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"Violência na USP não é questão de 'fora PM'"

por Mariana Melo — publicado 09/05/2014 04h52
A antropóloga Ana Lúcia Pastore, nova superintendente de segurança da universidade, promete uma gestão com mais diálogo, inclusive com a Polícia Militar
Marcos Santos/USP
Ana

“Qual a melhor forma de nos relacionarmos com a PM sem que nós nos sintamos acuados como cidadãos?" falou a antropóloga à CartaCapital

Quem frequenta qualquer um dos campi da Universidade de São Paulo (USP) já ouviu falar ou foi vítima de situações de violência. Em um universo com mais de 110 mil pessoas espalhadas pelos sete campi, são 400 guardas universitários, sendo 100 desses deslocados para o campus que fica no bairro do Butantã, em São Paulo. Esse efetivo parece não dar conta. São comuns os relatos de roubos, furtos e até sequestros. De janeiro a abril deste ano, segundo dados da própria instituição, foram 94 ocorrências de furtos e 31 ocorrências de roubos. Os alunos são obrigados a adotar estratégias como andar em grupos para ir ao banco ou aos pontos de ônibus, numa universidade ainda mal iluminada.

Junta-se a isso a desconfiança que se formou na relação da Polícia Militar com parte dos alunos. A PM, que em 2011, com o assassinato do aluno Felipe de Paiva, 24 anos, chegou a estabelecer uma base móvel próxima da Portaria 1, já não atua mais no campus, pelo menos no sentido de promover a segurança da comunidade uspiana.

Neste cenário, o atual reitor, Mario Antonio Zago, tomou uma medida que pode ser vista como uma tentativa de aproximar sua gestão dos anseios da comunidade acadêmica, principalmente dos alunos. Para o cargo de chefe da Superintendência de Segurança da universidade, antes ocupado pelo policial militar reformado Luiz de Castro Júnior, Zago convidou a antropóloga Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, de 50 anos, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Violência (NEV).

A mudança parece sugerir que a questão da segurança nos campi será tratada de uma maneira diferente agora. “O que é muito importante divulgar para comunidade é que havia uma gestão extremamente centralizada na figura do superintendente e dos seus três, quatro assessores, todos coronéis”, diz Ana. Formada em Direito e Ciências Sociais, com mestrado e doutorado em Antropologia Social, ela quer mudar a filosofia da segurança na universidade. “Esta mudança de concepção de estrutura organizacional é que eu estou enfatizando neste momento”, afirma.

Para isso, Pastore está realizando reuniões e formando um Grupo de Trabalho (GT) Interno que, futuramente, constituirá um Conselho Deliberativo da Superintendência. “Esse GT teria o poder de pautar questões de forma colegiada e a figura do superintendente, hoje ocupada por mim, seria a figura de presidente deste conselho.”

A participação da comunidade acadêmica nas decisões da superintendência se dará na forma de um Grupo de Trabalho Externo, futuramente, um Conselho Consultivo. Esse conselho, segundo Ana, será formado por representantes discentes, docentes e funcionários. “Iniciativas que eram boas, antes, causavam estranhamento porque não eram consultadas. A presença da PM no campus foi uma decisão totalmente de cima pra baixo e isso será revisto, inclusive com pesquisas.”

Polícia na USP 
A antropóloga defende a permanência da PM no campus como um direito constitucional e aponta que, devido à deterioração da relação dos policiais com os alunos, a PM já se encontra ausente do campus. Segundo ela, é dado um protagonismo exacerbado a isso quando se discute segurança na USP e isso, por si só, já cria um problema. “A PM é uma interlocutora da questão da segurança e não pode ser desprezada. Ela tem um papel constitucional, que não pode ser substituído, como lavrar um BO, fazer perícia em local de crime. Há funções constitucionais legais da polícia que não podem ser substituídas pela vontade, ainda que representativa, de uma comunidade acadêmica.”

Pastore sugere que a convivência entre polícia e comunidade USP pode ser tranquila se houver diálogo. “A questão é: qual a melhor forma de nos relacionarmos com a PM sem que eles se sintam acuados e sem que nós nos sintamos acuados como cidadãos? E acho que a USP tem um protagonismo não só de pensar melhor em polícia para o campus, mas sim, uma melhor polícia para os cidadãos. Há uma massa crítica aqui pensando nisso há muito tempo. Não sou favorável ao slogan ‘Fora PM do Campus’, sou à favor do slogan ‘Que polícia militar desejamos pra dialogar nas questões que a ela compete no campus’.”

Ainda sobre a polícia, Ana promete esforços para que os conflitos dentro da USP não exijam intervenções da polícia. “Vamos esgotar todas as possibilidade de diálogo diante de qualquer conflito e investir em instâncias de mediação. Que não seja repressivas, mas construtoras de consensos. Agora, existem grupos que não querem dialogar. Você vai fazer o que? Sucumbir à força ao eventual desrespeito às liberdade individuais, ao patrimônio? Esgotadas todas as vias de diálogo, e aqui acho que há muitas, realmente será preciso tomar atitudes até para não cair no desrespeito ao que a própria Constituição prevê, porque qualquer dirigente que deixa o patrimônio ser depredado está sujeito a processos administrativos, de improbidade.”

Corte de Investimentos
A nova superintendente afirmou, também em sua entrevista à CartaCapital, que o corte de orçamento e as dificuldades financeiras da USP devido à má gestão do reitor João Grandino Rodas não irão afetar os necessários investimentos em segurança. “Foi me dada liberdade de pautar junto à reitoria o que for considerado prioritário para segurança. Inclusive a iluminação, que está em andamento, e outras questões ligadas ao acesso, às guaritas, às viaturas, mas como tudo isso estava muito travado aqui dentro, infelizmente, da noite pro dia não vai ser possível criar uma situação milagrosa.”

Quanto aos problemas de violência nos campi, sempre urgentes, Ana disse estar se preparando e tomando atitudes mais imediatas. “Eu leio diariamente um boletim interno da superintendência que já me deu uma noção de que o maior problema aqui são furtos e roubos. Nós estamos tentando direcionar as rondas pra esses pontos. Recebemos demandas da ouvidoria e sempre que algum setor da universidade diz “aqui está muito fragilizado” o operacional é informado para que atue ali com rondas constantes e ostensivas. São medidas emergenciais.”

Ana também pensou em uma campanha para evitar um “comportamento de risco” em relação aos assaltos. “Quando a gente estaciona em qualquer lugar de São Paulo a gente não olha o que deixou dentro do carro? Por que dentro da USP seria diferente? Acho que as pessoas não se dão conta de que a USP não é uma ilha, nem pro bem e nem pro mal.”

A escolha por uma antropóloga no lugar de um policial militar tem um importante valor simbólico, segundo a professora. “O Zago depositou em mim a esperança de um novo momento, não só em relação à gestão dele, mas à gestão de segurança. Quando ele escolheu uma mulher, antropóloga, com uma abertura interdisciplinar, acho que podemos colocar na opinião dele a questão da segurança num rol muito mais amplo de debate do que a questão da polícia. Acho que é essa a expectativa, e que não vinha sendo suprida.”

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