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Opinião

Xereca Satanik, liberdade e dignidade

por Pedro Estevam Serrano publicado 05/06/2014 09h59, última modificação 13/06/2014 18h51
Evento em que mulher teve a vagina costurada causa polêmica, mas o direito de liberdade é garantido também para proteger decisões estúpidas

Causou alvoroço e abertura de inquérito pela PF o evento chamado de “xereca satanik “ na Universidade Federal Fluminense.

Após um seminário ocorreu o happening de protesto contra a ocorrência de estupros no campus, onde uma atriz costurou a  própria vagina como forma de expressão reativa a violência. Foram ainda atribuídos ao happening a realização de cultos satânicos, orgias e consumo de álcool e drogas ilícitas.

De plano se evidenciam alguns aspectos do ocorrido que merecem reflexão e debate quanto ao tema por seu evidente interesse público, quais sejam em caso de haver dinheiro publico usado direta ou indiretamente no evento, se este tipo de atividade merece investimento público e também se conta com estatura acadêmica ou artística para ter sua realização autorizada numa universidade.

Não conheço detalhes do evento para formular um juízo definitivo a respeito, mas pelo que li na imprensa me parece evidente que, ao menos, o tal happening não é o tipo de manifestação adequada ao ambiente universitário. Não vi nele nada além de intensidades imaturas que nada têm de real capacidade de instigar o necessário debate e reflexão do corpo como espaço da politica na contemporaneidade.

Se foi realizado com algum tipo de apoio financeiro público creio que há mais pecado nessa circunstância. Certamente, na carência de recursos públicos na área de educação temos atividades mais relevantes a subsidiar.

Mas a critica a meu ver adequada deveria se dar por esses temas. E o que temos visto na mídia e em opiniões diversas é um verdadeiro carnaval de moralismo autoritário fantasiado de indignação.

Costurar a própria xereca não é crime. Cada ser adulto pode fazer de seu corpo o que bem lhe aprouver. O mesmo se diga de consumo de álcool, rituais satânicos e orgias. Consumo de drogas é um crime menos grave e que ocorre também nas festas de alta sociedade e ninguém fica tão indignado. Quem discorda dessas atividades por questões morais que delas não participe, mas não pode querer impor seus valores morais no campo dos costumes como universais no horizonte de uma sociedade livre e democrática. Cada um no seu quadrado, como diz a juventude.

Interessante verificar como alguns se utilizam do argumento da manutenção da dignidade humana para tentar dar um foro universal a valores morais de grupos específicos.

Óbvio que a dignidade humana, em algumas situações específicas pode mesmo se traduzir em limite à liberdade do uso do próprio corpo, mas isso quando esta dignidade se traduzir em dano relevante à comunidade ou a outros indivíduos.

Procurar usar do argumento da dignidade humana para restringir a liberdade corporal em situações que não haja ofensa a interesses sociais ou de terceiros nada mais é do que buscar arrimar em um argumento universal os interesses particularistas de impor os próprios valores morais a todos, sem dar valência à tolerância que deve imperar numa sociedade livre de alta complexidade como a nossa

Assim, toda legitimidade me parece haver quando se quer limitar a possibilidade de vender órgãos do próprio corpo, isso porque este ato comercial atinge o direito de igualdade de acesso a meios de cura e sobrevivência. A saúde pública e o interesse social obrigam a limitação dessa liberdade de disposição do próprio corpo.

Mas costurar a própria vagina, por mais repugnante que pareça a qualquer adulto de bom senso, é um ato que nada ofende terceiros. O direito de liberdade é garantido também para proteger decisões estúpidas dos indivíduos.

Assim menos moralismo e mais dignidade no debate. Neste tempo histórico de emergências e exceções suspensivas de direitos, mais do nunca temos de cuidar da preservação de nossas liberdades.