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Sustentabilidade

A destruição em Belo Monte virou atração: o sítio-escola

por Felipe Milanez publicado 21/07/2015 04h45, última modificação 30/07/2015 14h25
Arqueólogos questionam projeto de consultoria que pretende levar estudantes para ex-sítio arqueológico e acusam desrespeito com população local
Reprodução
Belo Monte.jpg

Uma mega-escavação em Belo Monte

(Este texto foi atualizado duas vezes desde a sua publicação para a inclusão de pedido de réplica da Norte Energia S.A. e a respectiva tréplica do autor, Felipe Milanez. Também foi incluído o pedido de resposta de Carlos Eduardo Caldarelli, diretor da Scientia, e a respectiva  réplica do autor)

O Brasil está ampliando cada vez mais o seu portfólio para se tornar uma Disneylândia de conflitos. Quer ver sangue? Temos para espremer à vontade na favela mais próxima! Quer ver uma ex-floresta? Há um vasto pacote. E um ex-rio ainda habitado por ex-ribeirinhos em um ex-sítio arqueológico? No cardápio vem tudo concretado, difícil de ler, mas nesse safari a avistagem (assim se fala na gíria de agencias de ecoturismo) é garantida - ainda que a população local não esteja "habituada" (como algumas agências tentam treinar onças).

Uns anos atrás eu viajei pela Transamazônica visitando locais de tragédias no passado e escrevi um guia de turismo de conflito: Transando a Amazônia, essa quarentona. Era uma ironia, é claro, que representava uma luta pela memória de violências que não devem ser esquecidas. Nunca esquecer das atrocidades da ditadura empresarial-militar para que não se repitam.

Mas, na mesma Transamazônica, a história volta tanto como tragédia quanto como farsa. A destruição provocada por Belo Monte agora virou, efetivamente, uma atração operada pela empresa de consultoria Scientia Consultoria Científica. O nome, claro, deve ser mais sugestivo: um "sitio-escola".

Os consumidores-alvo, que não precisam pagar pois a escola é subvencionada pelo cliente que concretou a região e barrou o rio Xingu, são alunos de graduação e pós-graduação que terão hospedagem paga e, portanto, serão visitantes de fora, funcionando como um turismo escolar. E o objetivo é: "a formação inicial de estudantes e pesquisadores na área de arqueologia por meio de atividades teóricas e práticas de campo relacionadas à arqueologia amazônica e escavação de sítios arqueológicos em um contexto de arqueologia consultiva".

Treinados para servir a consultorias de grandes obras, e é importante lembrar que na Europa já existe um fórum sobre Mega Projetos Inúteis Impostos que, aparentemente, vai demandar mão-de-obra científica para a justificação de mega-obras inúteis, irão acompanhar as "pesquisas em andamento na área da UHE Belo Monte": 

"Os estudantes irão aprender técnicas básicas de prospecção intra-sítio, escavação, e registro necessários para execução de trabalho de campo. Os tópicos a serem abordados incluem estratégias de prospecção intra-sítio e escavação, estratigrafia, topografia, coleta de amostras de solo, técnicas e registro de escavação de sepultamentos, registro de gravuras rupestres e feições de polimento, além de técnicas de flotação de sedimento." 

Será então uma escola para aprender e reafirmar que a arqueologia foi, em quase toda a sua história, um violento instrumento de colonização e saque (lembram de Indiana Jones em busca de tesouros para trazer para casa?), ou, fosse diferente, que a arqueologia, como ciência, pode ser transformada acompanhando um mundo em luta por descolonização e respeito e consulta as populações atingidas por projetos? Paulo Freire deve estar revirando no túmulo sobre cada uso que se faz da ideia de "educação".

O sítio-escola em um ex-sítio arqueológico (pois os impactos da obra destroem os vestígios arqueológicos da região) foi denunciado por arqueólogos comprometidos com novos paradigmas éticos da ciência que praticam, esses da descolonialidade e respeito às populações que vivem no entorno das áreas de trabalho.

Em uma carta publicada no site Xingu Vivo, e reproduzida abaixo, acusam o desrespeito com povos indígenas e populações locais em todo o processo da construção da usina e o fato dessas pessoas atingidas estarem excluídas da proposta do "sítio-escola".

