianas, tais como o reuso e a captação da água da chuva para uso in loco, e a compostagem de parcela do lixo orgânico, além de permitir o resgate de conhecimentos que parecem incompatíveis com a vida na metrópole, mas que estão latentes na população: os saberes sobre técnicas de cultivo, o resgate do lazer com as atividades hortícolas, a reconexão com os ciclos da natureza, o resgate de plantas e alimentos incomuns no grande comércio, assim como valores espirituais e estéticos que são a antítese da vida metropolitana, quando esta se apresenta caótica, cinza, automatizada e sintética.

Deve-se ressaltar, ainda, que a agricultura urbana é uma atividade marcada pelo protagonismo de agricultores, organizações não governamentais, coletivos, ativistas e pesquisadores. Portanto, ela envolve um sistema de governança local marcado pela atuação de múltiplos públicos estratégicos, no qual as universidades assumem um papel de grande relevância, ao produzir estudos de análise, avaliação e diagnóstico tanto para aprimorar a gestão de riscos, o planejamento e a implementação de políticas públicas, quanto para servir de base à pressão política por mudanças institucionais mais bem estruturadas.

A academia também possui um papel fundamental na identificação de externalidades ambientais negativas geradas pelos processos de urbanização. As metrópoles enfrentam continuamente problemas relacionados à poluição, seja atmosférica, hídrica ou de seus solos, que, por sua vez, podem resultar na absorção de poluentes nos alimentos em concentrações acima das aceitáveis para o consumo humano.

Isso coloca em questionamento, por exemplo, o quão segura é a agricultura urbana. Cabe à academia não somente investigar as complexas relações existentes nos processos entre poluição/contaminação de alimentos produzidos nas cidades, mas também desenvolver e propor soluções que mitiguem a geração de passíveis ambientais para que os benefícios gerados pela agricultura urbana sejam usufruídos em sua plenitude.

Embora ainda distante do ideal, o processo de reterritorialização das relações entre produção e consumo está em andamento. As modalidades de governança dessa transição são uma questão teórica e prática, o que exige atenção às soluções e inovações muitas vezes tomadas em escala local.

No âmbito científico, as pesquisas em andamento evidenciam as expressões das relações e dinâmicas socio espaciais e dos impactos gerados pela agricultura urbana, considerando os atores, a dimensão espaço-temporal e as instituições com ela envolvidas. Espera-se, entretanto, que o engajamento em prol da agricultura urbana venha a ser cada vez mais abrangente no escopo da sociedade.

*Angélica Nakamura, Giulia Giacchè, Guilherme Ranieri, Gustavo Nagib, Luís Amato e Lya Porto são integrantes permanentes do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (GEAU/IEA/USP).

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