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Sociedade

Crônica do Menalton

Viva o povo brasileiro

por Menalton Braff publicado 14/11/2014 13h51
O Brasil não precisa de médicos, somos especialistas em quase tudo, e todos entendem de literatura. Quem aqui não poderia dirigir a seleção de futebol? Não há o que a gente não saiba

O Brasil é um País maravilhoso. Não só por suas belezas naturais, como o Pão de Açúcar e as praias do Nordeste, com suas palmeiras e as águas cálidas. O Brasil é um País maravilhoso principalmente por causa de seu povo gentil, varonil, a quem o falecido João Ubaldo vivou no título acima que lhe tomei emprestado.

Lima Barreto, notável escritor do passado, criou Bruzundanga e botou nela um povo que sabia tudo. Nós copiamos Bruzundanga em muitos aspectos, mas aquele em que talvez a superemos é na sabedoria do povo. Impressionante! Quem no Brasil não poderia dirigir a seleção de futebol? Acho que não existe brasileiro que não seja técnico desse esporte. E de medicina, então! O Brasil não precisa de médicos. De janela a janela, em rápida conversa com a vizinha, pode-se obter de graça um bom diagnóstico e a respectiva receita. Somos todos especialistas em quase tudo.

Não é sensacional tudo isso? Não há o que o brasileiro não saiba. Agora, por exemplo, todo mundo entende de literatura. E isso é esplêndido. Eu fico aqui cogitando com meus botões: para que servem as Universidades senão para gastar o dinheiro público? Nos bares, além do consumo de cerveja, que ninguém é de ferro e a temperatura não é mole, salvamos o mundo, incrementamos a economia, consagramos alguns autores e destruímos o prestígio de outros, tudo isso com muita segurança, pois a certeza é também uma de nossas características.

Li há pouco tempo o livro Altas Literaturas, de Leila Perrone-Moisés. Mas vou tentar esquecer o que li, porque ela pesquisou mais de cinquenta anos o que publicou, e, pior ainda, era orientadora do curso de pós-graduação da USP. E isso só depõe contra ela. O bom é a sabedoria das ruas, aquilo que vem espontaneamente do povo. Conhecido meu de mesa e copo, depois de uns poucos goles, jurou para o grupo que esta história de qualidade literária é puro papo furado, que, estando escrito, é tudo a mesma coisa: não existe melhor nem pior. E ele, que já leu três livros de literatura em toda sua vida, e os cita sempre que pode, expõe impudicamente seus conceitos sobre a matéria no bar onde é respeitado como sábio.

Aristóteles, que não jogava futebol nem entendia de medicina (apesar de ser filho de médico), pôs-se a falar de poesia. Chegou a escrever um livro a que deu o pomposo título de Poética. E tem gente que ainda lê essas velharias. Esse amigo que leu três livros de literatura, quando falo em Aristóteles, costuma me repreender, dizendo que o mundo é pra frente e não pra trás. Como não sou de briga, coisa que abandonei pouco depois da adolescência, concordo com o sábio, porque em mesa de bar é que milita a sabedoria.