Atacam, ainda, os resultados das pesquisas e escavações realizadas nas obras da usina, que são agora objetos do "sítio-escola", pois, segundo elxs, "em Belo Monte o resgate do patrimônio arqueológico tem assumido uma conotação fetichista, ou seja, é o resgate do patrimônio por ele mesmo", e questionam se "é correto para a formação de novos arqueólogos realizar pesquisa e ensino em situações onde os seus fundamentos não atendam aos pressupostos humanitários e ambientais elementares sugeridos pela ONU e seus diversos organismos". 

A realização de um sítio-escola de arqueologia poderia ser motivo de comemoração por cientistas e, especialmente, para as comunidades onde eles ocorrem, que teriam uma chance de aprender mais sobre o passado social dos territórios onde vivem. A formação de novos quadros e a renovação dxs pesquisadorxs e das suas ideias é vital para o progresso da ciência. E, conforme sugere a ONU, xs arqueólogxs devem receber uma educação que também inclua a ética, a preservação do patrimônio cultural e, incondicionalmente, o respeito ao ambiente e às sociedades que vivem nas áreas de interesse para a arqueologia.

Tais preceitos também preconizam que xs arqueólogxs atuem em conformidade com as sociedades envolvidas, que as ouçam e as transformem em parceiras, respeitando e valorizando as suas perspectivas e histórias particulares e trabalhando em diálogo (não de cima para baixo, ou de fora para dentro). 

No caso da hidrelétrica de Belo Monte, as populações locais não participaram da parte que coube à arqueologia. Nem, igualmente, de outros momentos da obra, como tem denunciando constantemente o Ministério Público Federal pela ausência de consulta às populações atingidas.

Nem foram ouvidas, e nem tiveram as suas perspectivas valorizadas. Basta andar por Altamira para ver que a maioria não concorda com a obra que irá mudar suas vidas — principalmente aqueles que estão deixando suas casas e assistindo à sua destruição por tratores, como tenho recebido relatos de amigxs que vivem lá.

Esse não é um processo muito diferente daquele que a ditadura implantou em Itaipu, em Balbina e em Tucuruí. Nesse sentido, Belo Monte, e me perdoem a ironia, respeita uma longa tradição. Assim como os arqueólogos e outros cientistas que lá estão servindo.

O governo espera ligar a tomada de Belo Monte ainda este ano. Fora cálculos apresentados para convencer investidores, não se sabe realmente qual será a quantidade de energia que efetivamente vai passar pelas turbinas, nem o tamanho da área que será inundada e nem a que será secada (principal efeito na Volta Grande do rio).

Quem está sofrendo mais diretamente as consequências tem descoberto que vive na linha de alagamento e está sendo removido à força de tratores - no processo mais violento de deslocamento humano do Brasil pós-ditadura. Para ligar as turbinas, a empresa Norte Energia vai depender de uma licença específica emitida pelo Ibama.

Mas, se for levado a sério por aqueles que sentam nos balcões dos aparelhos do Estado um minucioso levantamento feito pelo Instituto Socioambiental, essa licença não deveria sair. Em "Dossiê Belo Monte: Não há condições para licença", não faltam descumprimentos de obrigações que a empresa havia se comprometido para avançar com a obra.

É provável, temo, que o governo utilize a tática que ficou conhecida pelas manobras do deputado Eduardo Cunha: mandar para o Ibama até que ele emita a licença, não aceitar jamais perder mesmo que esteja errado, repetidamente errado.

Esta não é a primeira vez que arqueólogos no Brasil que trabalham principalmente na Amazônia se posicionam contra o uso colonialista da ciência para a imposição de grandes obras para infraestrutura do extrativismo predatório. Aqui nessa coluna, publiquei carta onde escreveram (leia aqui): "conclamamos aos colegas de profissão a não participarem de atividades relacionadas ao licenciamento ambiental das barragens da bacia do Tapajós enquanto este processo seguir em um contexto de violações dos direitos das comunidades afetadas, que ainda não foram consultados segundo estipula a Convenção 169 da OIT".

No Brasil, há arqueólogos que realmente miram o futuro quando trabalham sobre o passado, enquanto há aqueles que olham o presente mas pensam como se estivessem no passado.

