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Sociedade

Análise

Vou ter que fazer o papel do chato: o protesto anticopa flopou

por Lino Bocchini — publicado 14/03/2014 12h25, última modificação 14/03/2014 18h43
Quando tem mais polícia do que manifestante em um protesto, há duas conclusões: havia polícia demais e manifestantes de menos. Atos de junho eram centenas de vezes maiores
Wesley Passos
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Manifestantes e jornalistas na avenida Paulista na noite desta quinta-feira em São Paulo

O protesto de ontem em São Paulo contra a Copa do Mundo foi uma má notícia tanto para quem torce contra o mundial por motivos eleitorais quanto para os movimentos que, de forma legítima, aproveitam a competição para dar mais visibilidade às suas justas bandeiras. Todos os veículos de comunicação, sejam “de esquerda” ou “de direita”, foram unânimes: no protesto desta quinta-feira à noite em São Paulo havia mais policiais do que manifestantes. Após a passagem pelo Masp, aliás, tinha até mais imprensa do que gente protestando. E, se teve mais polícia do que manifestantes, duas conclusões se impõem: 1) tinha policial demais e 2) tinha manifestante de menos.

E foi a segunda vez que isso aconteceu. Mais uma vez o ato anticopa tratado como “oficial” por agentes públicos e militantes --virtuais ou não—tem mais polícia do que manifestante.

Estive no ato de ontem e também em praticamente todos os de junho em São Paulo. Fui no primeiro, quando ninguém sabia direito o que estava acontecendo. Estive na noite do prendo-e-arrebento geral da PM, quando ajudei a libertar um repórter de CartaCapital, um dos tantos presos ou feridos injustamente naquela noite. Estava lá quando a “direita” ameaçou se apropriar dos atos e o gigante acordou verde e amarelo. O momento é outro e as bandeiras não são exatamente as mesmas, mas há similaridades. E dizer que qualquer protesto daqueles de junho era dezenas de vezes maior do que o de ontem é bondade. Eram 100 ou 200 vezes maiores. No Rio de Janeiro falou-se mais de uma vez em um milhão de pessoas na rua. A própria PM paulista chegou a falar em 100 mil pessoas.

Nesta quinta-feira, considerando-se a percepção geral de que tinham mais PMs do que gente protestando, eram no máximo 1.700 insatisfeitos na rua.

Em Paris, os protestos são quase semanais na “Paulista deles”, a Champs-Élysées. E há um modus operandi simples e tranquilo a cada um deles: a polícia acompanha numa boa, a engenharia de tráfego desvia o trânsito e quem tem que passar por ali ou trabalha na região se reorganiza. Raramente alguém é preso ou ferido, e todas as reivindicações sociais são feitas e noticiadas pela imprensa.

Poderia ter sido assim em São Paulo. Além da CET, duas ou três viaturas acompanhando à distância teriam dado conta do recado.

São justas as bandeiras dos movimentos sociais que lá estavam. Por outro lado, considero injusta a ação de setores que, sem ligação alguma com os movimentos sociais que protestam, jogam contra o país e torcem por problemas na Copa, apenas em nome de derrotar um governo ao qual se opõem.

O coro dos que não querem o mundial é muito –mas bota muito nisso—maior no Facebook ou nos jornais do que na rua. Pode ser que mude? Pode, claro. Há quem acredite que ainda há atores que não entraram em campo e que eventualmente poderiam engrossar as manifestações daqui em diante. Por enquanto, contudo, o barulho feito em torno dos protestos anticopa, seja na mídia, seja nas redes sociais, é muitíssimo maior do que seu tamanho real.