Abaixo a carta assinada por mais de 50 arqueólogos de universidades brasileiras.

Posicionamento sobre atividades de ensino de arqueologia propostas no âmbito da usina hidrelétrica de Belo Monte – Pará, Brasil

Na condição de docentes e pesquisadores em Arqueologia, vimos nos manifestar sobre a proposta de realização de um sítio escola na área impactada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte, recentemente divulgada por empresa de consultoria através do site da SAB (Sociedade de Arqueologia Brasileira).

Esta obra segue a descumprir as condicionantes do licenciamento ambiental e vem gerando irreversível desestruturação sobre as formas de vida dos povos indígenas e comunidades tradicionais da região. Foi acusada de causar um etnocídio indígena pela Procuradora Federal da República, Thaís Santi, também por afetar e violar direitos fundamentais dos demais povos tradicionais com remoções forçadas[1] e degradação ambiental.

Consideramos grave o fato de que o Estado não exigiu nenhum trabalho etnoarqueológico neste empreendimento, isolando os arqueólogos das comunidades tradicionais locais. Tampouco está claro se o destino da coleção arqueológica resgatada será a cidade de Altamira e se o material estará disponível para os descendentes das populações que ocuparam essa região.

Em Belo Monte o resgate do patrimônio arqueológico tem assumido uma conotação fetichista, ou seja, é o resgate do patrimônio por ele mesmo – algo que a lei prevê, mas que devemos começar a questionar e propor alternativas que sejam igualmente respaldadas pela legislação. Tentar reconstruir a história dentro de um processo que acaba com a possibilidade de transmissão de conhecimentos para as próximas gerações nos parece um paradoxo. Naturalizar e mercantilizar este processo, que leva à destruição ambiental e que representa a desestruturação cultural dos povos – que, em muitos casos, podem ser descendentes daqueles que produziram o patrimônio arqueológico que está sendo escavado – implica participar de um processo totalitário.

Preocupações semelhantes levaram a Sociedade de Arqueologia Brasileira em reunião da SAB Norte em agosto de 2014 a aprovar, em Assembleia Geral na cidade de Macapá, estado do Amapá, uma moção de Solidariedade para com os Povos do Tapajós. Um apelo foi feito aos colegas de profissão para não participar do licenciamento ambiental das hidrelétricas da Bacia do Tapajós, enquanto a consulta livre, prévia e informada (conforme estipulada pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, OIT e da qual o Brasil é signatário), não fosse efetuada entre os povos indígenas e comunidades tradicionais afetadas e reconhecida como tal pelo Ministério Público Federal. No dia 15/06/2015 o juíz federal Ilan Presser suspendeu o licenciamento da hidrelétrica de São Luíz do Tapajós e determinou a necessidade de realização da referida consulta.

Acreditamos que um sítio escola deva, antes de tudo, ser norteado por uma perspectiva de ensino pautada por preceitos teóricos explícitos, onde a metodologia aplicada e a ética profissional estejam alinhadas para que os estudantes participem de um processo de formação integral, o que necessariamente inclui o desenvolvimento de um senso crítico em relação ao contexto social em que atuam. Hoje, em pesquisas arqueológicas em áreas que envolvem povos originários e comunidades tradicionais, não é mais possível desconsiderar o contexto social circundante e desenvolver projetos ignorando ou alienando seus moradores. Perguntamos se é correto para a formação de novos arqueólogos realizar pesquisa e ensino em situações onde os seus fundamentos não atendam aos pressupostos humanitários e ambientais elementares sugeridos pela ONU e seus diversos organismos.

Por estes motivos, manifestamos publicamente nossa contrariedade à proposta tal como ela foi divulgada, recomendando que ela não seja implementada. Propomos ainda discutir a criação de um protocolo único pelo IPHAN, na forma de uma portaria e com termos de referência específicos para cada caso, que definam com transparência todos os passos da pesquisa arqueológica em contextos onde há povos indígenas ou tradicionais, ou mesmo grupos sociais que vivam nos locais afetados. Uma proposta deste tipo implica, ainda, a participação do Ministério Público Federal, da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), da Fundação Palmares, de movimentos sociais, da SAB e de outros setores da sociedade nacional. Isto deveria envolver também a obrigatoriedade da divulgação e da publicação detalhada dos resultados dentro de um período previamente estipulado, igualmente dentro de um protocolo único e rigoroso.

Brasil, 24 de junho de 2015.

Firmamo-nos aqui,

Anderson Márcio Amaral Lima – Técnico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá;

Anne Rapp Py-Daniel – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Ariana Silva Braga – Doutoranda da Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro;

Bruna Cigaran da Rocha – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Bruno Sanches Ranzani da Silva – Doutorando do MAE/Universidade de São Paulo;

Camila Pereira Jácome – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Carla Gibertoni Carneiro – Educadora do MAE/Universidade de São Paulo;

Célia Maria Cristina Dermatini – Apoio ao Ensino e Pesquisa do MAE/Universidade de São Paulo;

Cínthia Moreira – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Claide de Paula Moraes – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Cláudia Turra Magni – Docente da Universidade Federal de Pelotas;

Cristiana Barreto – Pós-doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Daniella Magri Amaral – Doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Eduardo Bespalez – Docente da Universidade Federal de Rondônia;

Eduardo Góes Neves – Docente do MAE/Universidade de São Paulo;

Eduardo Kazuo Tamanaha – Pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá;

Elisangela Regina de Oliveira – Docente da Universidade Federal de Rondônia;

Erêndira Oliveira – Mestranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Fabiana Rodrigues Belem – Doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Fábio Guaraldo de Almeida – Mestre em Arqueologia;

Fabíola Andréa Silva – Docente do MAE/Universidade de São Paulo;

Francisco Antônio Pugliese Junior – Doutorando do MAE/Universidade de São Paulo;

Francisco Forte Stucchi – Mestre em Arqueologia;

Francisco Silva Noelli – Professor aposentado da Universidade Estadual de Maringá;

Gabriela Prestes Carneiro – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Grasiela Tebaldi Toledo – Doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Guilherme Zdonek Mongeló – Doutorando do MAE/Universidade de São Paulo;

Gustavo Jardel Coelho – Graduando da Universidade Federal de Minas Gerais;

Jaqueline Gomes Santos – Mestranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Juliana Salles Machado – Pós-doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Kelly Brandão Vaz da Silva – Colaboradora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá;

Laura Pereira Furquim – Mestranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Lorena Gomes Garcia – Doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Luciano Pereira da Silva – Docente da Universidade Estadual do Mato Grosso;

Lúcio Menezes Ferreira – Docente da Universidade Federal de Pelotas;

Márcia M. Arcuri Suñer – Docente da Universidade Federal de Ouro Preto;

Marina Nogueira Di Giusto – Mestranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Márjorie do Nascimento Lima – Mestre em Arqueologia;

Maurício André Silva – Educador do MAE/Universidade de São Paulo;

Michael Joseph Heckenberger – Docente da Universidade da Flórida;

Michel Bueno Flores da Silva – Mestrando do MAE/Universidade de São Paulo;

Mikael Correia dos Santos – Historiador e graduando da Universidade Federal Vale do São Francisco;

Morgan J. Schmidt – arqueólogo

Myrtle Pearl Shock – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Pedro Henrique Damin – Mestre em Arqueologia;

Rafael Guedes Milheira – Docente da Universidade Federal de Pelotas;

Raoni Bernardo Maranhão Valle – Docente da Universidade Federal do Oeste do Pará;

Renan Pezzi Rasteiro – Mestrando do MAE/Universidade de São Paulo;

Sarah Kelly Silva Schimidt – Graduanda da Universidade Federal de Minas Gerais;

Silvia Cunha Lima – Pós-doutoranda do MAE/Universidade de São Paulo;

Vanessa Linke – Pesquisadora do MHNJB da Universidade Federal de Minas Gerais;

Vera Lúcia Guapindaia – arqueóloga

Vinícius Eduardo Honorato de Oliveira – Mestrando do Institute of Archaeology, University College London;

Vinícius Melquíades – Doutorando do MAE/Universidade de São Paulo;

Will Lucas Silva Pena – Mestrando da Universidade Federal de Minas Gerais.


 

Após a publicação deste texto, a Norte Energia S.A. procurou CartaCapital e enviou o seguinte esclarecimento: 

Esclarecimento da Norte Energia S.A.

Em relação ao afirmado no documento "A destruição em Belo Monte virou atração: o sítio-escola", publicado nesta terça-feira na Carta Capital Online, não há como ou porque os seu signatários, que são da área, ignorarem que os projetos da Norte Energia para aproveitamento dos sítios arqueológicos têm a aprovação do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).E que igualmente, a empresa trabalha nas áreas de influência do reservatório balizada por um Projeto Básico Ambiental que foi validado pelo órgão licenciador, o Ibama. As ações são regularmente acompanhadas pelos órgãos responsáveis por meio de relatórios e monitoramento nos locais. 

Além disso, o Programa de Salvamento Arqueológico desenvolvido na região da Usina Hidrelétrica Belo Monte segue os princípios teóricos e metodológicos da Ciência, como toda e qualquer pesquisa de viés técnico e científico. A Norte Energia o executa por meio de empresa especializada, com vasto histórico de trabalhos nesse campo do conhecimento. Afirmar o contrário é, antes de tudo, afrontar o currículo de especialistas, tão capacitados quanto se supõe que sejam os signatários.

Não por acaso a aceitação e a procura pelo Sítio Escola são significativas e crescentes: aproximadamente 80 alunos indicaram ter interesse em participar do projeto, dos quais 69 efetivamente se inscreveram, enviando carta de intenção, carta de recomendação e currículo para inscrição.

O projeto de Belo Monte já rendeu apresentações em congressos científicos. Nos próximos anos, junto com os trabalhos de laboratório, seus resultados devem proporcionar pesquisas em mestrado e doutorado com os dados e coleções arqueológicas geradas na área do empreendimento. Duas alunas da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolvem pesquisas de mestrado relacionadas à física de solos em terra preta com dados e materiais provindos das áreas de salvamento feito pela Norte Energia. Belo Monte entregará o material coletado para futuras pesquisas, mas já disponibilizou um acervo arqueológico riquíssimo, tanto quantitativamente como qualitativamente, o qual ficará à disposição para futuras pesquisas, suficientes para viabilizar estudos para as próximas décadas. 

Talvez por cair para o tom de manifesto ideológico, o texto publicado pela Carta Capital desconsidera os 35 anos de estudos feitos para a implantação do projeto da Usina Hidrelétrica Belo Monte e outros fatos que tornam ainda mais consistente a posição da Norte Energia. Parece tentar soterrar fatos que são de amplo conhecimento, principalmente para o público com que busca dialogar, os profissionais da área. De fato, os primeiros estudos arqueológicos referentes ao licenciamento ambiental de Belo Monte remontam à década de 1980, quando havia ainda a intenção de realizar os projetos hidrelétricos Babaquara e Kararaô. Os levantamentos iniciais foram realizados por instituição idônea e reconhecida internacionalmente, o Museu Paraense Emílio Goeldi.

Foi também o Museu Paraense Emílio Goeldi que realizou o diagnóstico arqueológico da configuração atual da usina Belo Monte, cujos impactos foram bastante diminuídos devido à drástica redução do seu reservatório ao modelo fio d’água, outro fato ignorado pelo artigo. É igualmente estranho, para quem é da área, passar por cima do registro de que o projeto é balizado por estudos inseridos no contexto da arqueologia amazônica, juntamente com os estudos pontuais realizados na década de 1970 e 1980 pelo pesquisador Celso Perota, por meio do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica.

Da mesma forma, mostra-se rasa também a argumentação sobre as condicionantes  –as obras e serviços que vêm sendo cumpridos à risca pela Norte Energia como compromisso com a lei e com a sociedade. Ela se equilibra fragilmente em suposições de opositores históricos da Usina Hidrelétrica Belo Monte, os mesmos que não se dão ao trabalho de compreender o novo modelo de empreendimento hoje em andamento no rio Xingu, sua importância econômica, política e social para a região. Nem de lembrar que o empreendimento está destinando 15% de todos os seus investimentos às condicionantes, o que resulta num aporte de cerca de R$ 3,7 bilhões.

Ao falar em condicionantes, o texto ignora até mesmo material largamente publicado pela imprensa. Ele permitiria confirmar que o órgão licenciador –o Ibama– já declarou que 80% dos projetos e ações socioambientais vinculados à licença de operação estão adequados ao cronograma estabelecido. E o restante está em execução ou já foi contratado para que seja convertido em benefícios reais a quem mora nos municípios do Médio Xingu e, longe de clichês, vivencia as mudanças na região.

A Norte Energia reafirma seu compromisso com a produção de conhecimento para o desenvolvimento econômico, social e ambiental da Amazônia. Lamenta que a esta altura do processo de construção de Belo Monte ainda haja a clara intenção de desinformar a população de forma proposital sobre o que está sendo realizado no Médio Xingu, em várias frentes. Sobretudo, no que diz respeito à conservação do patrimônio histórico e cultural das populações tradicionais locais e ao diálogo com a comunidade científica em busca de resultados cada vez melhores para compreensão da história e da evolução da Amazônia.


Tréplica do autor, Felipe Milanez:

Prezada Norte Energia S.A.

Primeiro agradeço a iniciativa de escrever uma carta e o manifesto interesse em participar desse espaço de debate. Não deixo de externar uma satisfação por saber que essa coluna, que discute temas de ecologia política, foi lida pela empresa.

Sobre as considerações feitas, parece ter escapado a crítica central, tanto da carta do grupo de arqueólogxs, quanto deste autor, qual seja: o respeito, o diálogo e o envolvimento da população local, tanto dos estudos arqueológicos quanto de todas as esferas do empreendimento. Não me parece que xs arqueólogxs críticxs discutiram a expertise dxs arqueólgxs consultores, mas sim o problema ético de trabalhar em um contexto de violações de direitos fundamentais, algo amplamente denunciado pelos movimentos sociais e Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos.

Outro ponto essencial colocado por elxs é a contradição entre a produção do conhecimento sobre a história enquanto que se acaba com a possibilidade de continuar a história das populações que hoje vivem na região, pois estas foram despejadas ou foram desestruturadas. O sítio-escola é mais uma ação contraditória dentro desse contexto.

Os cientistas consultores aceitam trabalhar em um contexto autoritário, posto em prática pela Norte Energia ao longo do processo de construção, em que o direito de consulta dos povos indígenas e ribeirinhos foi sistematicamente negado e a continuidade das obras, frente a reiteradas decisões cautelares da justiça, se deu por meio do mecanismo de exceção da ditadura, como a "suspensão de segurança".

O Dossiê elaborado pelo Instituto Socioambiental aponta que 42% das condicionantes relacionadas aos povos indígenas não foram cumpridas. O Ministério Publico Federal denunciou que o Plano de Proteção Territorial das mais de 13 terras indígenas "não foi iniciado e sequer há consenso sobre esse plano" que deveria ter sido colocado em prática há cinco anos, em 2010.

Se a empresa de fato ouvisse os povos indígenas e tradicionais afetados, ao invés de atacar intelectuais, teria um melhor conhecimento do tanto que falta fazer.

Felipe Milanez

Pesquisador do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra



Pedido de resposta de
 Carlos Eduardo Caldarelli, diretor da Scientia

Sou um dos diretores da Scientia Consultoria e já participei de um debate neste blog. Retorno, agora, não só porque a Scientia foi mencionada nominalmente, mas também pela oportunidade de apresentar um ponto de vista diverso do esposado no texto que inicia este novo debate.

Assim, em primeiro lugar, o sítio-escola acusado de resumir-se a “turismo” e de ser parte de uma “Disneylândia de conflitos” é, pelo contrário, ensino, no qual os participantes são tratados respeitosamente como pessoas em busca de fazer parte de uma atividade educativa. Tratá-los como turistas e “consumidores-alvo”, como faz o texto que inicia o debate neste blog, é, no meu entender, desrespeito e desconsideração. Por isso, creio que os participantes do sítio-escola são credores de, no mínimo, um pedido de desculpas.

Em segundo lugar, ensino gratuito e subvencionado é sinônimo de inclusão. Qualquer interessado pôde candidatar-se a participar do sítio-escola, inclusive ex ou atuais membros das comunidades tradicionais da região, que se contam entre os que estão, tanto formal quanto informalmente, participando do sítio-escola. Sei de pelo menos uma alternativa de sítio-escola na Amazônia, ao preço de US$ 4.600 por participante. O que quer que seja ensinado nessa alternativa, ao contrário do que acontece com o sítio-escola atacado neste blog, certamente não é para todos.

Além disso, uma escola que apresentasse a Arqueologia em um contraste empobrecedor, em branco e preto, entre os filmes de Indiana Jones (!!!) e a luta pela descolonização, etc., não seria mais do que o que Paulo Freire - injustamente chamado no texto que inicia o debate neste blog para apoiar uma monstruosidade como essa - de certo, consideraria como sendo o mais novo exemplo de “ensino bancário”, em que o professor depositaria aquele contraste em branco e preto no cérebro dos alunos, travestido por ele em conta bancária, e, depois, sacaria exatamente o conteúdo depositado em gotas, nem mais nem menos, em uma prova final. Quem fosse reprovado receberia, então, o chapéu do Indiana Jones, com a inscrição “INSTRUMENTO DE COLONIZAÇÃO E SAQUE”, assim mesmo, em garrafais, sendo condenado(a) a desfilar paramentado(a) desse jeito para ser execrado(a) até manifestar o seu arrependimento pelo “pecado” cometido.

Por último, o sítio-escola não está ocorrendo sobre um ex-sítio arqueológico, pois, graças ao programa de salvamento arqueológico que foi e continua sendo implementado na área de influência direta da UHE Belo Monte, os sítios arqueológicos ali existentes foram e continuam sendo pesquisados ou preservados, conforme o caso, sob a supervisão do IPHAN. A visitação ao sítio-escola é livre, basta ir até lá a quem se disponha a fazer isso, para comprovar o que se afirma aqui. A divisa atribuída a São Tomé, “só acredito vendo”, continua sendo o melhor remédio contra a inverdade.

Enfim, o sítio-escola atacado neste blog não é excludente nem um engodo, pois não pretende substituir um ensino livre e democrático, onde os participantes, quaisquer que sejam, são tratados com respeito e consideração, por algum ensino pago e elitista e, muito menos, por algum ensino bancário e de lavagem cerebral, que pretende tratar alunos como se fossem bobocas que confundem Arqueologia com filmes de Indiana Jones ou com luta pela descolonização, como se enfiar a “verdade absoluta” de arqueólogos autonomeados como anticolonialistas pelo ouvido adentro dos membros das comunidades tradicionais da Amazônia fosse contribuir para resolver magicamente, de algum modo, as muitas contradições geradas pela implantação de grandes empreendimentos na região.


Resposta de Felipe Milanez ao Pedido de Resposta

Prezado advogado e diretor da empresa Scientia

Agradeço o seu interesse em participar do debate desta coluna, e espero que as informações circuladas nesse espaço, sempre aberto para expor visões contraditórias, contribuam para o desenvolvimento de uma visão crítica.

Não restam dúvidas de que os argumentos do meu comentário, quanto da carta dos arqueólogos críticos, possuem bastante sustentação, como o senhor, a empresa que integra e a Norte Energia perceberam e se insurgiram para tentar desviar o foco das críticas principais sobre a ausência da participação das populações locais nos processos que afetam negativamente suas vidas, inclusive a atração do "sítio-escola". E espero que esses questionamentos ajudem estas empresas a refletirem em suas atuações para uma forma mais democrática.

Uma parte da arqueologia no Brasil tem avançado muito nos últimos anos em produzir um conhecimento crítico sobre o passado em relação ao presente, mirando para melhorar o futuro. Por isso: é preciso separar o que é pesquisa científica, do que é serviço científico. E sempre deixar claro quais são os interesses envolvidos. Para que não se confundam, nem confundam a população. Principalmente, não confundir aquelas pessoas que vivem nas áreas de interesse da arqueologia, para que possam perceber nitidamente quando estão diante de Indiana Jones a serviço do capital, ou quando estão diante de uma possibilidade de diálogo para produzir uma reflexão crítica sobre o mundo. Entre o "objeto da pesquisa que os especialistas fazem", e "o povo como sujeito do conhecimento de si mesmo", como escreveu Paulo Freire, há uma diferença abissal.